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sábado, 29 de maio de 2010

Adoro Cinema: entrevista com José Joffily, diretor de Olhos Azuis


José Joffily é um dos diretores mais atuantes do cinema nacional na última década. Agora ele retorna ao circuito com seu novo trabalho, o drama Olhos Azuis.

O editor do Adoro Cinema Francisco Russo encontrou o diretor e bateu um papo sobre o filme. Confira logo abaixo.

ADORO CINEMA: Este é seu segundo filme relacionado com os Estados Unidos, o anterior foi Dois Perdidos Numa Noite Suja. Como você vê a diferença do país como pano de fundo nestas duas histórias?

JOSÉ JOFFILY: As histórias são muito diferentes. Um dia fiquei pensando se o Tonho não seria uma espécie de Nonato, a biografia dos dois poderia ser parecida. Mas de fato é curioso. Eu tinha um outro projeto, que naufragou, "Meu Nome Não é Joe", que era o personagem do imigrante. Não sei porque esta fixação com o imigrante. Eu sou imigrante, sou paraibano, mas é imigrante classe média e interno. Fato é que trata-se de uma questão muito contemporânea, o desejo de se movimentar para viver melhor. Acho que este sonho é legítimo, forte, intenso. Paradoxalmente em um país onde se fala que tudo é planetário as fronteiras se fecham. Há uma contradição maluca. O planeta foi esquadrinhado, com pobres para cá, ricos para lá. Você vê, acho que boa parte dos europeus gostaria que a África afundasse, para não chatear mais. O Marshall tem um discurso muito franco em relação a isto. Os Estados Unidos têm muito esta característica, é um povo muito assertivo, ele fala de fato o que pensa. O Marshall, nesta sinceridade desconcertante que ele diz e movido pelas condições físicas, é assim.

A gente gravou uma versão que contava muito da biografia dele. A gente foi subtraindo estas informações, mas havia uma biografia. Ele era um homem sozinho, não tinha se casado, era meio que o protetor do Bob. Mas o personagem sempre teve esta característica, de representar o que é a classe média americana. A grande maioria silenciosa que deixou o Obama ser eleito e, na próxima eleição, estará maciçamente para impedir que o Obama se reeleja. O Marshall representa isso.


AC: O que me fez lembrar de Dois Perdidos Numa Noite Suja foi que ele tem uma cena em que aparecem as Torres Gêmeas. Inclusive o filme foi lançado pouco depois do atentado. Isto foi um divisor de águas na questão de como tratar o imigrante nos Estados Unidos.

José: Foi. A gente filmou primeiro no Brasil, os interiores. Depois montou o filme, mas deixamos pontas pretas com o que acontecia nos exteriores de Nova York. Lembro que fomos filmar o verão, em agosto, e quando saímos de lá, poucos dias depois, aconteceu a tragédia das torres gêmeas. Lembro que na hora em que vi aquela tragédia egoistamente pensei "como é que vamos ter continuidade para o filme?" Cabeça de cineasta é muito maluca. Mas na verdade não havia problema algum, porque com as torres era o passado do Tonho e quando as torres caem é o presente. Aí voltamos para filmar no inverno. O clima já não era o mesmo nos Estados Unidos, claro. Já tinham passado cinco meses, mas a cidade ainda tinha um climão provocado pela tragédia.

AC: A questão da imigração existia naquela época também, mas de lá para cá piorou muito e ficou muito mais rígido.

José: Ficou mais dura, você viajar hoje de avião virou um inferno. É preciso ter uma paciência monumental, viajar é muito complicado. E você se sente meio intruso, com aquela fila nos aeroportos. Eles reservam uma fila acelerada para os europeus e uns guichês para avaliação mais detalhada. Como o Marshall diz, os ingleses e franceses não querem entrar aqui no nosso país para conseguir empregos.


AC: Foi desta observação que nasceu a ideia de Olhos Azuis?

José: Não, a ideia do roteiro nasceu de um amigo que ficou lá em casa. Em 1998 ele foi deportado. Morava nos Estados Unidos, estava com o green card dele vigente e encontrou um Marshall pela frente. Aí foi deportado, veio para cá e não tinha para onde ir. Ele ficou hospedado na minha casa por três meses. Uma situação bizarra, porque ele tinha casa mas não podia ir para lá, pois era em Nova York. Neste período ele planejava o retorno e me contava os episódios de imigração, de como tinha acontecido. A origem do argumento foi esta.

AC: Como foi a seleção do elenco estrangeiro?

José: Tínhamos um coprodutor argentino, que fez a seleção do elenco por lá. Enviou uns DVDs para a gente, avaliamos aqui. Nos Estados Unidos contratei um agente para fazer a seleção e nos enviar DVDs com sugestões para o Bob, a Sandra e o Marshall. Depois fui lá para conversar com uns 10 atores. O gerenciamento desta questão é meio complicado, de trazer o ator. Tudo é uma demanda especial. Dá um pouco de trabalho, mas eu e a Heloísa Rezende tínhamos a certeza de que ter um elenco pertencente aos países dos personagens conferiria ao filme um sabor especial. Valeu a pena o esforço. Não foi tão complicado, mas foi demorado. Tinha que ser um bom ator para ser o protagonista. Uma estrelona não tínhamos condições de contratar, então tinha que passar por um processo de seleção objetivando encontrar um bom ator. O Bob e a Sandra eram importantes, claro, mas não tinham a importância de um protagonista. Então dedicamos mais atenção a ele.


AC: O Irandhir Santos comentou que teve dificuldade com a língua, que você deu a ele um tempo para que aprendesse o inglês de rua. Teve mais algum caso deste tipo no elenco?

José: A Branca Messina morou muito tempo na Espanha, mas eu queria que ela tivesse um sotaque cubano. Coloquei um cubano ao lado dela, uns cinco meses, para fazer isso. O Irandhir pegou rápido. A Cristina Lago também não tinha muita desenvoltura no inglês. É difícil definir o quão bem um personagem deve falar inglês, como ele deveria piorar ou melhorar seu inglês. Ao mesmo tempo se entender com o elenco, no set de filmagens, e fazer improvisos. A gente fez esta opção, mas é difícil encontrar o tom.


AC: O filme será lançado com 17 cópias. Qual é a sua expectativa em relação a público?


José: Minha expectativa é zero. É um mercado muito afunilado e muito concentrado. Não me atreveria a dizer um número de espectadores que assistirão ao filme, teria que ter um conhecimento enorme do mercado. Mas certamente não há milagre. Para fazer um milhão de espectadores você tem que gastar um milhão de reais, ou seja, para cada espectador você gasta um real. Com sorte. Você pode não fazer e gastar um milhão, mas para fazer precisa gastar um milhão. Nâo existe algo que contrarie este pensamento.


AC: Você tem vários filmes que foram premiados, exibidos em festivais, mas não teve um grande sucesso. Como é para você, como cineasta, esta questão?


José: Lido bem, porque quero fazer os filmes que me interessam. Farei filmes melhores se eles forem com os temas que me interessam e piores se não me interessam. Eventualmente poderia até fazer, tenho artesania suficiente para fazer. Mas não me interessa. Então tenho também que considerar que já que resolvi fazer estes filmes o resultado deles certamente será diferente de uma comédia, que tenha uma aproximação maior com o público. Se bem que tenho pensado muito em fazer um outro tipo de filme. Às vezes acho que os filmes que faço são meio duros. O primeiro filme de ficção que fiz foi um curtametragem, uma comédia chamada Alô Teteia. Tinha 10 minutos, de 1978. Comédia rasgada, com a Louise Cardoso, o Hugo Carvana, Paulão e Anselmo Vasconcelos.

AC: Seu próximo projeto então deve ser uma comédia mesmo ou tem algo mais em vista?

José: Não, será uma comédia rasgada. Gostaria de fazer.
 
 
LEIA O POST ORIGINAL AQUI.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Outra leitura

do Blog: Imagem em Movimento, por Christian Jafas, maio 2010.



Preconceito sm. 1. Ideia preconcebida. 2. Suspeita, intolerância, aversão a outras raças, credos, religiões, etc.

A definição dada pelo Dicionário Aurélio parece simplista ao primeiro olhar, mas as poucas palavras utilizadas são precisas, diretas e garantem um significado inequívoco para o termo. Olhos Azuis, oitavo longa-metragem de José Joffily, também possui essa rara qualidade e consegue transpor para a película, com exatidão, os sentimentos de quem um dia aprendeu o sentido do vocábulo sem ter que procurar no dicionário.

O ponto de partida para a análise que Joffily propõe parece ter saído de um filme de ação norte-americano, mas tiros e explosões são desnecessários aqui. Marshall (David Rasche), chefe do Departamento de Imigração do Aeroporto JFK, em Nova Iorque, celebra o último dia de trabalho, antes da aposentadoria forçada, incomodando um grupo de latino-americanos que ainda sonham com a terra prometida pelo Tio Sam. O incômodo que os latinos sofrem na sala de espera do aeroporto transcende a tela e recaí sobre os expectadores que, impassíveis como os personagens, compartilham das humilhações e agressões.
 
Para atingir esse estágio de interação com a platéia, José Joffily utiliza metáforas audiovisuais, um elenco forte e o recurso da montagem paralela. Vemos a trama ser revelada aos poucos, lentamente, passo a passo, enquanto nos aprofundamos na construção dos personagens. A montagem paralela nos leva a antever os acontecimentos e a julgar antes da hora, do mesmo modo que os oficiais da imigração fazem quando precisam decidir quem entra nos Estates e quem pega o avião de volta para seu país de origem.

A escolha por esse estilo de edição se mostra mais do que acertada, já que também permite aos atores coadjuvantes brilharem nos seus momentos em cena. Cada microuniverso que a narrativa constrói possui tensão e conflito na mesma escala da trama principal e esses elementos somados contribuem para a sensação de incômodo que atravessa a projeção do início ao fim.
 
O roteiro é dividido em camadas que apresentam duas realidades distintas, mas que irão percorrer caminhos paralelos até a inevitável fusão. A relação entre Marshall e o brasileiro Nonato, interpretado magistralmente por Irandhir Santos, é o fio condutor da história. Quando Marshall deixa de ser “O Chefe” para ser “O Gringo” a perspectiva muda e a relação dele com a prostituta Bia (Cristina Lago) estabelece uma segunda realidade no filme. A alternância entre essas duas realidades ora imprime um ritmo de road movie, ora de suspense impedindo que o expectador se acomode e evitando que o desfecho seja facilmente revelado.

Olhos Azuis foi o grande vencedor do Festival de Paulínia 2009 conquistando o troféu Menina de Ouro nas categorias de Melhor Filme, Melhor Roteiro, Melhor Montagem, Melhor Atriz (Cristina Lago), Melhor Ator Coadjuvante (Irandhir Santos) e Melhor Som. O desafio agora é conseguir ultrapassar as barreiras impostas por outra forma de preconceito.

O filme será lançado nesta sexta, 28 de maio, e dividirá as salas de cinema com os blockbusters do verão norte-americano. A invasão dos ‘olhos azuis’ em terras tupiniquins começou com Homem de Ferro 2, Robin Hood, Fúria de Titãs e na próxima semana teremos a estréia de Príncipe da Pérsia – adaptação do famoso joguinho da década de 80. Não seria o caso de utilizarmos o mesmo discurso de qualquer fiscal da alfândega norte-americana: “Vocês entram aqui, pegam nossos empregos, ganham dinheiro, mandam para seus países e nós, como ficamos?”

Sem apelar para o nacionalismo exacerbado podemos dizer que nós temos escolhas e uma delas é ver o ótimo trabalho de José Joffily na tela grande. Não deixe para ver em DVD. A elaborada fotografia de Nonato Estrela e a inquietante trilha sonora de Jaques Morelenbaum esperam por você.
 
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Clique aqui para ler o post original.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Em "Olhos Azuis", Joffily aborda preconceito contra imigrantes brasileiros nos EUA

por: ALYSSON OLIVEIRA,  Especial para o UOL, do Cineweb, maio 2010.

Personagem de David Rasche viaja ao Brasil em ''Olhos Azuis'', filme de José Joffily

O cineasta José Joffily sabe que com seu novo trabalho, “Olhos Azuis”, está mexendo numa ferida delicada de ordem até internacional: a entrada de estrangeiros nos Estados Unidos. “A triagem de quem entra é um processo completamente aleatório. Não são nada raras as situações que o filme trata”, comentou o diretor ao UOL Cinema.
 
Em “Olhos Azuis”, um brasileiro residente nos Estados Unidos volta ao país depois de visitar a filha em Pernambuco. Ao desembarcar é barrado pelo serviço de imigração que confisca seu passaporte e o submete, junto a outros latinos, a duro interrogatório. Joffily conta que o ponto de partida aconteceu no final dos anos 1990, quando um amigo passou pela mesma situação e acabou deportado.


“Quando se chega ao aeroporto nos Estados Unidos, você é separado por categorias: americanos, europeus, e as pessoas do resto do mundo. O preconceito já começa aí. E com os mais jovens é ainda maior, porque os oficiais da imigração veem neles um imigrante ilegal em potencial”. Curiosamente, a ideia de fazer o filme começou há mais de dez anos e, depois dos atentados de 11 de setembro de 2001, Joffily percebeu que a paranóia contra quem entrava nos Estados Unidos ficara ainda maior.
 
 
Joffily lembra que no final de agosto daquele ano, filmava em Nova York o longa “2 Perdidos numa Noite Suja”. Quando voltou para concluir as filmagens em fevereiro do ano seguinte, a cidade estava completamente diferente. “Os Estados Unidos jamais serão os mesmos. O clima depois dos atentados era de total medo, insegurança”.

No filme, que estreia no país na próxima semana, Irandhir Santos (“Quincas Berro D’Água”) é o brasileiro que tenta voltar à sua vida nos Estados Unidos, enquanto o ator norte-americano David Rasche (“Queime depois de ler”) é um oficial da imigração no aeroporto JFK, em Nova York, em seu último dia de trabalho antes da aposentadoria compulsória.

Rasche e Frank Grillo, que interpreta seu subalterno, fizeram várias pesquisas, segundo Joffily, no próprio departamento de imigração do aeroporto e trouxeram uma veracidade muito grande para os personagens e o filme. “Eu acredito que aquilo tudo que o personagem Marshall sente e diz em relação ao estrangeiro reflete a mentalidade do americano médio”. Em época de mundo globalizado, aliás, o cineasta arrisca até um palpite sobre o governo dos Estados Unidos. “Hoje em dia, todo mundo parece meio especialista em política internacional. Como lá o voto é facultativo, apenas 40% dos eleitores votaram nas últimas eleições, que elegeram Barack Obama. Acredito que, atualmente, há muito americano arrependido de não ter votado. Muito mais gente deve ir às urnas na próxima eleição e o resultado pode ser um passo atrás, uma volta da direita ao poder”.
 
 
Ganhador do principal prêmio no Festival de Paulínia no ano passado, entre outros, “Olhos Azuis” também já tem uma carreira internacional, tendo sido exibido em festivais na França e nos Estados Unidos. No próximo mês, o filme será apresentado em Nova York e Joffily se confessa particularmente curioso para saber a reação do público norte-americano. “O filme surpreendeu em Paris, pois o europeu sempre espera uma temática diferente do brasileiro”, conta. Santos e Rasche dividiram o prêmio de melhor ator no festival.

Contrastes cinematográficos
Quando começou a pensar nas imagens e sons de “Olhos Azuis”, Joffily percebeu que pretendia fazer um filme de contrastes. Na verdade, há duas histórias no filme, a primeira é o embate entre o brasileiro e o americano na imigração, e a outra mostra esse mesmo oficial no Brasil, em busca da filha do outro personagem. As duas narrativas são bem distintas visualmente e isso não foi por acaso. “Todas as cenas que se passam nos Estados Unidos são em espaços fechados, planos menos abertos, não há música, apenas ruídos. Já no Nordeste, temos imagens que aproveitam a beleza natural da região, muita música, além da iluminação natural bem forte”, explica. A fotografia assinada por Nonato Estrela (“Chico Xavier”) explora bem esses contrastes.

Joffily, que também tem experiência como documentarista, tendo assinado “Vocação do Poder” (2005, codirigido por Eduardo Escorel) e “O Chamado de Deus” (2001), acredita que a linha tênue entre o documentarista e o diretor de ficção não existe quando ele faz um filme. “Acho os dois processos de trabalho muito parecidos. A construção dramática é a mesma”, conta.

O diretor ressalta que quando faz um filme sempre descobre algo de novo sobre a vida e o ser humano – especialmente em seus documentários que abordam pessoas com vocação para a religião e para a política. Seguindo o tema, Joffily quer documentar agora as pessoas com o dom para as artes. Mas ele não quer trabalhar com artistas famosos. “Penso em fazer com músicos de alguma orquestra, ou algo assim”, adianta. “O tema da vocação é algo que me interessa. Nem parei para pensar porque, mas me atrai muito”.

Antes disso, porém, Joffily dirigirá outra ficção, junto com o ator Roberto Bomtempo, uma adaptação da peça “A Mão na luva”, de Oduvaldo Vianna Filho. Além de Bomtempo, o filme também trará Miriam Freeland, vista recentemente na novela “Poder Paralelo”.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Blog "Doidos Por Cinema" entrevista o cineasta José Joffily

No blog Doidos por Cinema, por Carlos Eduardo Bacellar, maio 2010.

Envolvido na maratona de divulgação de sua mais nova realização, “Olhos azuis” (2009), filme que iniciou sua carreira fazendo a limpa no Festival de Paulínia 2009 (a produção arrematou 6 prêmios, incluindo o de melhor filme), o diretor, produtor e roteirista paraibano José Joffily abriu uma brecha em sua agenda e concedeu uma rápida entrevista para o blog.

Com estreia marcada para o próximo dia 28, o novo longa-metragem do realizador de “Dois perdidos numa noite suja” (2002) volta ao tema dos imigrantes, mas desta vez coloca um grupo de latinos como réus num tribunal de exceção presidido pelo intransigente e perturbado Marshall (David Rasche), chefe do Departamento de Imigração do Aeroporto JFK (Nova Iorque). Roteirizado por Paulo Halm e Melanie Dimantas, “Olhos azuis” não se restringe à xenofobia – nossas retinas são expostas a uma alma atormentada em busca de reparação e da humanidade perdida (mais informações acerca da produção podem ser conferidas no post abaixo).
 
Por e-mail, o simpático e paciente Joffily (o repórter tinha combinado 5 perguntas, mas, empolgado, tascou logo 8, com subitens) trocou algumas palavras conosco. Ele foi lacônico, mas esclarecedor.
Doidos: Apesar de o senhor ter dito que não tratou Marshall como uma metáfora, fica difícil não imaginá-lo como símbolo da decadência da política americana, principalmente durante a desgastada era Bush. Ao longo do filme, o ex-chefe da imigração do JFK definha, assim como ocorreu com a imagem dos EUA perante o cenário mundial na última gestão da Casa Branca (Barack Obama agora luta para reverter esse passivo de imagem). O que o senhor pensa a respeito disso?

Joffily: “Não sou analista de política internacional, mas com a crise econômica surgiram os sinais de uma crise na liderança dos EUA.”
Doidos: Em algum momento o senhor sentiu desconforto na equipe e nos atores americanos? Afinal, o filme coloca em xeque, por causa das atitudes reprováveis de Marshall, a idoneidade do departamento de imigração do aeroporto JFK (mesmo se considerarmos um caso isolado, centrado na conduta de uma figura pontual). O filme já passou por festivais em Paulínia e Paris, e entra em circuito nacional no dia 28 de maio. “Olhos…” já tem distribuição programada para os EUA?

Joffily: “Acho que o desconforto era mais meu. Durantes os testes para a escolha dos personagens estadunidenses, mais de 20 atores receberam e interpretaram a cena que escolhi. Isso foi lá em Nova Iorque, e eu me lembro de um certo constrangimento, pois era a primeira vez que escutava aqueles diálogos ditos em voz alta. Interpretadas, as falas pareciam mais duras. Estamos em negociação com um distribuidor americano.”
 
Doidos: O filme é o seu segundo projeto que aborda a questão dos imigrantes. Tanto “Olhos…” como “Dois perdidos numa noite suja” (2002) exalam o desencanto com um suposto “paraíso”, que na verdade não existe. O senhor é um paraibano que ganhou o mundo com seus filmes. Esses dois projetos, de alguma maneira, serviram como instrumentos para sublimar idealizações do diretor (pessoa física) que não encontraram respaldo na realidade?
Joffily: “É difícil para o autor saber desses sentimentos. Com o filme no mundo, o filme deixa de ser do autor e ganha interpretações reveladoras para ele mesmo.”
Doidos: Antes de as circulações transnacionais de pessoas se tornarem mais frequentes, consequências diretas do processo de globalização, as emigrações ocorriam, em maior número, dentro das próprias fronteiras nacionais. No caso do Brasil, muitos nordestinos, motivados por cenários adversos, partiram (e partem) em direção ao Sudeste em busca de melhores oportunidades. Acreditam que o eixo Rio-São Paulo é o Eldorado abaixo da linha do Equador. Só que as expectativas, muitas vezes, são atropeladas por pesadelos. Podemos traçar um paralelo com a esperança alimentada por latinos, sublinhada no seu filme, que partem em direção aos EUA em busca de realização?
Joffily: “O brasileiro que migra para dentro do seu país sofre discriminação, mas acho que é diferente daquela que sente o sujeito no exterior. A começar pela língua, que aqui é igual e já é um fator que aproxima muito. Por outro lado, o imigrante sofre um desafio muito grande e, enfrentá-lo quando se é jovem, pode ser estimulante.”
Doidos: Nós temos um paradoxo: quanto maior é a circulação de pessoas, maior é a mistura e o contato com o diferente, o que deveria estimular as trocas interculturais. Mas, o que percebemos, em muitas situações, é o aumento da desconfiança com o outro. E não falo só dos Estados Unidos – vemos todo dia desrespeito ao ser humano em diferentes locais do planeta. O Brasil, apesar dos problemas, é uma nação miscigenada que congrega diversas etnias. Não sei se a melhor expressão seria considerá-lo mais amistoso ao estrangeiro, mas vá lá… O senhor concebeu Irandhir como um mártir, que deveria sofrer infortúnios para que outros latinos pudessem seguir suas vidas? Por que o brasileiro? Ele foi o único que encarou de frente os abusos da migra, como uma espécie de líder. Fica difícil não relacioná-lo à posição de destaque que o Brasil vem pleiteando no cenário internacional.
Joffily: “Não tinha pensado nisso. O Nonato, brasileiro como nós, teria de ser o antagonista do Marshall.
Doidos: O Irandhir disse o seguinte: “o filme fala das mesmas pessoas, somos iguais, independente da cor, ou dos olhos, somos iguais. Pessoas iguais e diferentes. Muda-se a cor, mas os infortúnios são os mesmos. todos são iguais, as questões são as mesmas. Não é uma questão de país ou de cultura. É uma questão humana. Como lidar com os nossos infortúnios?” Pode parecer uma pergunta piegas, mas vou fazê-la assim mesmo: O senhor é um idealista? Acredita que seu trabalho pode ser mais um tijolo no muro que tentará barrar preconceito, intolerância e xenofobia no futuro?
 
Joffily: “Mudo bastante de opinião, às vezes penso o cinema de uma maneira, às vezes penso de outra. Às vezes penso só no divertimento que pode ser um filme, outras vezes penso que poderia mudar o mundo com ele. A frio, acho que não somente uma coisa ou outra.”

Doidos: Marshall, carcomido pelo câncer, deixa para trás “o Brasil dos cartões postais” e atravessa o sertão nordestino. Aquela região expõe as vísceras de um país de contrastes extremos. A jornada pode ser encarada como o purgatório do americano em busca da absolvição? Quero dizer, passou pela sua interpretação estética que ele precisaria atravessar aquela região de extrema pobreza (“inferno” na terra) para expiar suas culpas e morrer em paz (ser aceito no “céu”)? Ou o objetivo era dar um vislumbre da realidade que pode ter motivado Irandhir a partir em busca de algo melhor?

Joffily: “Acho que as duas ideias devem ter passado pela cabeça Marshall (David Rasche), digamos assim.”
Doidos: A Copa do Mundo (2014) e as Olimpíadas (2016) vêm aí. Se o senhor tivesse que realizar uma exibição para os agentes da migra daqui, qual a mensagem que o senhor deixaria para eles após o filme?
Joffily: “O filme é a mensagem, ou não é.”
 
Doidos: Disse tudo…




terça-feira, 18 de maio de 2010

Pipoca, refri e um soco no estômago: Olhos Azuis, o filme

Blog: Cult-Bacaninha, maio 2010

Foi essa a sensação que tive no acender das luzes da sala de cinema da pré-estreia do filme Olhos Azuis ontem. A sessão especial para blogueiros ofereceu aos convidados um combo de pipoca e refri que nos deu um clima descontraído e aconchegante ao entrar na salinha. Pois bem, o clima serviu para que nós, blogueiros, nos sentíssemos bem acolhidos e preparados para o filme.

Apesar da escolha sábia, acho que os bons filmes são aqueles para os quais não há preparação possível: nos surpreendem.
Entre as várias supresas (boas, todas muito boas!) destaco a personagem Bia que, com muita seriedade e bom humor - sim, é possivel - conduz uma das duas histórias contadas pelo filme. Também não passam despercebidas a fotografia e a trilha sonora brilhantes.

Mas acho que a grande sacada de José Joffily é conduzir paralelamente a reflexão dos problemas latino-americanos e mostrar o tal do Brasil para além dos cartões postais. Não sei quanto aos outros, mas eu consegui sentir a tensão claustrofóbica das personagens aguardando a decisão suprema de Marshall, às vezes fragmentada pela podreza a perder de vista do sertão pernambucano.
Não vou falar mais para não acabar estragando a surpresa, deixo apenas a recomendação de um filme cuja história forte e bem fundamentada (de um historiador, diga-se de passagem) nos pega pelo estômago e deixa aquela respiração seca ao final da sessão.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Reta final!

Caros leitores,

o filme "Olhos Azuis" entrou na reta final! Muito próximos da estreia do nosso filme (28/05), recebemos hoje, com muita satisfação, os nossos amigos blogueiros em uma sessão que preparamos exclusivamente para eles aqui no Rio de Janeiro.

Aos blogueiros, nosso até breve! Qualquer dúvida, entrem em contato: coevosfilmes@gmail.com

E para quem ainda não conferiu nada sobre o filme, sugerimos uma espiada em nosso canal do You Tube, além do trailer, que pode ser conferido abaixo, estão disponíveis alguns trechos do nosso Making Of.



"Olhos Azuis" agradou o juri dos festivais que participou, vamos ver agora como a blogsfera carioca o receberá!  Acompanhem o blog, em breve novidades!

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Variety: os filmes brazucas que vão para telona em breve

Revista anuncia os próximos lançamentos nacionais... destaque para Olhos Azuis, 5xfavela, O Palhaço e Lope.

"Variety", maio 2010.


Leia na íntegra aqui.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Enquanto isso no Facebook...


Legal, né? Ele merece! 

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Dá-lhe Irandhir!

06/05/2010 - Folha de São Paulo - Ilustrada

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terça-feira, 13 de abril de 2010

Minha Cabeça é Vermelha, Azul e Branca, Meu Coração Verde e Amarelo

O site Brasileiros nos Estados Unidos traz uma série de informações utéis a brasileiros que desejam viajar, estudar ou viver nos Estados Unidos. Além de oferecer gratuitamente um "Guia para novos imigrantes brasileiros nos Estados Unidos" (em português), que pode ser muito valioso para quem acabou de chegar lá, o portal possui uma série de artigos de opinião bem interessante. A leitura dos artigos, bem como dos comentários feitos pelos leitores, revela um pouco do que há no imiginário dos brasileiros que, como Nonato (Irandhir Santos), o brasileiro do filme Olhos Azuis, decidiram tentar a vida lá.

Uma característica bem marcante no perfil dos brasileiros que vão para os EUA, segundo alguns artigos deste site, é que muitos já viajam para o novo país com a idéia de voltar para o Brasil após um período relativamente curto. Acontece que com o passar do tempo, a medida em que vão se adaptando, estes brasileiros vão cada vez mais abandonando a idéia do retorno rápido à terra natal, em troca de um pouco mais de tempo para trabalhar e juntar dinheiro nos Estados Unidos. A grande maioria é formada por aqueles obstinados em ganhar dinheiro ali para depois realizar os seus sonhos no Brasil,mas apesar disso há quem acabe mudando de idéia.

Um artigo curioso, que talvez pudesse ter sido escrito pelo próprio Nonato em um de seus momentos de nostalgia da sua vida no Brasil, principalmente de sua filha Luisa, é homônimo a este post e retrata bem a saudade angustiante que apesar dos fascínios da fabulosa América, faz o coração permanecer verde e amarelo.


Do site "Brasileiros nos Estados Unidos ponto com"


Os Estados Unidos é o país das oportunidades. É onde muitos de nós viemos buscar os nossos sonhos de viver uma vida melhor, com segurança, justiça, liberdade, e principalmente com uma melhor condição financeira. Para muitos imigrantes Brasileiros nos Estado Unidos, aqui é a nossa nova casa, temporária ou permanente.


Muitos Brasileiros vieram com planos de passar pouco tempo para juntar um bom dinheiro e logo voltar. Mas a realidade muitas vezes nos leva a ficar mais tempo do que originalmente programado. Outros já vieram com a intenção de ficar por aqui por um tempo indefinido. Quem sabe talvez voltar para a aposentadoria. Seja lá qual tenha sido o seu plano, o tempo vai passando, e logo você começa a se adaptar. Em pouco tempo você encontra um lugar para ficar, faz novos amigos, arruma um emprego, começa a falar bem o Inglês, e de repente você já está até participando das comemorações dos feriados de 4 de Julho e do Thanksgiving.


Sem você perceber, a sua cabeça começa a mudar. Você não é mais a mesma pessoa que chegou e a sua maneira de pensar já não bate com aquelas idéias que você trouxe do Brasil. É quando você encontra com outro Brasileiro recém chegado que você nota a diferença. É muito fácil entrar na rotina e adotar os hábitos dos Americanos: de trabalhar exaustivamente; de não aparecer na casa do outros sem avisar; ou até mesmo algo tão simples como não atravessar a rua até que o semáfaro para pedestres lhe diga que é seguro.


Confesse, se você está nos Estados Unidos a algum tempo, a sua cabeça mudou e trocou de cor. Agora é vermelha, azul e branca. Isso é quase inevitável.


Mas e o coração? Esse é bem mais teimoso. O nosso amor pelas coisas da nossa terra natal jamais nos deixa. Seja o sabor especial do nosso café, a beleza de nossa música, a ginga do nosso futebol, isso tudo faz parte do que somos e fica conosco para sempre. Por mais que você tente, as coisas aqui não têm o mesmo gostinho. Ir a praia nos Estados Unidos não se compara com ir a praia no Brasil. E quem já tentou entrar na onda da grande final do futebol americano, o Super Bowl, sabe bem que apesar de toda a badalação, a emoção jamais se compara com o sentimento que temos ao ver o nosso time jogar o verdadeiro futebol.


O poema “A Canção do Exílio” é um retrato pefeito do sentimento de muitos imigrantes Brasileiros nos Estados Unidos, ou em qualquer outro país:


Canção do Exílio


“Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.”


Gonçalves Dias


Por mais que a gente se adapte ao país adotado, e que a nossa maneira de pensar mude, os nosso sentimentos continuam os mesmos. O amor pelo Brasil e as coisas da gente ficam conosco para sempre. E quando a saudade baixa, não é fácil.


A minha cabeça pode ter se tornada vermelha, azul e branca, mais o meu coração sempre seré verde e amarelo.
O autor do texto, como se vê, é mais um dos amantes do futebol, imaginemos em ano de Copa do Mundo, como o é 2010, como fica esse coração!
Apesar de cientificamente as "essências" brasileiras embutidas no texto acima não serem exatamente comprovadas, percebemos que o que falta ao brasileiro o escreve é este algo descrito como "gostinho" das "coisas da gente". Enfim, é um texto que fala de saudade, palavra que aliás, não é traduzida no inglês.

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A história do brasileiro interpretado pelo ator Irandhir Santos e outros latino-americanos barrados no baile pelo Sr. Marshall (David Rasche), chefe do Departamento de Imigração americana no filme de José Joffily, entra no cirtuito de cinemas brasileiros no final do mês de maio. Acompanhe o Twitter do filme @olhosazuisfilm 

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Quando o sonho vira pesadelo

Em Olhos Azuis, José Joffily reconstrói uma parte - talvez a mais esperada - da viagem daqueles que sonham em viajar nos Estados Unidos: a entrada no país.

Nos minutos que precedem o primeiro passo em solo americano fora do aeroporto o coração está acelerado, as emoções a flor da pele. Afinal, estas pessoas se dedicaram muito tempo para conseguir pagar o bilhete aéreo e conseguir reunir todos os outros documentos necessários para conseguir a permissão de entrar no país. Porém, nem sempre ter os documentos "OK" é garantia de que vá correr tudo bem.

Existem diversos fóruns de discussão e mesmo de ajuda para aqueles que querem fazer esta viagem. No site de relacionamentos mais acessado do Brasil, o Orkut, há comunidades em que as pessoas trocam todo o tipo de informações, desde o que se pode levar nas malas, o que não se deve levar, onde e como preparar o visto, custos, prazo, melhores cidades para se viver lá... Tudo! Há realmente um grupo de interessados organizados em "fazer acontencer" este sonho. Interessante também é perceber que após cruzar esta fronteira, muitas pessoas voltam a comentar nestas comunidades, trazendo depoimentos sobre a felicidade de estar lá e, certamente, excitando ainda mais a imaginação daqueles que ainda estão tentando conseguir visto.

Há quem queira ir para lá estudar, há quem queira ir para trabalhar e há aqueles que, independente do que vão fazer lá, almejam viver nos Estados Unidos da América. 

Esta vontade tão urgente de tentar a vida lá, muitas das vezes, levou pessoas a tentarem a travessia ilegal pelo México. Em 2005, a Rede Globo produziu e exibiu a telenovela "América", escrita por Glória Perez, que mostrou um pouco deste ideal quase "fanático", de pessoas que a qualquer preço querem ir viver nos Estados Unidos para tentar lá uma vida melhor.

A novela causou polêmica entre brasileiros que já viviam nos Estados Unidos, como se pode ler nesta matéria da BBC Brasil, dividindo a opinião: alguns se identificavam com o drama vivido pela personagem Sol (Débora Secco) e outros criticavam o que consideravam exagerado nas dificuldades que a personagem enfrentou.

Histórias reais, parecidas com as de Sol e dos latino-americanos do filme de Joffily é que não faltam. O filme Olhos Azuis, que vai para as telonas em 28 de maio, mostra toda a tensão já dentro do departamento de imigração americano, a barreira enfrentada por quem tenta fazer a entrada pela porta da frente, mas há também muitos relatos e notícias de pessoas que passaram por situações quase inacreditáveis ao tentar fazer a travessia ilegal, via México, como a jovem brasileira da notícia abaixo:

BBC Brasil:
Paulista teve que nadar e correr por duas noites

Quando pegou o vôo de São Paulo para o México, no dia 9 de maio, a paulista Daniela, 21 anos, nem imaginava como seriam seus próximos dias. Ela queria morar nos Estados Unidos e, depois de ter o visto americano recusado pelo consulado, achou que tinha um bom plano para entrar no país.

Daniela estudava inglês na cidade onde mora, no interior do Estado, e achava que nunca seria fluente no idioma se não passasse uma temporada nos Estados Unidos.

Estimulada por amigos que já viviam no Texas, ela decidiu arriscar a travessia ilegal via México, a exemplo do que fez uma amiga, alguns anos atrás. Daniela pagou um agenciador – um "coyote", como eles são conhecidos aqui nesta região da fronteira – para organizar a travessia de carro por uma das pontes que cortam o Rio Grande, na divisa do México com o Estado do Texas.

Mas a travessia fácil que ela tinha planejado – e pela qual combinou que pagaria US$ 2,7 mil – não aconteceu. Ela teve que atravessar o rio a nado.

"Quando me contaram que teria que nadar, pensei que fosse um córrego, com água até a cintura", contou Daniela. Bem diferente disto, o Rio Grande é estreito, mas é fundo, rápido, com uma correnteza perigosa, que às vezes não é vista da superfície.
Pacote turístico
A viagem começou com um pacote turístico para Cancún, com conexão na Cidade do México. Fazendo a rota de milhares de brasileiros todos os anos, ela não despertou desconfiança dos oficiais de Imigração que carimbaram seu passaporte na capital mexicana.
Mas Daniela não pegou o avião para Cancún. Ela passou o dia no aeroporto e no fim da tarde tomou um outro, para Reynosa, na margem mexicana do Rio Grande, divisa com os Estados Unidos.
 Eu não escolhi passar por isso. Pensei que fosse passar de carro, e no caminho tudo foi mudando.
Daniela
Foi aí que começaram as dificuldades. Única não mexicana do vôo, Daniela foi colocada numa sala e questionada durante várias horas por funcionários da Imigração de Reynosa, que só a liberaram quando o aeroporto estava para fechar, depois de pedir US$ 300. O tempo todo ela disse que estava na cidade para visitar amigos.
O pagamento de propinas a oficiais de Imigração mexicanos foi relatado ao cônsul brasileiro em Houston, Milton Torres da Silva, por vários brasileiros presos nos centros de detenção aguardando deportação para o Brasil.
"Eles me contaram que foram subornados por pessoas de farda, alguns já no aeroporto da Cidade do México", disse o cônsul.
Do aeroporto, Daniela foi levada ao Hotel Conchita, por um taxista arranjado pelo funcionário de Imigração, que não cobrou a corrida e fez questão de levá-la até a porta do quarto.
Ela recebeu telefonemas de um outro agenciador, oferecendo-se para levá-la até os Estados Unidos, mas a aventura começou mesmo quando ela foi contactada pelo coyote com quem tinha combinado a viagem, ainda no Brasil.
Só aí ela ficou sabendo que não atravessaria a ponte de carro, como tinha sido combinado, mas a nado. "Minha mãe queria que eu voltasse, mas eu resolvi seguir assim mesmo, porque não me dei conta do perigo e das dificuldades", contou.
Pneu de caminhão
Ela atravessou o rio, com a ajuda de uma câmara de pneu de caminhão. Eram duas mulheres, quatro homens e dois coyotes. "Atravessamos o rio e depois corremos, corremos até que não aguentei mais", contou.
Rio em Reynosa, fronteira México-Estados Unidos
Imigrantes combinam travessia de carro mas precisam cruzar fronteira a nado
Depois de andar e correr a noite inteira, foram recolhidos por uma pessoa de carro, que os levou até um hotel, onde passaram o dia sem poder sair do quarto.
Na noite seguinte, andaram de carro por uma hora e passaram outra noite andando e correndo por uma trilha no mato, na beira da estrada.
"De manhã chegamos a uma parada de caminhão, onde descansamos um pouco, veio um carro que nos levou até outro hotel. Depois veio uma perua que nos levou até Houston", contou Daniela.
"No total a viagem durou dois dias e duas noites. Dois dias escondida no hotel e duas noites andando."
Quando finalmente chegou a um local que considerou seguro, Daniela ficou uma semana de cama, delirando à noite, pensando nos perigos pelos quais passou. "É muito perigoso. Eu tive sorte, mas não aconselho ninguém a passar por isso", diz ela. (...) continua aqui
Esta notícia, como o depoimento de Jairo Macedo Sierra sobre a experiência de sua amiga com a imigração inglesa que reproduzímos aqui neste blog é outra história que parece filme. Quase inacreditável, não? 






Não perca de vista: Olhos Azuis - 28 de maio, nos cinemas.


Confira o trailer.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Perfil novo no Twitter!

Oba! Notícia fresquinha para os leitores do blog: Temos um novo perfil no Twitter, por favor, sigam e indiquem para os seus amigos:

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Parece filme...

Provavelmente quem já teve oportunidade de assistir ao filme Olhos Azuis deve ter lembrado de alguma história contada por um amigo ou conhecido sobre problemas ocorridos durante viagens, problemas nas fronteiras dos outros países, problemas que poderíamos, em uma palavra, chamar de desrespeito.

Navegando em busca de notícias sobre o tema do nosso filme - imigração - encontramos notícias poderiam muito bem passar por notas absurdas de ficção, mas infelizmente são reais.

Vejam só a história que encontramos nos comentários em uma notícia de 2008, Deportação e maus-tratos: uma realidade

Em 2006 eu e minha esposa fizemos uma viagem “a Europa com o único objetivo de fazer turismo.

Fomos muitíssimo bem recebidos na França, ficamos algum tempo em Paris quando decidimos visitar um casal de amigos em Londres. Entramos em contato com o casal e ficamos de visitá-los com nossa chegada programada para o dia seguinte.

Como a viagem de Paris a Londres leva cerca de oito horas de ônibus, compramos passagens e embarcamos rumo àquele destino, pois fomos orientados que uma vez aceitos por qualquer país da Comunidade não haveria obrigatoriedade da apresentação de vistos ou qualquer outra formalidade.

Ficamos detidos na aduana, nos fotografaram e carimbaram nossos passaportes como meio de impedir novas visitas, além de termos ficado incomunicáveis por mais de doze horas, sem alimentação ou local para descanso, e de sermos escoltados de volta a França em carro da polícia francesa, "carona" esta que jamais tive o desprazer de receber até mesmo em meu país.

O que mais me chocou é que ao chegar ao Brasil, escrevi para o Ministério das Relações Exteriores para denunciar o caso. Apesar de ter feito a postagem em Carta Registrada, até hoje Itamaraty sequer se dignou a nos responder, o que nos causou perplexidade.

Algo semelhante ocorreu com a amiga que eu ia visitar em Londres. Como não conseguimos ir à Londres, ela se dispôs a nos encontrar em Paris.

Ela ficou conosco em visita por três dias. No retorno para londres ela ficou detida por cerca de seis horas na mesma aduana inglesa que eu e minha esposa ficamos.

Os oficiais da imigração deram para ela um documento onde ela autorizaria a execução de um exame radiológico para constatar se ela estava ingressando no país com drogas dentro do estomago. Como ela estava em início de gestação, é claro, não autorizou. Ato contínuo, foi encaminhada para realização de "exame ginecológico", condição esta para que ela pudesse entrar novamente em território inglês.

Parece chocante? Digo mais, é absurdo, pois tal amiga é brasileira, mas possui cidadania portuguesa, o que a autoriza a entrar como européia em qualquer país da comunidade. Além do mais, possuia ela a este tempo endereço fixo e vínculo de emprego em Londres, ou seja, não é absolutamente o caso de ter sido confundida com uma imigrante ilegal, mesmo por que sua situação na Inglaterra era a de imigrante legal.

Quando ela me telefonou e contou o constrangimento pelo qual ela havia passado quando foi me visitar em Paris, eu disse a ela que estaria ainda naquela semana encaminhando uma Representação formal ao Itamaraty. Ela disse que faria o mesmo no consulado do Brasil na Inglaterra, assim como no de Portugal.

E qual o resultado de tudo isso? Minha missiva ao Itamaraty caiu no vazio. A reclamação dela no consulado brasileiro na Inglaterra também, sendo que a única representação diplomática que cobrou satisfação da Inglaterra pelo ocorrido com ela foi a diplomacia portuguesa.

Toda essa experiência me levou a crer que, se não somos respeitados no exterior é porque também não somos respeitados dentro de nosso próprio país.

Aprendi com isso tudo que mostrar nosso passaporte verde em qualquer país do mundo nos deixa atemorizados.

Felicito a iniciativa do governo brasileiro, ainda que tardiamente, de aplicar a política da reciprocidade, pois devemos, falando enquanto cidadão deste país, tratar os estrangeiros da mesma forma que por eles somos tratados quando viajamos.
É importante lembrar sempre que a dignidade humana não tem fronteiras e não respeita limites geográficos. (Jairo Macedo Sierra)

Olhos Azuis, de José Joffily, trata do tema da imigração, mas no longa-metragem, os latinos são barrados em um aeroporto dos Estados Unidos. Quer saber mais sobre o filme? Assista ao trailer no site oficial.








sexta-feira, 26 de março de 2010

Ator Pernambucano em Ascenção


Diário de Pernambuco
Atuação // Melhor ator coadjuvante no 2º Festival Paulínia de Cinema, Irandhir Santos conta sobre os novos planos
André Dib

Premiado como melhor ator coadjuvante pelo trabalho no filme Olhos azuis, de José Joffily, o ator Irandhir Santos 
Foto Noticia
foi um dos destaques do 2º Festival Paulínia de Cinema. Na festa de encerramento do evento, na última quinta-feira, os aplausos e sorrisos são a prova de que o evidente talento deste pernambucano de 30 anos conquistou mais adeptos. Desta vez, não como o Maninho de Baixio das bestas ou o Quaderna, de A pedra do reino, apenas para citar dois de seus grandes momentos. E sim como Nonato, o brasileiro que há dez anos mora nos EUA, mas amarga o pão que o diabo amassou na mão de Marshall, chefe do departamento de imigração do aeroporto JFK.
Em entrevista ao Diario, Irandhir conta como construiu esse novo personagem e os desafios da interpretação em outra língua e as três novas produções em que participa: A morte e a morte de Quincas Berro D’água, de Sérgio Machado sobre livro de Jorge Amado; Besouro, de João Daniel Tikhomiroff; e A hora e vez de Augusto Matraga, de Vinícius Coimbra, que será rodado em Minas Gerais, com João Miguel no papel principal. De quebra, aproveita para contar sobre os novos planos para a carreira.
Entrevista // Irandhir Santos
Qual sua visão do filme de Joffily?
É um filme que trata da questão da diferença. E deixa claro que ela existe porque impomos isso de alguma maneira, como fator externo. Quando Nonato vê a filha com olhos azuis, me pergunto o porquê de Marshall se sentir tão superior, se ele é tão igual a mim.
Como Nonato foi construído?
Li muito o roteiro, sempre desconstruindo e cortando, rasgando o personagem. A partir das orientações do diretor, acrescentei a minha parte. No roteiro há muito o Nonato empreendedor, que sai do país para ganhar a vida. Quis imaginar outras situações, trazer mais humanidade para ele.
Foi difícil interpretar em inglês?
Tive que estudar, pois não tinha muito domínio do inglês. Também fui para a cultura americana, procurei saber o que existe lá que moveria alguém a sair de seu país. Comecei a contatar brasileiros que moravam lá, fiz entrevistas, procurei imagens.
Que imagens?
Os olhos foram imagens que mais captei. Gosto muito de olhos azuis e o desafio era olhar para eles e sentir o inverso. Adoro minha avó materna, a lembrança de carinho ligada a olhos azuis vem dela. Sentir o contrário foi um desafio.
Como foi a iniciação no teatro e a formação de ator profissional?
Minha recordação mais antiga está ligada à escola em que estudei em Limoeiro. É um lugar tradicional, administrado por freiras que trabalhavam teatro e arte-educação com os alunos. Quando fui estudar o segundo grau no Recife, também queria um colégio que tivesse teatro, mas fui para o Colégio Militar, pois meus pais me convenceram que era bom para passar no vestibular. Por sorte, um dos alunos de lá se formou e retornou para dar aulas de teatro.
Quem era ele?
André Cavendish. Foi meu primeiro professor de teatro. Lá eu tive a certeza de que queria continuar no palco. Então juntei a necessidade dos meus pais de ter que fazer universidade com a minha, de fazer teatro.
Qual era seu foco de estudo na universidade?
Na UFPE eu trabalhava com o corpo como expressão. Já na universidade procurava essa linha. Tive como professor Roberto Lúcio, que desenvolveu um trabalho muito bom. Foi também quando me aproximei de amigos como Kléber Lourenço e Jorge de Paula. Em Olhos azuis, dez minutos antes de rodar a sequência da arma, utilizei exercícios que aprendi na universidade, de respiração e exaustão física pra abrir o canal para as emoções.
Qual o papel mais difícil que já fez?
Gosto quando tenho tempo para a preparação. Para mim, é primordial. No teatro é possível, geralmente tenho seis meses para isso. No cinema não é assim, mas tive sorte de pegar papéis no qual existiam esse tempo disponível. De todos, o Quaderna foi o mais difícil, pela própria complexidade do personagem. O próprio Ariano (Suassuna) o define como quatro personagens: o palhaço, o rei, o contador e o sertanejo. E o Luiz (Fernando Carvalho, diretor de A pedra do reino) me deu um Quaderna velho, amadurecido. O momento em que cada um deveria aparecer foi um desafio grande, dividido com profissionais que me deram suporte.
O que faz sua profissão valer a pena?
Ultimamente, é o fato de poder exercê-la, de poder viver isso. Só por isso, já me sinto premiado. Quando esteve em Taperoá, Fernanda Montenegro disse: “nosso prêmio é o nosso ofício”. Pois temos que enfrentar uma batalha diária, com quase todas as dificuldade e ainda lidar com o lado criativo. Equilibrar isso é a grande questão. Fico feliz quando penso no que já fiz e no que ainda tenho para fazer.
Quando você voltará ao teatro?
Ainda este ano. Estou ensaiando semanalmente com o Grupo Visível (Visível Núcleo de Criação), que Kléber Lourenço montou para retomar o ator como criador da história. O nome do projeto é Daquilo que move o mundo. Ele trabalha a dramaturgia com exercícios cênicos coordenados pelo dramaturgo Felipe Botelho. A ideia é iniciar o trabalho no Recife e no fim do ano vir pra Campinas para a preparadora Tiche Vianna, que tem um excelente trabalho com a comédia dell’arte, lapidar e fazer o que quiser com nossos corpos. Pra mim será uma retomada. Há três anos não faço teatro e esse é um grupo que gosto muito, ligado à universidade, com um senso de pesquisa e continuidade que me interessa.
Fale sobre o personagem que você faz em Besouro. Ele é um vilão?
É. Seu nome é Noca de Antonia. Para fazê-lo, tive que trabalhar com sombras. A preparadora de elenco, Fátima Toledo, disse que os capoeiristas são a luz e nós precisamos das sombras, que sou eu e o coronel. Então tive que ativar o que há de pior em mim. Sou muito recatado, mas em um dos exercícios ela me “destampou” e tudo que estava reprimido saltou com a raiva. Para ativar minha sombra falei todos os palavrões e coisas sujas.
Como foi a experiência de filmar A morte e a morte de Quincas Berro D’água, com atores veteranos como Paulo José, Marieta Severo e Mariana Ximenes?
Também foi com Fátima, só que o filme é uma comédia. Eu faço o Cabo Martin, um dos quatro amigos de Quincas. A grande questão foi trabalhar o tema morte de um grande amigo, uma grande perda. Apesar de ser comédia, tive que trabalhar de maneira muito séria. Ver Paulo José morto é algo bem doloroso, então parti daí. A ideia do Sérgio (Machado, o diretor do filme) é que o cômico não estivesse nos personagens, mas sim nas situações absurdas. Os filmes dos irmãos Cohen foram referências.
Ultimamente, você tem recebido muitos convites. O que te faz escolher um projeto?
Sempre escolho a partir do que me toca naquele momento da vida. Os filmes que faço têm me ensinado lições importantes. Trabalhar com Luís Fernando Carvalho e Cláudio Assis me fez redescobrir o lugar onde nasci. Naquele momento estava em dúvida se ficava lá ou ia para o Recife. Meu olhar para aquela região mudou muito. No caso de Olhos azuis, senti que deveria fazer pelo roteiro, uma história fantástica, por Joffily, diretor que já admirava e pelo desafio, pois a maioria das cenas são em inglês, língua em que não tenho tanta prática.
O que te atraiu na refilmagem de A hora e a vez de Augusto Matraga?
Guimarães Rosa foi primeiro autor que entrou lá em casa, período que lembro muito do meu pai. Ele lia muito e conversava sobre a obra, tinha olhar peculiar. Ele achava que Guimarães mostrava um sertão cru, forte, seco. E minha mãe via o contrário, via poesia. Então sempre havia discussão. Quando fiz A pedra do reino, me debati com o Sertão de Ariano, colorido e alegre de pessoas que se encantam com sua raiz. Agora sinto a necessidade de viver o sertão duro, seco, para haver um diálogo.