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sexta-feira, 18 de junho de 2010

A tensão racial de Joffily

No Zero Hora, em 18 de junho de 2010, por Roger Lerina.

ESTREIAS


Vencedor de cinco prêmios no Festival de Paulínia do ano passado, inclusive de melhor filme, Olhos Azuis (2009) mostra o preconceito racial e cultural dos americanos em uma trama que mistura drama e suspense policial. No novo filme do diretor José Joffily, o setor de imigração do aeroporto JFK, em Nova York, é o palco do embate entre um policial americano e um brasileiro residente nos Estados Unidos.

Em Olhos Azuis, o excelente Irandhir Santos – ator de filmes como Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo e Quincas Berro d’Água – encarna um professor universitário que está voltando aos Estados Unidos depois de visitar a filha em Pernambuco. O destino do brasileiro Nonato, porém, muda drasticamente ao ser chamado para dar explicações ao oficial de imigração vivido pelo ator David Rasche (de Queime Depois de Ler), um preconceituoso policial com problemas de bebida que está à beira de surtar em seu último dia de trabalho. Apesar dos protestos dos subalternos interpretados pelos bons atores Frank Grillo e Erica Gimpel, o modo como o oficial Marshall trata os estrangeiros considerados suspeitos conduz os acontecimentos rumo a uma tragédia.

A história de Olhos Azuis se passa em dois tempos: as cenas no aeroporto – que renderam a Irandhir o prêmio de ator coadjuvante em Paulínia – alternam-se com sequências no Nordeste, anos depois do episódio, quando o americano tenta entrar em contato com a família de Nonato. Joffily – que adaptou a trama da peça Dois Perdidos numa Noite Suja para o mundo dos imigrantes brasileiros em Nova York em sua versão para o cinema de 2002 – denuncia a intolerância aos estrangeiros que recrudesceu nos Estados Unidos após o 11 de Setembro. No entanto, a tensão e a dramaticidade de Olhos Azuis ficam comprometidas diante do roteiro implausível e recheado de diálogos didáticos e pouco inspirados, que comprometem o resultado final do filme.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Filme brasileiro retrata trabalho de agente de imigração em aeroporto JFK

Do portal Comunidade News


“Olhos Azuis”, de José Joffily, mostra imigrantes barrados no Aeroporto JFK.


Muitos imigrantes devem se identificar com o enredo do filme “Olhos Azuis”, do cineasta brasileiro José Joffily, 64. A história, que tem atores brasileiros e estrangeiros no elenco, mostra imigrantes num aeroporto serem impedidos de entrar nos Estados Unidos. 


O enredo mostra o último dia de trabalho de Marshall (David Rasche), chefe da imigração do Aeroporto JFK de Nova Iorque. Na esperança de deixar uma lição para os subordinados, detém arbitrariamente um grupo de latinos que sonhava entrar nos Estados Unidos. A partir daí, cria-se um verdadeiro duelo entre “olhos azuis” e “olhos negros”. 


A inspiração de Joffily nasceu num documentário, onde a pedagoga americana Jane Elliot propõe aos americanos (olhos azuis) conhecerem na prática as dores de pertencerem a uma minoria (olhos negros). Depois disso, Joffily hospedou em sua casa um amigo que foi interrogado num aeroporto de Nova Iorque e deportado. 


Por telefone do Rio de Janeiro, José Joffily disse que as histórias contadas pelo amigo também o inspiraram. Na opinião dele, o sul-americano que viaja para o primeiro mundo passa muitas vezes por constrangimentos. “De maior ou menor gravidade, nos serviços de imigração”, disse ele. Segundo Joffily, o filme passeia por esta questão. “Você viajar e ser detido no aeroporto para averiguações”. 


Joffily acredita que Marshall represente o pensamento do americano médio, aquele que vive no interior dos Estados Unidos . “Entra muito a imaginação da gente com relação à história”. Segundo o cineasta, o agente de imigração é absolutamente sincero com o que ele pensa. “A democracia americana tem isso de espetacular, eles exercem o pensamento de direita ou de esquerda”. 


As manifestações vistas por Joffily, quando morou em Nova Iorque na década de 60, foram um verdadeiro encantamento para ele. Relatos de amigos e conhecidos de Joffily ajudaram a compor a história.


Depois de um desfecho trágico no aeroporto JFK, Marshall vai para o Brasil. Em busca de perdão atravessa o nordeste, guiado por Bia (Cristina Lago), uma bela garota que transforma a vida do americano. A atuação rendeu à brasileira o prêmio de Melhor Atriz no Festival Paulínia 2009, onde Irandhir Santos também foi premiado como Melhor Ator Coadjuvante.


Paraibano de João Pessoa, José Joffily é diretor, roteirista, produtor e eventualmente ator. Atuou em “Bete Balanço” e na novela “Kananga do Japão”, e ganhou o Kikito de Ouro no Festival de Gramado em 1996 por “Quem Matou Pixote?”, categorias Melhor Filme, Argumento/Roteiro. Por “Olhos Azuis”, foi premiado com A Menina de Ouro no Festival de Paulínia 2009.


A força imigrante


Sobre os Estados Unidos, disse que o país é formado por imigrantes, assim como o Brasil. “Os imigrantes é que são a força econômica do país. A força dos Estados Unidos é a imigração”. 


O time de atores de “Olhos Azuis”, composto também por cubanos, argentinos,  hondurenhos, contribuiu muito para a qualidade do filme, segundo Joffily. A questão da imigração, de acordo com o cineasta, é muito evidente. “Ninguém em sã consciência, ninguém sinceramente poderá dizer que não há uma reação dos Estados Unidos contra o imigrante”. Para ele não há o mocinho e o bandido. “Todos são mocinhos e todos são bandidos”. 


Em um filme produzido por um americano, Joffily viu guatemaltecos cruzando a fronteira mexicana. “É um filme muito violento”. 


De acordo com Joffily, os atores americanos – David Rasche, Erica Gimpel e Frank Grillo - tiveram grande contribuição na construção dos personagens de “Olhos Azuis”. “Criticavam muito o texto”. Isto deu bastante veracidade às situações do filme. Durante as filmagens, o diretor fazia uma mesa redonda com todos os atores. O filme foi todo feito no Brasil, com uma reprodução o mais fiel possível da sala do aeroporto JFK, onde os imigrantes são interrogados. 


Sobre o imigrante brasileiro nos Estados Unidos, Joffily disse que existem tanto pressões quanto condições favoráveis para a permanência dele no país. “Ele sabe que anda na rua muitas vezes, em algumas cidades, e é identificado como o antagonista, como alguém não desejável. Por outro lado tenho certeza que o imigrante aí convive com a experiênca muito boa de levar uma vida normal, no país que escolheu para viver. Certamente não é só sofrimento, só chateação, preconceito”. 


O cineasta tem curiosidade de saber a reação das pessoas, ao ver o filme. No Festival Brasileiro de Cinema de Paris, David Rasche e Irandhir Santos dividiram o prêmio de Melhor Atuação Masculina. Nos Estados Unidos, “Olhos Azuis” foi exibido no festival de Berkshire (NY) e no Cine Fest Petrobras Brasil-NY. O filme percorre ainda Miami, Vancouver e Toronto (Canadá), Israel e Londres. A crítica e o público brasileiros aplaudiram o filme. 


Atualmente Joffily está adaptando a peça “Mão na Luva”, de Oduvaldo Vianna Filho. A direção é em conjunto com Roberto Bontempo e as filmagens serão em Belo Horizonte (MG). 

Pernambucano em todas no cinema

O Dia - Rio de Janeiro /RJ - 15/6/2010 - Pág. 04 

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segunda-feira, 7 de junho de 2010

Blog "Outra Coisa" tambem publica crítica de Olhos Azuis

Do Blog "Outra Coisa", por Rangel Andrade



Acredito que esse texto se tornará mais político que crítico. Perdoem-me, mas há uma parte em mim que precisa descrever as sensações éticas que o excelente roteiro do filme Olhos Azuis me causou. Portando não me julguem ao terminar de ler, julguem os roteiristas Paulo Halm e Melanie Dimantas, a culpa é única e exclusiva deles. Salvo a crítica que é minha!

Uma boa parcela da população sabe que a situação do estrangeiro se tornou mais catastrófica após o 11 de setembro, e entrar na América depois dos atentados virou uma missão (quase) impossível (a intenção não era lembrar o famoso filme do nosso amigo Tom Cruise). A intolerância americana cresce cada dia mais e trata os imigrantes como se todos fossem terroristas prontos a destruir a supremacia americana (o que graças a Deus vem se tornado realidade, mas não por culpa dos “invasores”, mas sim de um país hipócrita e cheio de falsas morais).

O novo filme de José Joffily (que dessa vez acertou em tudo!), toca justamente nessa ferida. Em seu último dia de emprego como o Chefe Departamento de Imigração do aeroporto JFK, em Nova Iorque, Marshall (David Rasche, em uma atuação primorosa), resolve brincar com sua autoridade ao ter que “escolher” quem vai ter o direito que entrar na América. Enfrentando problemas com o alcoolismo, ou simplesmente se divertindo ao tomar um porre, ele começa a beber durante o expediente e passa a cometer uma série de arbitrariedades contra um grupo de latino-americanos, expondo-os a situações vexatórias para autorizar sua entrada nos Estados Unidos. Dentre os mais variados candidatos à admissão que vão de um casal de argentinos carregando cocaína a uma bela dançarina cubana, passando por um grupo guatemalteco de lutadores de tae kwon do, encontra-se o brasileiro Nonato (Irandhir Santos), que tenta retornar aos Estados Unidos após ter visitado a filha no Brasil.

Marshall utiliza de toda sua autoridade para tentar provar a culpa do brasileiro, vai de um interrogatório arrogante a uma ameaça com arma. É do duelo desses personagens que temos as bem elaboradas questões políticas lançadas no filme. Após ser questionado porque um estrangeiro sai de um país de terceiro mundo para infestar os EUA o brasileiro diz que ´só existem pobrezas no terceiro mundo porque potências, como os EUA, por muitos anos apoiaram ditaduras cruéis e abusivas em prol do seu crescimento´. Esse trecho dispensa comentários, a citação já diz por si só.

A narrativa do filme é não linear, de um lado temos o protagonista na Imigração americana, depois preso e por fim ele anos depois, no Nordeste do Brasil em busca de uma criança que, se encontrada, representará sua redenção. Nessa segunda situação, o protagonista desamparado, decadente e já aposentado encontra Bia (Cristina Lago, em uma atuação surpreendente), uma jovem aparentemente sem rumo que passa a ajudá-lo na procura pela garota.

Em sua caminhada acabamos adentrando um pouco mais na vida do nordeste brasileiro: entram os sons do forró, a seca, as mortes prematuras e a sofrida Bia, uma jovem que foge para Recife atrás de uma vida melhor e acaba se prostituindo. Bia é uma das grandes transformações durante a película, passa de uma menina ambiciosa a uma mulher destemida que ajuda a todo custo o americano a encontrar a pequena Luíza. Durante essa caminhada ela acaba se deparando com o avô, uma desavença do passado que vai mexer com seus sentimentos e mudar sua trajetória levando-a á um final mais humano e compassivo com os sentimentos do “gringo”.

Os opostos permeiam toda a trama: enquanto as cenas nos Estados Unidos são em cores escuras e frias e mostram um policial como o rei do pedaço (outro filme, meus Deus haja inspiração hoje!) as cenas no Brasil são feitas em cores quentes, com uma câmera trêmula e trilha sonora mais agitada. A busca de Marshall por um sucessor também trás esse duo: entre os dois assistentes temos Sandra (Erica Gimpel) uma policial abusiva, fria e quase tão arrogante quanto o chefe, enquanto Bob (Frank Grillo) é mais correto e menos racional, chegando a se condoer pelo caso da dançarina cubana Calipso (Branca Messina).

Joffily disse que queria em seu filme atores dos países de origens dos personagens. Como o protagonista é americano, David Rasche foi escolhido primeiro através de uma seleção feita por dvd´s, ele e mais nove atores passaram por testes com o diretor e para a sorte do público (e do próprio ator, que está em seu melhor papel) Rasche acabou ficando com o papel. E acaba por dar vida a dois Marshall durante o filme: um homem audaz e frio e outro sofrido e melancólico atrás de sua redenção. O segundo com certeza é a parte mais marcante do ator: denso e caótico ele se transforma e chega causar dor e tirar algumas lágrimas com um personagem perdido em uma terra distante.

Quanto à língua estrangeira o diretor afirma: “A Branca Messina (Calipso) morou muito tempo na Espanha, mas eu queria que ela tivesse um sotaque cubano. Coloquei um cubano ao lado dela, uns cinco meses, para fazer isso. O Irandhir pegou rápido. A Cristina Lago também não tinha muita desenvoltura no inglês. É difícil definir o quão bem um personagem deve falar inglês, como ele deveria piorar ou melhorar seu inglês. Ao mesmo tempo se entender com o elenco, no set de filmagens, e fazer improvisos. A gente fez esta opção, mas é difícil encontrar o tom”.

Olhos Azuis foi o grande vencedor no II Festival Paulínia de Cinema em 2009 arrebatando os prêmios de Melhor Filme ficção, Melhor Roteiro, Melhor Ator Coadjuvante (Irandhir Santos), Melhor Atriz (Cristina Lago), Melhor Som e Melhor Montagem.

É um bom filme. Uma boa história e um elenco afiadíssimo. Talvez o final desse texto seja menos político que o esperado, mas escrever tem dessas coisas: às vezes queremos desenvolver um assunto e acabamos nos desviando, mas o grande exemplo de civilidade e amor á pátria se deve sim aos diálogos marcantes e as ironias que permeiam todo o longa. É para pensar e questionar. Somos fruto de uma supremacia ideológica (e preconceituosa) americana que nos taxam como lixos e ainda assim queremos a todo custo Fazer a América!

Político ou não! Pensador ou não! É um filme corajoso e destemido. Merecedor de bons elogios e muitos espectadores, mas o que esperar de um país que lançou somente dezessete cópias (isso mesmo, 17) de uma história que nada mais é que uma declaração de amor aos valores dos brasileiros e de um Brasil tão esquecido.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Daiblog entrevista Irandhir Santos

Do Daiblog, postado por Michel Toronaga, em 02 de junho de 2010.

O pernambucano Irandhir Santos interpreta Nonato, o corajoso emigrante brasileiro que encara Marshall, chefe da imigração americana em Olhos Azuis. O ator fez sua formação em artes cênicas na Universidade Federal de Pernambuco, do teatro ingressou na televisão, onde trabalhou na minissérie A Pedra do Reino. Sua estreia em longa metragem foi em Cinema, Aspirinas e Urubus, depois veio Baixio das Bestas, com o qual conquistou o Troféu Candango de melhor ator coadjuvante no Festival de Brasília de 2006. Em 2009 atuou no filme Besouro. Também fez o curta Décimo segundo e o longa Amigos de risco.


No inicio de 2010, pôde ser visto também como o protagonista do longa Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo, de Karim Ainouz. Sua atuação em Olhos Azuis foi premiada no Festival de Paulínia, 2009. Em maio deste ano, Irandhir estreou também o filme Quincas Berro D´Água, adaptação para a cinema do livro de Jorge Amado. Atualmente, o ator está filmando Tropa de Elite 2. Leia agora uma entrevista com o ator falando sobre Olhos azuis.
 
 
 Irandhir em Décimo segundo
Varias línguas

Minha formação foi em teatro, onde é possível experimentar mais. Em cinema é tudo corrido, mais matemático, tem que ter mais concentração. Repetir a mesma cena com a mesma intensidade, sem perder a emoção. Mas o maior desafio desse papel foi sem dúvida interpretar em inglês. Inglês sempre foi um problema, desde o tempo da escola. Porque não tinha motivação para estudar como deveria. Mas o engraçado é que eu sempre soube que um dia precisaria do inglês. Até que um dia liga a Helô (produtora do filme) e me convidada para interpretar o papel. Nesse momento ela diz: tem uma questão, você tem que interpretar em inglês. Então eu tive que voltar para a escola. Ela disse: você tem 3 meses para se preparar.

Se tive dificuldades no inglês no passado, por outro lado, sempre encarei os desafios da vida. Então pensei: em 3 meses o Nonato estará pronto. E assim foi, o aprendizado continuou durante a filmagem. No set, tive a ajuda do Joffily, do David Rache, da Erica Gimpel e do Frank Grillo, os atores americanos. Depois de alguns dias rodando, ensaiando o clima tomou conta do set, o inglês foi ganhando força e eu fui assimilando. Tem ainda o espanhol, o Nonato fala portunhol. Na verdade, na sala de espera da imigração existe uma tentativa de comunicação, as pessoas se comunicam de várias formas, há outras linguagens presentes ali, talvez até mais significativas do que a verborragia.
 
 
 O ator em Quincas Berro D'água
Cumplicidade

Calypso, a cubana que fica detida juntamente com Nonato e o outros latinos na ante-sala da imigração americana, é a personagem mais próxima do brasileiro. Os dois estão em situação parecidas, talvez para ela seja mais difícil, porque é a primeira vez que ela viaja para os Estados Unidos. Para Nonato é mais tranquilo, ele está mais preocupado com seu tempo. Ele quer aparentar ser um homem de negócios. Naquela sala ele encontra uma cumplicidade com Calypso. Às vezes não há palavras. Eu e Branca (Messina) que interpreta a Calypso, conversamos sobre isso, às vezes basta um olhar. O que vem dos outros personagens em relação ao Nonato são coisas muito desumanas. Os policiais estão atirando o tempo todo, são outros sentimentos, mas estes também ultrapassam a barreira da língua.
A construção de Nonato

A partir de uma palavra: emigração. Uma pessoa que vai sempre em frente, que se estabelece.Nonato saiu de Petrolina, superou dificuldades para ir até o Recife estudar história, depois vai para os Estados Unidos. Lá ele se estabeleceu, sempre seguindo em frente, trilhando um caminho reto. Até que chega uma pessoa e diz: pare por aí. Daqui você volta. Desconsidera todo o seu passado.
 
Ao lado de Branca Messina no drama Olhos azuis

Dentro da bolsa que Nonato carrega está a filha,a mãe e a sua história. É difícil você abrir mão da sua história. Confesso que me detive no Nonato do aeroporto e em um passado que o motivasse a ir para os EUA. Mas tem o outro Nonato. Na imigração ele está constantemente preocupado, transpira, tem rugas na testa. Quando está no Recife é um Nonato relaxado, sorridente, seu tempo é mais devagar, observa, sente o clima, aproveita o sol, o mar, a filha.

No primeiro interrogatório, Nonato se expressa com um inglês perfeito. Mas à medida que vai sendo pressionado, seu inglês vai piorando. Sua emoção vai crescendo quando se sente atingido,aí retoma a língua mãe, o português. No momento da virada, precisa se fazer entender, então Nonato volta para o inglês perfeito. São várias trajetórias desse personagem. 
 
 
Cena de Amigos de risco
Olhos Azuis fala do ser humano

A cor azul representa a memória. Para o Nonato e para mim também. Quando acordo, lembro dos meus sonhos com a cor azul. O meu passado também é azul. A cor está presente nos olhos de duas pessoas significativas na vida dele: o policial, esse monstro que diz, você não vai em frente e a filha, que é o há de mais precioso para ele. Duas pessoas com cores iguais em seu olhos, mas que trazem emoções totalmente diferentes. Marshall e Luiza. Como podem ser iguais e diferentes ao mesmo tempo? Estamos falando das mesmas pessoas.


Esse filme fala das mesmas pessoas, somos iguais, independente da cor, ou dos olhos, somos iguais. Pessoas iguais e diferentes. Muda-se a cor, mas os infortúnios são os mesmos. todos são iguais, as questões são as mesmas. Não é uma questão de país ou de cultura. É uma questão humana. Como lidar com os nossos infortúnios? Nonato volta a ser um animal, ao seu instinto de sobrevivência e defesa. Volta ao que todo homem tem, seja em que país for, independente da cor dos olhos, da cor da pele. Esse filme fala sobre o homem. São as conseqüências da vida.
 
 
Irandhir Santos em Besouro
Imagens e cores

Meu personagem tem uma câmera, então o fotógrafo do filme, Nonato Estrela, me perguntou: o que o seu Nonato filmaria? Acho que Nonato sai captando a imagem dos pés de sua filha, sua filha correndo, a praia de Boa Viagem, os momentos de carinho com Luiza.


Assisti a uma reportagem sobre segurança nos aeroportos e ali surgiu a ideia das cores. Para demonstrar os níveis de atenção, eles usam cores. Por exemplo, alerta laranja, alerta vermelho, etc. Eu peguei essa referência como guia das emoções das cenas que faria. Então tenho cenas amarelas e quando começa a incomodar passo para as cenas laranjas até chegar o “pega pra capar”, as cenas de vermelhas.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Fotos: Rogério Resende


Entrevista com o cineasta José Joffily no Almanaque Virtual

Do Almanaque Virtual, Por Leonardo Luiz Ferreira

Fotos de Álvaro Riveros


O interesse pelo cinema de gênero, a partir de um episódio trágico, se faz mais uma vez presente na obra do realizador José Joffily: Olhos Azuis (2009) é um thriller que aborda temas polêmicos em uma jornada redentora. Ao intercalar projetos de ficção com documentários, Joffily soube construir uma carreira de propósitos bem definidos, nos quais cada novo filme se relaciona de alguma forma com os anteriores. O interesse permanece por personagens à margem ou que não recebem a atenção da maioria das pessoas e que estão sempre em busca de mudança. Na entrevista exclusiva, realizada quase um ano depois da consagração do longa no Festival de Paulínia, o diretor reflete sobre o projeto e revela o que lhe impulsionou para ser cineasta.

Almanaque Virtual - O que lhe moveu primeiramente a realizar cinema?

José Joffily: Falando assim rapidamente e sem pensar muito, eu diria que foi a vontade de ficar em grupo. Quando trabalhava como fotógrafo era tudo muito solitário: cobria as pautas, voltava e editava o material e colocava as legendas. Era um processo chato. A minha vida mudou quando encontrei pessoas que estavam interessadas no mesmo assunto e que tinham prazer de trabalhar com cinema. Era sedutora a ideia de realizar um filme e isso compartilhava com todos eles. Em um determinado momento se formou um grupo de realizadores que resultou na produtora Corisco Filmes, entre eles estavam Jorge Durán, Sérgio Rezende, Murilo Salles, Emiliano Ribeiro e Mariza Leão. Essa multiplicação de encontros foi importante para a minha formação como cineasta.

 
AV - O roteiro de Olhos Azuis participou de uma oficina dos laboratórios do Instituto Sundance, em 1999. Por que levou tanto tempo para realizar o filme?

José Joffily: A ideia original surgiu em 1998. Os filmes se ajustam à época, ao talão de cheques e as circunstâncias. Alguns projetos vêm à tona e outros submergem com o passar do tempo. E no caso de "Olhos Azuis", sempre mantive a vontade de realizá-lo, pois gostava muito da história e dos personagens. Na versão original do roteiro, em um dos primeiros tratamentos, o filme se passava em diversos países: mostraria flashbacks de todos os latinos detidos na migra em seus países de origem. Mas isso tornou a produção muito cara. A história do boliviano, que o policial Marshall conta para a moça em um bar, seria encenada. Ela se transforma em relato, pois gostava de sua força, além de demarcar bem o que é estar distante de seu país. O tempo de maturação do projeto trouxe prós e contras. Lamento não ter feito externas em Havana, por exemplo. Mas mantive a ideia de que os atores são oriundos dos países dos personagens. Uma história curiosa sobre a produção de "Olhos Azuis" é a de que o personagem principal seria interpretado pelo ator Robert Foster, que renasceu devido ao sucesso de "Jackie Brown" (1998), de Quentin Tarantino. Ele estava animado com o filme e completamente inteirado com o projeto. De repente, eu recebi um e-mail dele em que dizia que não poderia filmar naquele momento, pois estava comprometido com uma filmagem em Cingapura. Foi a personificação do horror: perdi o protagonista do filme com todo o plano de filmagem já traçado. Decidi partir para Nova York e pessoalmente resolver esse problema. Foi aí então que surgiu o David Rasche, um ator mais ligado a seriados e comédias. Isso foi um fator importante para sua escolha em que interpretaria um papel bem diferente. Ele desenvolveu uma camaradagem com o núcleo de personagens da imigração e se integrou rapidamente.

 
AV - O filme se estrutura a partir de dois eixos narrativos que se diferenciam em termos de escolhas estéticas: a granulação e o tom cinza e frio da sala de imigração; e o solar e arejado de Recife durante o road movie. Fale sobre a direção de fotografia e as diferenças entre locações.

José Joffily: Eu já trabalho com o fotógrafo Nonato Estrela há muitos anos. Gosto muito de descobrir a fotografia e que direções devo seguir. Fizemos uma pesquisa de campo para saber como filmar interiores e exteriores: se deveríamos usar tal lente ou o tripé, e coisas do tipo. Optei por filmar com duas câmeras na migra para não banalizar e não perder a força das cenas. Tudo era uma questão de tempo. Disse para a produção que filmaria mais rápido a migra e assim consegui mais uma equipe de filmagem. A música durante as sequências da imigração não faria sentido. Portanto, trabalhei a edição de som para configurar e dar credibilidade. Já no Nordeste, a música tinha um papel importante, mas mesmo assim sacrificamos bastante a trilha sonora.

 
AV - Olhos Azuis depende diretamente do trabalho de montagem para funcionar na tela. A tensão vai se construindo de maneira crescente. Quais foram as diretrizes da edição e o trabalho com o montador Pedro Bronz?

José Joffily: Tive muita preocupação em como fechar cada cena e como ela iria abrir na seguinte. Retiramos alguns trechos de cortes que estavam previamente marcados. Também trocamos alguns de ordem. Era importante manter o interesse do espectador na história e a montagem devia dar essa fluência. "Olhos Azuis" é o primeiro filme de ficção que o Pedro monta. Ele fez uma modificação significativa ao defender que o longa terminaria na beira do rio, com o fracionamento de cenas da abertura. Visualmente era muito mais atraente terminar dessa forma, com o personagem indo de encontro ao mar.

 
AV - O discurso da obra aborda alguns temas polêmicos, como o preconceito racial e o xenofobismo. Os personagens assumem, de certa forma, estereótipos sociais, como a argentina malandra, os hondurenhos como frágeis e falsos esportistas e o brasileiro pobre que empreende seu "american dream", entre outros. Essa construção é deliberada?

José Joffily: Nunca tivemos essa ideia. A intenção também nunca foi de mostrar os argentinos como malandros; o filme é uma coprodução com a Argentina. Em Paulínia, levantaram a questão sobre a sensualidade da cubana, mas ela é comportada e a argentina é muito mais voluptuosa. O filme, sem dúvida, ganha asas e você perde o domínio de todas as possíveis leituras. Queria, sobretudo, que fosse um longa ecumênico e que representasse os países latinos. Tiramos um personagem chileno, que na época era construído sob o signo do neo-liberalismo. E também sacamos um militar argentino que foi condenado e se matava na migra - essa história era baseada em um personagem real. Talvez tenha algo nesse sentido de refletir um pouco cada país e características, mas não foi a intenção.

 
AV - De um lado se tem o policial americano durão, ex-militar, apegado a moral e aos bons costumes. Ele chega até mesmo a ser chamado de John Wayne por uma colega de trabalho, mas também é identificado com traços da persona de Clint Eastwood, como seu personagem Dirty Harry e no recente "Gran Torino" (2008). E de outro a temática política, a causa e o efeito, que remete ao roteirista e escritor Guillermo Arriaga e ao diretor Alejandro Iñarritú em "Babel" (2006). Quais foram as principais referências para o filme?

José Joffily: Marshall é sincero, sem disfarces. Ele representa o americano médio. Defende o seu país e é um retrato explícito do povo americano que não quer estrangeiros em seu território. Durante esse episódio sobre as sanções ao Irã e as reuniões com o Brasil ninguém da imprensa lembrou de um episódio que reflete a política exterior objetiva dos Estados Unidos: o embaixador Bustani foi defenestrado do cargo porque conseguiu reduzir em um terço as substâncias químicas empregadas como armas de guerra. Isso atrapalhava o ataque a Bagdá. E isso é aplicado por eles em uma série de países. Com relação as referências, nós temos todos uma formação de milhares de filmes americanos. É um inventário de filmes e séries que estão em nosso imaginário e, com certeza, passou pela nossa cabeça tanto o John Wayne quanto o Eastwood. Passamos meses discutindo o roteiro e nos utilizamos de um infinito número de referências.

Olhos Azuis no "Pulei pela Janela, Beijos!"

Do blog "Pulei pela Janela, Beijos", por Taís Bravo.

A primeira coisa que deve ser dita sobre Olhos Azuis: é um filme destemido. Há uma Verdade que perpassa suas histórias e se apresenta ao longo de todo o filme sem nenhum vestígio de hesitação, forte e pungente.



A trama se desenvolve através de dois principais fragmentos, um se passa no departamento de imigração americana, outro no Nordeste brasileiro. À medida que a relação entre estes fragmentos torna-se mais clara, maior é a aflição que nos atinge, não queremos enxergar o final que se aproxima. No entanto, é inevitável, o clímax se instala, os fragmentos se encontram, porém o ritmo tenso que os conduz, não se satisfaz, persevera, somos abandonados em meio a ele. O filme acaba e não tem fim.


O grande mérito de Olhos Azuis é este, sua relevância que ultrapassa a sala de cinema. Pode-se falar sobre muitos aspectos incríveis do filme, as atuações brilhantes, o roteiro impecável, fotografia…É um trabalho primoroso. Mas o que realmente engrandece todas estas ações é a relevância desse cinema destemido.

A Verdade que para muitos parece ousadia expor, Olhos Azuis escancara com a honestidade de quem não suporta mais rebaixar-se a reivindicações comedidas.


Ter coragem não deveria ser um motivo de honra, mas em tempos de relativismo e cinismo, é muito mais do que isso.


Entrando em pormenores, Olhos Azuis é um filme com um viés político explícito, no qual os paradoxos do um mundo neo-liberal – em que as relações de poder se dão de forma extremamente injustas, impossibilitando, então, a existência de uma liberdade propriamente dita – são apresentados com suas reais amarguras.


O embate entre olhos negros e olhos azuis é resultado da história de homens condicionados à História. Não há condições naturais ou determinismos, tudo é construção histórica. Marshall (David Rasche), o olhos azuis, carrega em si a paranóia, o individualismo, a arrogância e um patriotismo tipicamente americanos, porém, o ser americano não se trata de uma condição natural, impassível de mudança, é uma condição histórica, logo, em contínuo processo. Bia (Cristina Lago), é outra personagem que representa uma condição típica, é a puta brasileira, mais do que brasileira, nordestina, marcada pelas intransigentes raízes do Sertão. Confesso que tal personagem era a mais problemática para mim, temia que tal estereótipo fosse apresentado superficialmente, porém Bia cresce belamente ao longo da trama, as cenas de sua volta ao Sertão apertam a garganta e dilaceram as feridas ainda não curadas.


O clímax de Olhos Azuis pode ser representado por uma imagem, a veia dilatada de Nonato (Irandhir Santos)*. A revolta deste personagem é perturbadora, porque é um grito de realidade em meio a um jogo de consentimentos, no qual, os subordinados aceitam as regras em nome de uma liberdade que nunca deveria ser requisitada. Neonato é um corpo que sofre. Ele treme, chora, sua veia dilata, a injustiça que sente vai além, ela está impregnada em suas raízes, no seu povo, na História. Ele vai até as últimas instâncias, no filme é herói, na vida real seria, provavelmente, um imprudente. Ser destemido em tempos de liberdades relativas é imprudência, falta de limite.


Porém, como já foi dito, Olhos Azuis vai além das terríveis conjunturas de nosso tempo. A tensão que pulsa através da trama é História e as injustiças atreladas a essa construção que definham as liberdades individuais. A História da ascensão capitalista da supremacia americana é a História da vida humana impedida, diminuída, controlada.


Voltamos, então, a relevância de Olhos Azuis. O que o torna importante é seu compromisso com os homens, com suas histórias individuais condicionadas e fadadas, em geral injustamente, pela História. Não há consolo após essas imagens. Há orgulho, de um filme nacional executado perfeitamente com um tema de extrema importância global, e a esperança de que pelo menos a arte seja capaz de expor o que a realidade de simulacros nos persuade a ignorar.


Olhos Azuis é o cinema como instrumento de choque, de imersão em outras experiências, para a construção de consciência de nossa própria história.
 
* Sobre a veia de Nonato e Olhos Azuis, o excelente texto de Rafael Zacca. 

sábado, 29 de maio de 2010

Crítica: Olhos Azuis por Celso Sabadin


Suspense não é exatamente um gênero cinematográfico tradional no cinema brasileiro. E por aqui, quando se fala em Polícia, logo o tema é associado a favelas ou cárceres. Assim, é mais do que bem-vinda a estreia do premiado “Olhos Azuis”, produção brasileira que mescla elementos de suspense, drama e policial sem cair na facilidade dos desgastados clichês que permeiam estes três gêneros.

O bom roteiro assinado por Melanie Dimantas e Paulo Halm enfoca o protagonista Marshall (vivido pelo norte-americano David Rasche) em três tempos bem diferentes na sua vida: (1) em seu último dia como policial de imigração de um aeroporto dos EUA, antes de se aposentar; (2) preso numa penitenciária e (3) embriagado vagando pelas praias brasileiras. Os primeiros minutos do filme não sinalizam em qual ordem cronológica poderiam ter acontecido estes três momentos. A narrativa é entrecortada, embaralha os tempos, atraindo desta forma rapidamente a atenção e a curiosidade da plateia, que é convidada a montar o seu quebra-cabeças dramatúrgico.

Aos poucos, novos personagens vão se agregando, e rapidamente a situação ambientada na terrível sala de imigração do aeroporto - um verdadeiro purgatório onde se decide quem vai para o Céu ou para o Inferno - vai ganhando mais força e se agigantando dentro do filme. Num ambiente claustrofóbico semelhante ao obtido por Giuseppe Tornatore em “Uma Simples Formalidade” (1994), o diretor José Joffily (o mesmo de “Quem Matou Pixote” e “Dois Perdidos numa Noite Suja”) cria com muita eficiência um clima de forte tensão, onde gradativamente se destilam os mais arraigados sentimentos de ódio, culpa e preconceito.

Apenas uma frágil divisória de vidro, com persianas mais frágeis ainda, separa a força policial norte-americana dos “cucarachas” ansiosos por entrar na tão decantada América. É um tênue “muro de Berlim” de vidro e compensado que simboliza um imenso fosso cultural e social. Ao lado de Rasche, os atores Frank Grillo (no papel de Bob), Erika Gimpel (Sandra) e principalmente Irandhir Santos (Nonato) brilham como coadjuvantes de primeira linha.

No outro tempo fílmico, Marshall aparece despido de sua carapuça policialesca, decadente e carcomido pelos caminhos do “inferno” para onde desceu: as belas praias do nordeste brasileiro, através das quais é ciceroneado por Bia (Cristina Lago), o sempre enigmático personagem da prostituta de bom coração.

Desencontradas no tempo e no espaço, as linhas narrativas se encaminham com competência para a solução final que - se não é exatamente surpreendente - tem o mérito de carregar consigo uma vigorosa discussão sobre as diferenças históricas e aparentemente irreconciliáveis que separam as civilizações dominantes das dominadas.

Um belo trabalho de Joffily, forte e corajoso, que foi o grande vencedor do II Festival Paulínia de Cinema com seis prêmios, incluindo o principal, de Melhor Filme.

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sexta-feira, 28 de maio de 2010

O Globo, Rio Show, 28 de maio de 2010.
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Portal PLUS TV, maio 2010.

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OLHOS AZUIS 28 DE MAIO NOS CINEMAS!

Almanaque Virtual.

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quinta-feira, 27 de maio de 2010

"Olhos Azuis" aborda drama de um brasileiro nos EUA

No UOL Cinema - Últimas Notícias: Reuters, por Alysson Oliveira do CineWeb, 27 de maio de 2010.


Bia (Cristina Lago) vai ao encontro de Marshall (David Rasche) nas ruas de Pernambuco, em cena de "Olhos Azuis"

SÃO PAULO - Vencedor do principal prêmio do Festival de Paulínia do ano passado, "Olhos Azuis", dirigido por José Joffily, traz Irandhir Santos ("Quincas Berro D'Água") no papel de Nonato, um brasileiro que construiu sua vida nos Estados Unidos e é impedido de entrar novamente no país depois de passar férias em sua terra natal. O filme, roteirizado por Paulo Halm e Melanie Dimantas, estreia em circuito nacional.

Há duas linhas narrativas em "Olhos Azuis". A primeira é um embate entre Nonato e um oficial da imigração norte-americana, Marshall (David Rasche, de "Queime depois de ler"), numa pequena sala num aeroporto. O brasileiro acaba de chegar de viagem e é barrado - num processo aleatório, no qual um grupo de americanos escolhe meia dúzia de passaportes e resolve questionar essas pessoas que tentam entrar no país.

Marshall trabalha com dois colegas, Sandra (Erica Gimpel) e Bob (Frank Grillo), e está em seu último dia de atividade. Ele foi forçado a se aposentar e deverá passar o cargo. Ele não está em seu estado normal, bebeu demais e está disposto a comprar briga com qualquer pessoa.

Na outra linha, o mesmo Marshall já não é mais o mesmo sujeito bem arrumado e barbeado que barrava as pessoas que queriam entrar nos EUA. Mais velho e desleixado com a aparência, ele está no Brasil, em busca de uma garotinha cuja imagem ele vê numa câmera.

Aos poucos, a história de "Olhos Azuis" se abre e descobrimos que o americano está no país em busca da filha de Nonato e crê ter uma dívida com ela. Não é difícil de imaginar, em poucos minutos de filme, que o conflito entre Nonato e Marshall não acabou bem. No entanto, as duas tramas vão se entrecortando ao longo de quase duas horas de filme.


Joffily é um diretor com experiência em ficção ("Dois Perdidos numa noite suja", "Achados e Perdidos") e documentários ("Vocação do Poder"). Neste novo filme, imprime tensão nas duas narrativas, construídas em cima da dúvida de como os personagens chegaram no ponto em que estão.
Tecnicamente, o filme também deixa bem clara cada história, com fotografia diferente para cada uma. Nos Estados Unidos, todas as cenas são na sala do aeroporto, com planos mais fechados e iluminação artificial. No nordeste do Brasil, as cenas são bem iluminadas, quase sempre com luz natural, e os planos valorizam a paisagem local.

Apesar de sua boa intenção, em alguns momentos, "Olhos Azuis" esbarra em inconsistências. No Brasil, Marshall recebe ajuda de uma garota de programa (Cristina Lago, de "Maré - Nossa história de amor"). Ela é mais um catalisador na narrativa do que um personagem. Com domínio bastante bom do inglês, ela serve de ponte para o americano em sua investigação. No entanto, ela nunca questiona ou estranha essa busca. O mesmo acontece com as pessoas que cruzam os caminhos da dupla, que sempre fornecem informações sem a menor cautela.

Em meio a essas fragilidades, ganha força então o trabalho do ator pernambucano Irandhir Santos - em seu terceiro filme a chegar às telas no mês de maio. Além de "Olhos Azuis" e "Quincas Berro D'Água", ele é o narrador de "Viajo porque preciso, volto porque te amo". Aqui, ele é a alma desesperada do filme, um personagem preso no limbo de um aeroporto, sem pertencer nem ao Brasil nem aos Estados Unidos. A imagem de desespero de Nonato é o que fica gravado do filme.

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

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quarta-feira, 26 de maio de 2010

Outra leitura

do Blog: Imagem em Movimento, por Christian Jafas, maio 2010.



Preconceito sm. 1. Ideia preconcebida. 2. Suspeita, intolerância, aversão a outras raças, credos, religiões, etc.

A definição dada pelo Dicionário Aurélio parece simplista ao primeiro olhar, mas as poucas palavras utilizadas são precisas, diretas e garantem um significado inequívoco para o termo. Olhos Azuis, oitavo longa-metragem de José Joffily, também possui essa rara qualidade e consegue transpor para a película, com exatidão, os sentimentos de quem um dia aprendeu o sentido do vocábulo sem ter que procurar no dicionário.

O ponto de partida para a análise que Joffily propõe parece ter saído de um filme de ação norte-americano, mas tiros e explosões são desnecessários aqui. Marshall (David Rasche), chefe do Departamento de Imigração do Aeroporto JFK, em Nova Iorque, celebra o último dia de trabalho, antes da aposentadoria forçada, incomodando um grupo de latino-americanos que ainda sonham com a terra prometida pelo Tio Sam. O incômodo que os latinos sofrem na sala de espera do aeroporto transcende a tela e recaí sobre os expectadores que, impassíveis como os personagens, compartilham das humilhações e agressões.
 
Para atingir esse estágio de interação com a platéia, José Joffily utiliza metáforas audiovisuais, um elenco forte e o recurso da montagem paralela. Vemos a trama ser revelada aos poucos, lentamente, passo a passo, enquanto nos aprofundamos na construção dos personagens. A montagem paralela nos leva a antever os acontecimentos e a julgar antes da hora, do mesmo modo que os oficiais da imigração fazem quando precisam decidir quem entra nos Estates e quem pega o avião de volta para seu país de origem.

A escolha por esse estilo de edição se mostra mais do que acertada, já que também permite aos atores coadjuvantes brilharem nos seus momentos em cena. Cada microuniverso que a narrativa constrói possui tensão e conflito na mesma escala da trama principal e esses elementos somados contribuem para a sensação de incômodo que atravessa a projeção do início ao fim.
 
O roteiro é dividido em camadas que apresentam duas realidades distintas, mas que irão percorrer caminhos paralelos até a inevitável fusão. A relação entre Marshall e o brasileiro Nonato, interpretado magistralmente por Irandhir Santos, é o fio condutor da história. Quando Marshall deixa de ser “O Chefe” para ser “O Gringo” a perspectiva muda e a relação dele com a prostituta Bia (Cristina Lago) estabelece uma segunda realidade no filme. A alternância entre essas duas realidades ora imprime um ritmo de road movie, ora de suspense impedindo que o expectador se acomode e evitando que o desfecho seja facilmente revelado.

Olhos Azuis foi o grande vencedor do Festival de Paulínia 2009 conquistando o troféu Menina de Ouro nas categorias de Melhor Filme, Melhor Roteiro, Melhor Montagem, Melhor Atriz (Cristina Lago), Melhor Ator Coadjuvante (Irandhir Santos) e Melhor Som. O desafio agora é conseguir ultrapassar as barreiras impostas por outra forma de preconceito.

O filme será lançado nesta sexta, 28 de maio, e dividirá as salas de cinema com os blockbusters do verão norte-americano. A invasão dos ‘olhos azuis’ em terras tupiniquins começou com Homem de Ferro 2, Robin Hood, Fúria de Titãs e na próxima semana teremos a estréia de Príncipe da Pérsia – adaptação do famoso joguinho da década de 80. Não seria o caso de utilizarmos o mesmo discurso de qualquer fiscal da alfândega norte-americana: “Vocês entram aqui, pegam nossos empregos, ganham dinheiro, mandam para seus países e nós, como ficamos?”

Sem apelar para o nacionalismo exacerbado podemos dizer que nós temos escolhas e uma delas é ver o ótimo trabalho de José Joffily na tela grande. Não deixe para ver em DVD. A elaborada fotografia de Nonato Estrela e a inquietante trilha sonora de Jaques Morelenbaum esperam por você.
 
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segunda-feira, 24 de maio de 2010

Irandhir Santos é 'o cara', e a cara da vez no cinema nacional

G1 - Pop e Arte, por Ronaldo Pelli, maio 2010

Onipresente nas telas, ator se junta ao time de Nachtergaele e João Miguel.
Ele está em 'Quincas Berro Dágua', 'Olhos azuis' e 'Tropa de elite 2'.

Você talvez não se lembre de imediato do nome Irandhir Santos, mas certamente o rosto do ator vai ficar cada vez mais familiar para quem acompanha o cinema nacional. Só neste mês, ele está nos filmes “Viajo porque preciso, volto porque te amo”, já em cartaz, em “Quincas Berro Dágua”, que estreia na sexta (21) e em “Olhos azuis”, que chegará às telas no dia 28.

Além desses, Irandhir também faz um dos principais papéis de “Tropa de elite 2” - longa que é aposta de sucesso nas bilheterias - e já se prepara para filmar no segundo semestre “A febre do rato”, novo projeto do diretor Claudio Assis.

Irandhir (esquerda) carrega 'Quincas' (Paulo José) junto com Flávio Bauraqui (Foto: Divulgação)

Mesmo assim, ele não se acha "o cara” da vez no cinema. “Sou apenas o cara que está gostando de fazer cinema”, diverte-se. O acanhado pernambucano, que começou a aparecer para o Brasil em “Cinema, aspirinas e urubus” (2005), do conterrâneo Marcelo Gomes, repete uma trajetória de outros atores, como Matheus Nachtergaele, João Miguel e Dira Paes. Todos tiveram suas fases e foram "a cara” do cinema nacional nos últimos anos.

Em “Quincas”, interpreta o cabo Martim, que comanda a tropa de amigos boêmios de Quincas, vivido por Paulo José, que vão levá-lo para passear pelas ruas de Salvador, mesmo morto.

“O ‘Quincas’ foi desafiador porque foi feito todo em noturna. A gente passou quase oito semanas filmando à noite, trocou o dia pela noite. Isso, fisicamente, era difícil de fazer, mas teve uma força de vontade da equipe, com o grande motor da equipe sendo o Paulo José. Ele veio com uma energia especial para esse projeto e contagiou todo mundo”, explicou Irandhir


Cinema: uma necessidade

Curiosamente, a sua entrada no cinema foi por uma questão de necessidade. Filho de um bancário que se mudava constantemente, Irandhir explica que eram raras as salas de cinema nas pequenas cidades do interior. O jeito para se aproximar dos filmes foi, então, participar de um deles.
“Desde criança gosto de cinema, sou um grande espectador. E quando eu tive a primeira oportunidade, comecei a fazer os filmes.”
Talvez por essa infância nômade, ele goste tanto de ficar em casa, e nem pensa, por enquanto, em sair de Recife.

“Hoje independe o lugar onde você vive. Não é determinante morar no eixo efervescente, onde se encontram as produções. Com a experiência que venho tendo, descobri em mim o prazer de permanecer. De viver as histórias que eu tenho aqui da minha terra.”


Em 'Tropa 2', Irandhir faz um professor que luta pelos direitos humanos (Foto: Divulgação / Alex Lima)

Local, universal

O Nordeste é tão presente para Irandhir que aparece em sua obra até em seu primeiro e único, por enquanto, trabalho para a TV: ele foi o Quaderna, protagonista da série “A pedra do reino”, projeto do diretor Luiz Fernando Carvalho.
“Foi um período especial na minha vida com imersão no trabalho muito forte. Devido à característica do Luiz Fernando Carvalho de trabalho. Ele nos levou para o sertão da Paraíba onde passamos quase cinco meses, dentro do que seria o seria o cenário, na cidade narrada no livro de Ariano Suassuna, cercado de profissionais, que eram verdadeiros professores. Me senti numa segunda universidade”, diz Irandhir que é formado em Artes Cênicas.


Mas, apesar de ressaltar bastante as raízes, Irandhir acredita que, quanto mais se explora essas mesmas raízes, mais se é universal. E usa o próprio Ariano Suassuna, a quem considera como uma espécie de ídolo, para explicar o seu raciocínio.
“Gosto muito do jeito que Ariano escreve, tão fiel às suas raízes, mas tão profundo, que extrapola os limites. Ele foi o início. Ele que povoou a minha mente na adolescência. Foi ele o responsável por estar pisando num palco, nas primeiras peças que fiz na escola e até amadoras: foram textos de Ariano.”
Ariano, porém, não é o único a quem Irandhir considera capaz de falar, ao mesmo tempo, sobre o local e o universal. O “Quincas”, de Sérgio Machado, também é um exemplo.

“O que eu gostei muito é que (o filme) é a cara da Bahia, mas ele vai tão profundo na raiz dele que levanta temas universais. Amizade, o filme é uma grande celebração à vida, e o Sérgio (Machado) pontua muito bem isso. Para os atores que não eram de lá, foi o grande gancho para a gente se sentir à vontade nessa história.”

'Olhos azuis' traz Irandhir como imigrante ilegal nos Estados Unidos. (Foto: Divulgação)

Mesmo “Tropa de Elite 2” tem essa característica para ele. Seu personagem, o professor de história Diogo Fraga bate de frente com a política de segurança pública do Rio de Janeiro. Defensor dos direitos humanos, Diogo é contra todo mundo que for a favor da estrutura política vigente fluminense – inclusive aí um tal de capitão Nascimento.


“O meu personagem vem para dizer que há outras forças de resolver a criminalidade além da violência. Que o narcotráfico, sim, é um problema, mas que a polícia também acaba sendo um problema quando ela quer resolver tudo na medida força. E é também um problema que extrapola o estado do Rio de Janeiro.”

Fronteiras

Outro filme que fala sobre a questão das fronteiras – mas dessa vez, literalmente – é o longa “Olhos azuis”, de José Joffily. Nele, Irandhir é Nonato, um emigrante brasileiro que mora nos EUA e tenta entrar no país que adotou, mas encontra um policial que implica com ele.
“Nunca fui aos EUA e nunca vivi uma experiência parecida com o filme, mas tenho relatos de pessoas próximas. O próprio Joffily me fez conhecer algumas pessoas que passaram por isso.. Como é difícil essa questão do imigrante, do estrangeiro lá fora”, questiona, para completar: “Diferente do Nonato, eu vou para outros estados, trabalho e volto. Aqui que eu permaneço”.
“Aqui” bem que poderia ser o cinema.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Em “Tropa de Elite 2″, Irandhir Santos diz que seu personagem pode ”peitar” até o Capitão Nascimento

Fonte: Cinema UOL, maio 2010



Por Alysson Oliveira
 

Quando o diretor Sérgio Machado estava fazendo a seleção de elenco para seu filme “Quincas Berro D’Água”, diversas pessoas chegavam até ele com o mesmo comentário. “Você precisa conhecer esse tal de Irandhir Santos. Ele é um gênio”. Depois de tanta insistência, o cineasta já estava certo de que o ator estaria em seu filme. Mesmo assim, pediu para o “gênio” fazer um teste. E qual não foi a sua surpresa? Irandhir era mesmo um gênio.

Quando se lembra dessa história, que Machado contou na coletiva do filme em São Paulo, o ator ri e desconversa. “As pessoas só falavam bem por que paguei para elas fazerem propaganda de mim”, brinca. Alguém desavisado pode até acreditar, mas quem acompanha cinema brasileiro já deve ter percebido que Irandhir Santos é um dos nomes do momento, e não apenas porque só no mês de maio estreiam três filmes nos quais ele tem papeis importantes, “Viajo porque preciso, Volto porque te amo”, “Quincas Berro D’Água” e “Olhos Azuis”. Mas também porque no segundo semestre ele estará nas telas em um dos filmes mais aguardados do ano, “Tropa de Elite 2”.

No filme de José Padilha ele faz Diogo Fraga, um defensor dos direitos humanos que, segundo o ator, “diz não à política de segurança pública, uma política de repressão contra os pobres, os moradores dos morros”. Em outras palavras, ele bate de frente com o ex-capitão, agora coronel Nascimento (novamente interpretado por Wagner Moura)? “Ele peita qualquer personagem que seja a favor dessa truculência, desse domínio vigente. Qualquer um mesmo, até o Nascimento, se ele foi a favor dessa política”, disse Santos ao UOL Cinema.
O personagem foi um convite de Padilha, que também tinha ouvido só elogios sobre o ator vindos do diretor de fotografia Lula Carvalho e da respeitada preparadora de elenco Fátima Toledo, que havia trabalhado com Santos em “Besouro” (2009) e em “Quincas Berro D’Água”. Fraga, segundo o ator, foi inspirado no deputado estadual carioca Marcelo Freixo (PSOL). “Ele e a Fátima me ajudaram muito a construir esse personagem. Mesmo antes de começar a preparação, fiz pesquisas sobre o assunto e o nome dele sempre aparecia ligado à defesa dos direitos humanos no Rio. Quando fiquei sabendo que o Diogo era baseado nele, me emocionei”, admite. O político, inclusive, não apenas ajudou na preparação para o personagem, como também visitou o set diversas vezes e acabou fazendo uma ponta no filme, na plateia durante um debate.

Santos, que no longa contracena bastante com Wagner Moura, Maria Ribeiro e Pedro Van Held, disse que só percebeu a dimensão do filme quando as filmagens encerraram e ele voltou para sua casa, em Recife, e todo mundo começou a perguntar como seria “Tropa de Elite 2”. “Isso nunca tinha me acontecido antes. Todo mundo está curioso para saber como será. O que eu posso adiantar é que, com certeza, o filme vai levantar muita discussão, pois esse é o ponto forte do cinema do Padilha, trazer à tona questões importantes que precisam ser discutidas”.
 
Antes e depois da "Tropa"



Antes de “Tropa de Elite 2”, o ator poderá ser visto nas telas em trabalhos que a única coisa que têm em comum é a presença de Santos. São três filmes e personagens bastante diferentes. Em cartaz em diversas cidades do país está “Viajo porque preciso, Volto porque te amo”, de Marcelo Gomes e Karim Aïnouz. Nele, o ator é o protagonista – mas de uma forma bastante inusitada. Nunca o vemos em cena, apenas ouvimos a sua voz. “Foi um desafio: como mostrar o sentimento sem aparecer na tela? Como estar presente sem estar presente?”

Para encontrar uma forma de estar em cena sem nunca aparecer fisicamente, Santos explica que o trabalho dos dois diretores foi fundamental. “O instrumento de trabalho do ator é o corpo. Quando me vi sem a possibilidade de usar o meu corpo, tive de explorar a minha fala. Percebi que a voz pode ser tão importante quanto o corpo. Eles me ajudaram a encontrar a entonação certa em cada momento da vida do personagem”.

O convite para esse trabalho partiu de Gomes, que havia trabalhado com o ator em “Cinema, Aspirinas e Urubus” (2005). Primeiro Santos gravou toda a sua narração sem ver as imagens. Depois, usando essa gravação como parâmetro fez novas locuções, agora vendo o longa. “O resultado é mágico. Com o filme pronto a gente entende o que é a poesia no cinema”.
 
Já em “Quincas Berro D’Água” (previsto para estrear dia 21), o ator é um dos amigos do morto beberrão interpretado por Paulo José. Santos. Ao lado de Flávio Bauraqui, Luiz Miranda e Frank Menezes, forma um quarteto de amigos inseparáveis, companheiros de bebedeira do personagem-título. “Fizemos uma preparação de dois meses com a Fátima. Isso foi importante para nos aproximar e nos tornarmos amigos de verdade, não apenas na tela. Isso traz uma grande verdade para o filme”.




Se esse lado foi diversão na preparação para “Quincas Berro D’Água”, houve outro que foi um desafio. A pedido da preparadora, eles simplesmente deviam encarar Paulo José como um homem comum, deixar de lado tudo o que ele representa para a história do cinema brasileiro. “O Paulo era surpreendente em cena e nos trouxe uma energia muito legal, uma vitalidade. Mas não foi fácil deixar nosso lado tiete de fora. No fim, foi um grande aprendizado, há muito a se aprender com ele. Eu tenho o maior orgulho de ter feito esse filme com ele”.

Ainda em maio, previsto para o dia 28, chega aos cinemas “Olhos Azuis”, no qual Santos, dirigido por José Joffily (“Achados e Perdidos”) interpreta um brasileiro que mora nos EUA e tem dificuldades de voltar ao país depois de uma viagem ao Brasil. A maioria das cenas do ator são em inglês. Nelas, ele contracena com um trio de americanos, encabeçado por David Rasche (“Queime Depois de Ler”, “A conquista da honra”).


Santos conta que falava inglês, mas não tinha fluência. “Foi preciso um trabalho com um professor de Recife para que eu deixasse meu inglês no ponto como o personagem falaria. Não podia ser muito certinho, pois ele aprendeu na rua mesmo, na vivência do dia-a-dia”. Para ele, foi uma experiência bastante inusitada, mas surpreendente. “Durante as filmagens, eu estava bastante confiante e o diretor nos deu bastante espaço para improvisar”.

O próximo passo na carreira de Santos será fazer um segundo filme com Cláudio Assis (“Amarelo Manga”), que se chamará “A Febre do Rato”. Ele teve uma participação em “Baixio das Bestas”, que conseguiu depois de muitos testes – mas agora será o protagonista. “Eu não sei muito sobre o meu personagem. Mas sei que será um filme muito surpreendente na carreira do Cláudio. Agora é uma história de amor. Acho que todo mundo vai se espantar”.

Santos se orgulha de que o convite para atuar em “A Febre do Rato” tenha partido do próprio diretor. As filmagens devem começar no início do segundo semestre. Até lá, o ator de 31 anos não para. Ele confessa que nos últimos três anos esteve muito envolvido com cinema, e agora quer voltar às suas origens, o teatro. “Eu comecei fazendo teatro na escola. Foi aí que me descobri, não posso abandonar isso. Estou com diversos projetos que pretendo tocar com meus amigos”.
 
Link para matéria no UOL.