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sexta-feira, 18 de junho de 2010

A tensão racial de Joffily

No Zero Hora, em 18 de junho de 2010, por Roger Lerina.

ESTREIAS


Vencedor de cinco prêmios no Festival de Paulínia do ano passado, inclusive de melhor filme, Olhos Azuis (2009) mostra o preconceito racial e cultural dos americanos em uma trama que mistura drama e suspense policial. No novo filme do diretor José Joffily, o setor de imigração do aeroporto JFK, em Nova York, é o palco do embate entre um policial americano e um brasileiro residente nos Estados Unidos.

Em Olhos Azuis, o excelente Irandhir Santos – ator de filmes como Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo e Quincas Berro d’Água – encarna um professor universitário que está voltando aos Estados Unidos depois de visitar a filha em Pernambuco. O destino do brasileiro Nonato, porém, muda drasticamente ao ser chamado para dar explicações ao oficial de imigração vivido pelo ator David Rasche (de Queime Depois de Ler), um preconceituoso policial com problemas de bebida que está à beira de surtar em seu último dia de trabalho. Apesar dos protestos dos subalternos interpretados pelos bons atores Frank Grillo e Erica Gimpel, o modo como o oficial Marshall trata os estrangeiros considerados suspeitos conduz os acontecimentos rumo a uma tragédia.

A história de Olhos Azuis se passa em dois tempos: as cenas no aeroporto – que renderam a Irandhir o prêmio de ator coadjuvante em Paulínia – alternam-se com sequências no Nordeste, anos depois do episódio, quando o americano tenta entrar em contato com a família de Nonato. Joffily – que adaptou a trama da peça Dois Perdidos numa Noite Suja para o mundo dos imigrantes brasileiros em Nova York em sua versão para o cinema de 2002 – denuncia a intolerância aos estrangeiros que recrudesceu nos Estados Unidos após o 11 de Setembro. No entanto, a tensão e a dramaticidade de Olhos Azuis ficam comprometidas diante do roteiro implausível e recheado de diálogos didáticos e pouco inspirados, que comprometem o resultado final do filme.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Pernambucano em todas no cinema

O Dia - Rio de Janeiro /RJ - 15/6/2010 - Pág. 04 

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quarta-feira, 2 de junho de 2010

Daiblog entrevista Irandhir Santos

Do Daiblog, postado por Michel Toronaga, em 02 de junho de 2010.

O pernambucano Irandhir Santos interpreta Nonato, o corajoso emigrante brasileiro que encara Marshall, chefe da imigração americana em Olhos Azuis. O ator fez sua formação em artes cênicas na Universidade Federal de Pernambuco, do teatro ingressou na televisão, onde trabalhou na minissérie A Pedra do Reino. Sua estreia em longa metragem foi em Cinema, Aspirinas e Urubus, depois veio Baixio das Bestas, com o qual conquistou o Troféu Candango de melhor ator coadjuvante no Festival de Brasília de 2006. Em 2009 atuou no filme Besouro. Também fez o curta Décimo segundo e o longa Amigos de risco.


No inicio de 2010, pôde ser visto também como o protagonista do longa Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo, de Karim Ainouz. Sua atuação em Olhos Azuis foi premiada no Festival de Paulínia, 2009. Em maio deste ano, Irandhir estreou também o filme Quincas Berro D´Água, adaptação para a cinema do livro de Jorge Amado. Atualmente, o ator está filmando Tropa de Elite 2. Leia agora uma entrevista com o ator falando sobre Olhos azuis.
 
 
 Irandhir em Décimo segundo
Varias línguas

Minha formação foi em teatro, onde é possível experimentar mais. Em cinema é tudo corrido, mais matemático, tem que ter mais concentração. Repetir a mesma cena com a mesma intensidade, sem perder a emoção. Mas o maior desafio desse papel foi sem dúvida interpretar em inglês. Inglês sempre foi um problema, desde o tempo da escola. Porque não tinha motivação para estudar como deveria. Mas o engraçado é que eu sempre soube que um dia precisaria do inglês. Até que um dia liga a Helô (produtora do filme) e me convidada para interpretar o papel. Nesse momento ela diz: tem uma questão, você tem que interpretar em inglês. Então eu tive que voltar para a escola. Ela disse: você tem 3 meses para se preparar.

Se tive dificuldades no inglês no passado, por outro lado, sempre encarei os desafios da vida. Então pensei: em 3 meses o Nonato estará pronto. E assim foi, o aprendizado continuou durante a filmagem. No set, tive a ajuda do Joffily, do David Rache, da Erica Gimpel e do Frank Grillo, os atores americanos. Depois de alguns dias rodando, ensaiando o clima tomou conta do set, o inglês foi ganhando força e eu fui assimilando. Tem ainda o espanhol, o Nonato fala portunhol. Na verdade, na sala de espera da imigração existe uma tentativa de comunicação, as pessoas se comunicam de várias formas, há outras linguagens presentes ali, talvez até mais significativas do que a verborragia.
 
 
 O ator em Quincas Berro D'água
Cumplicidade

Calypso, a cubana que fica detida juntamente com Nonato e o outros latinos na ante-sala da imigração americana, é a personagem mais próxima do brasileiro. Os dois estão em situação parecidas, talvez para ela seja mais difícil, porque é a primeira vez que ela viaja para os Estados Unidos. Para Nonato é mais tranquilo, ele está mais preocupado com seu tempo. Ele quer aparentar ser um homem de negócios. Naquela sala ele encontra uma cumplicidade com Calypso. Às vezes não há palavras. Eu e Branca (Messina) que interpreta a Calypso, conversamos sobre isso, às vezes basta um olhar. O que vem dos outros personagens em relação ao Nonato são coisas muito desumanas. Os policiais estão atirando o tempo todo, são outros sentimentos, mas estes também ultrapassam a barreira da língua.
A construção de Nonato

A partir de uma palavra: emigração. Uma pessoa que vai sempre em frente, que se estabelece.Nonato saiu de Petrolina, superou dificuldades para ir até o Recife estudar história, depois vai para os Estados Unidos. Lá ele se estabeleceu, sempre seguindo em frente, trilhando um caminho reto. Até que chega uma pessoa e diz: pare por aí. Daqui você volta. Desconsidera todo o seu passado.
 
Ao lado de Branca Messina no drama Olhos azuis

Dentro da bolsa que Nonato carrega está a filha,a mãe e a sua história. É difícil você abrir mão da sua história. Confesso que me detive no Nonato do aeroporto e em um passado que o motivasse a ir para os EUA. Mas tem o outro Nonato. Na imigração ele está constantemente preocupado, transpira, tem rugas na testa. Quando está no Recife é um Nonato relaxado, sorridente, seu tempo é mais devagar, observa, sente o clima, aproveita o sol, o mar, a filha.

No primeiro interrogatório, Nonato se expressa com um inglês perfeito. Mas à medida que vai sendo pressionado, seu inglês vai piorando. Sua emoção vai crescendo quando se sente atingido,aí retoma a língua mãe, o português. No momento da virada, precisa se fazer entender, então Nonato volta para o inglês perfeito. São várias trajetórias desse personagem. 
 
 
Cena de Amigos de risco
Olhos Azuis fala do ser humano

A cor azul representa a memória. Para o Nonato e para mim também. Quando acordo, lembro dos meus sonhos com a cor azul. O meu passado também é azul. A cor está presente nos olhos de duas pessoas significativas na vida dele: o policial, esse monstro que diz, você não vai em frente e a filha, que é o há de mais precioso para ele. Duas pessoas com cores iguais em seu olhos, mas que trazem emoções totalmente diferentes. Marshall e Luiza. Como podem ser iguais e diferentes ao mesmo tempo? Estamos falando das mesmas pessoas.


Esse filme fala das mesmas pessoas, somos iguais, independente da cor, ou dos olhos, somos iguais. Pessoas iguais e diferentes. Muda-se a cor, mas os infortúnios são os mesmos. todos são iguais, as questões são as mesmas. Não é uma questão de país ou de cultura. É uma questão humana. Como lidar com os nossos infortúnios? Nonato volta a ser um animal, ao seu instinto de sobrevivência e defesa. Volta ao que todo homem tem, seja em que país for, independente da cor dos olhos, da cor da pele. Esse filme fala sobre o homem. São as conseqüências da vida.
 
 
Irandhir Santos em Besouro
Imagens e cores

Meu personagem tem uma câmera, então o fotógrafo do filme, Nonato Estrela, me perguntou: o que o seu Nonato filmaria? Acho que Nonato sai captando a imagem dos pés de sua filha, sua filha correndo, a praia de Boa Viagem, os momentos de carinho com Luiza.


Assisti a uma reportagem sobre segurança nos aeroportos e ali surgiu a ideia das cores. Para demonstrar os níveis de atenção, eles usam cores. Por exemplo, alerta laranja, alerta vermelho, etc. Eu peguei essa referência como guia das emoções das cenas que faria. Então tenho cenas amarelas e quando começa a incomodar passo para as cenas laranjas até chegar o “pega pra capar”, as cenas de vermelhas.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Entrevista com o cineasta José Joffily no Almanaque Virtual

Do Almanaque Virtual, Por Leonardo Luiz Ferreira

Fotos de Álvaro Riveros


O interesse pelo cinema de gênero, a partir de um episódio trágico, se faz mais uma vez presente na obra do realizador José Joffily: Olhos Azuis (2009) é um thriller que aborda temas polêmicos em uma jornada redentora. Ao intercalar projetos de ficção com documentários, Joffily soube construir uma carreira de propósitos bem definidos, nos quais cada novo filme se relaciona de alguma forma com os anteriores. O interesse permanece por personagens à margem ou que não recebem a atenção da maioria das pessoas e que estão sempre em busca de mudança. Na entrevista exclusiva, realizada quase um ano depois da consagração do longa no Festival de Paulínia, o diretor reflete sobre o projeto e revela o que lhe impulsionou para ser cineasta.

Almanaque Virtual - O que lhe moveu primeiramente a realizar cinema?

José Joffily: Falando assim rapidamente e sem pensar muito, eu diria que foi a vontade de ficar em grupo. Quando trabalhava como fotógrafo era tudo muito solitário: cobria as pautas, voltava e editava o material e colocava as legendas. Era um processo chato. A minha vida mudou quando encontrei pessoas que estavam interessadas no mesmo assunto e que tinham prazer de trabalhar com cinema. Era sedutora a ideia de realizar um filme e isso compartilhava com todos eles. Em um determinado momento se formou um grupo de realizadores que resultou na produtora Corisco Filmes, entre eles estavam Jorge Durán, Sérgio Rezende, Murilo Salles, Emiliano Ribeiro e Mariza Leão. Essa multiplicação de encontros foi importante para a minha formação como cineasta.

 
AV - O roteiro de Olhos Azuis participou de uma oficina dos laboratórios do Instituto Sundance, em 1999. Por que levou tanto tempo para realizar o filme?

José Joffily: A ideia original surgiu em 1998. Os filmes se ajustam à época, ao talão de cheques e as circunstâncias. Alguns projetos vêm à tona e outros submergem com o passar do tempo. E no caso de "Olhos Azuis", sempre mantive a vontade de realizá-lo, pois gostava muito da história e dos personagens. Na versão original do roteiro, em um dos primeiros tratamentos, o filme se passava em diversos países: mostraria flashbacks de todos os latinos detidos na migra em seus países de origem. Mas isso tornou a produção muito cara. A história do boliviano, que o policial Marshall conta para a moça em um bar, seria encenada. Ela se transforma em relato, pois gostava de sua força, além de demarcar bem o que é estar distante de seu país. O tempo de maturação do projeto trouxe prós e contras. Lamento não ter feito externas em Havana, por exemplo. Mas mantive a ideia de que os atores são oriundos dos países dos personagens. Uma história curiosa sobre a produção de "Olhos Azuis" é a de que o personagem principal seria interpretado pelo ator Robert Foster, que renasceu devido ao sucesso de "Jackie Brown" (1998), de Quentin Tarantino. Ele estava animado com o filme e completamente inteirado com o projeto. De repente, eu recebi um e-mail dele em que dizia que não poderia filmar naquele momento, pois estava comprometido com uma filmagem em Cingapura. Foi a personificação do horror: perdi o protagonista do filme com todo o plano de filmagem já traçado. Decidi partir para Nova York e pessoalmente resolver esse problema. Foi aí então que surgiu o David Rasche, um ator mais ligado a seriados e comédias. Isso foi um fator importante para sua escolha em que interpretaria um papel bem diferente. Ele desenvolveu uma camaradagem com o núcleo de personagens da imigração e se integrou rapidamente.

 
AV - O filme se estrutura a partir de dois eixos narrativos que se diferenciam em termos de escolhas estéticas: a granulação e o tom cinza e frio da sala de imigração; e o solar e arejado de Recife durante o road movie. Fale sobre a direção de fotografia e as diferenças entre locações.

José Joffily: Eu já trabalho com o fotógrafo Nonato Estrela há muitos anos. Gosto muito de descobrir a fotografia e que direções devo seguir. Fizemos uma pesquisa de campo para saber como filmar interiores e exteriores: se deveríamos usar tal lente ou o tripé, e coisas do tipo. Optei por filmar com duas câmeras na migra para não banalizar e não perder a força das cenas. Tudo era uma questão de tempo. Disse para a produção que filmaria mais rápido a migra e assim consegui mais uma equipe de filmagem. A música durante as sequências da imigração não faria sentido. Portanto, trabalhei a edição de som para configurar e dar credibilidade. Já no Nordeste, a música tinha um papel importante, mas mesmo assim sacrificamos bastante a trilha sonora.

 
AV - Olhos Azuis depende diretamente do trabalho de montagem para funcionar na tela. A tensão vai se construindo de maneira crescente. Quais foram as diretrizes da edição e o trabalho com o montador Pedro Bronz?

José Joffily: Tive muita preocupação em como fechar cada cena e como ela iria abrir na seguinte. Retiramos alguns trechos de cortes que estavam previamente marcados. Também trocamos alguns de ordem. Era importante manter o interesse do espectador na história e a montagem devia dar essa fluência. "Olhos Azuis" é o primeiro filme de ficção que o Pedro monta. Ele fez uma modificação significativa ao defender que o longa terminaria na beira do rio, com o fracionamento de cenas da abertura. Visualmente era muito mais atraente terminar dessa forma, com o personagem indo de encontro ao mar.

 
AV - O discurso da obra aborda alguns temas polêmicos, como o preconceito racial e o xenofobismo. Os personagens assumem, de certa forma, estereótipos sociais, como a argentina malandra, os hondurenhos como frágeis e falsos esportistas e o brasileiro pobre que empreende seu "american dream", entre outros. Essa construção é deliberada?

José Joffily: Nunca tivemos essa ideia. A intenção também nunca foi de mostrar os argentinos como malandros; o filme é uma coprodução com a Argentina. Em Paulínia, levantaram a questão sobre a sensualidade da cubana, mas ela é comportada e a argentina é muito mais voluptuosa. O filme, sem dúvida, ganha asas e você perde o domínio de todas as possíveis leituras. Queria, sobretudo, que fosse um longa ecumênico e que representasse os países latinos. Tiramos um personagem chileno, que na época era construído sob o signo do neo-liberalismo. E também sacamos um militar argentino que foi condenado e se matava na migra - essa história era baseada em um personagem real. Talvez tenha algo nesse sentido de refletir um pouco cada país e características, mas não foi a intenção.

 
AV - De um lado se tem o policial americano durão, ex-militar, apegado a moral e aos bons costumes. Ele chega até mesmo a ser chamado de John Wayne por uma colega de trabalho, mas também é identificado com traços da persona de Clint Eastwood, como seu personagem Dirty Harry e no recente "Gran Torino" (2008). E de outro a temática política, a causa e o efeito, que remete ao roteirista e escritor Guillermo Arriaga e ao diretor Alejandro Iñarritú em "Babel" (2006). Quais foram as principais referências para o filme?

José Joffily: Marshall é sincero, sem disfarces. Ele representa o americano médio. Defende o seu país e é um retrato explícito do povo americano que não quer estrangeiros em seu território. Durante esse episódio sobre as sanções ao Irã e as reuniões com o Brasil ninguém da imprensa lembrou de um episódio que reflete a política exterior objetiva dos Estados Unidos: o embaixador Bustani foi defenestrado do cargo porque conseguiu reduzir em um terço as substâncias químicas empregadas como armas de guerra. Isso atrapalhava o ataque a Bagdá. E isso é aplicado por eles em uma série de países. Com relação as referências, nós temos todos uma formação de milhares de filmes americanos. É um inventário de filmes e séries que estão em nosso imaginário e, com certeza, passou pela nossa cabeça tanto o John Wayne quanto o Eastwood. Passamos meses discutindo o roteiro e nos utilizamos de um infinito número de referências.

No G1, entrevista com David Rasche, protagonista de "Olhos Azuis"

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domingo, 30 de maio de 2010

Em Jornal do Brasil, Caderno B, Heloisa Tolipan, 29 de maio de 2010.


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sábado, 29 de maio de 2010

Crítica: Olhos Azuis por Celso Sabadin


Suspense não é exatamente um gênero cinematográfico tradional no cinema brasileiro. E por aqui, quando se fala em Polícia, logo o tema é associado a favelas ou cárceres. Assim, é mais do que bem-vinda a estreia do premiado “Olhos Azuis”, produção brasileira que mescla elementos de suspense, drama e policial sem cair na facilidade dos desgastados clichês que permeiam estes três gêneros.

O bom roteiro assinado por Melanie Dimantas e Paulo Halm enfoca o protagonista Marshall (vivido pelo norte-americano David Rasche) em três tempos bem diferentes na sua vida: (1) em seu último dia como policial de imigração de um aeroporto dos EUA, antes de se aposentar; (2) preso numa penitenciária e (3) embriagado vagando pelas praias brasileiras. Os primeiros minutos do filme não sinalizam em qual ordem cronológica poderiam ter acontecido estes três momentos. A narrativa é entrecortada, embaralha os tempos, atraindo desta forma rapidamente a atenção e a curiosidade da plateia, que é convidada a montar o seu quebra-cabeças dramatúrgico.

Aos poucos, novos personagens vão se agregando, e rapidamente a situação ambientada na terrível sala de imigração do aeroporto - um verdadeiro purgatório onde se decide quem vai para o Céu ou para o Inferno - vai ganhando mais força e se agigantando dentro do filme. Num ambiente claustrofóbico semelhante ao obtido por Giuseppe Tornatore em “Uma Simples Formalidade” (1994), o diretor José Joffily (o mesmo de “Quem Matou Pixote” e “Dois Perdidos numa Noite Suja”) cria com muita eficiência um clima de forte tensão, onde gradativamente se destilam os mais arraigados sentimentos de ódio, culpa e preconceito.

Apenas uma frágil divisória de vidro, com persianas mais frágeis ainda, separa a força policial norte-americana dos “cucarachas” ansiosos por entrar na tão decantada América. É um tênue “muro de Berlim” de vidro e compensado que simboliza um imenso fosso cultural e social. Ao lado de Rasche, os atores Frank Grillo (no papel de Bob), Erika Gimpel (Sandra) e principalmente Irandhir Santos (Nonato) brilham como coadjuvantes de primeira linha.

No outro tempo fílmico, Marshall aparece despido de sua carapuça policialesca, decadente e carcomido pelos caminhos do “inferno” para onde desceu: as belas praias do nordeste brasileiro, através das quais é ciceroneado por Bia (Cristina Lago), o sempre enigmático personagem da prostituta de bom coração.

Desencontradas no tempo e no espaço, as linhas narrativas se encaminham com competência para a solução final que - se não é exatamente surpreendente - tem o mérito de carregar consigo uma vigorosa discussão sobre as diferenças históricas e aparentemente irreconciliáveis que separam as civilizações dominantes das dominadas.

Um belo trabalho de Joffily, forte e corajoso, que foi o grande vencedor do II Festival Paulínia de Cinema com seis prêmios, incluindo o principal, de Melhor Filme.

LEIO O POST ORIGINAL NO CINECLICK

Retrato da realidade

Portal UAI, por Marcello Castilho Avellar, 28 de maio de 2010.


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sexta-feira, 28 de maio de 2010

Do blog: O Cine Dude


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O Estado de São Paulo, Caderno 2, 28 de Maio

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Folha de São Paulo, sessão Ilustrada, 28 de Maio

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O Dia, Show e Lazer, 28 de Maio

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Jornal do Brasil, Revista Programa, 28 de Maio

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Diário de São Paulo, 28 de Maio
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Sobre trauma e humilhação

Laboratório Pop, por Daniel Passi, maio 2010.



Olhos azuis conta a história de Marshall (David Rasche), chefe do departamento de imigração americano, que no último dia antes da aposentadoria resolve se divertir à sua maneira, detendo um grupo de latino-americanos e expondo-os a situações humilhantes. Alcoólatra, com seus atos Marshall faz a noite tomar um rumo inesperado. Anos depois, usando como referência um vídeo dentro de uma câmera portátil, ele sai à procura de uma pequena menina por Pernambuco, contando com a ajuda da prostituta Bia. Este é um filme sobre palavras. Aqui elas agem como bombas e parecem ter o mesmo peso dos galopantes tambores de maracatu que abrem os letreiros iniciais.

Como uma grande lavação de roupa suja sem restrições morais, Olhos azuis nos mostra o ódio e o rancor ocultos de uma nação traumatizada pós 11 de setembro, representada pela figura de Marshall. Dirigido por José Joffily (Dois perdidos numa noite suja), ganhador do Festival de Paulínia de Cinema 2009, trata-se também de um filme sobre contrastes. Dicotomizam rico e pobre; claro e escuro; espaços claustrofóbicos e abertos. Não há hesitação em jogar o espectador de um lado para o outro, criando com essa agilidade uma intensa carga dramática.

Duas histórias acontecem paralelamente. Uma, em flashback, se passa inteiramente dentro do sufocante espaço do departamento de imigração de um grande aeroporto americano. Com uma iluminação fria e sons de vertigem ao fundo, a realidade é exposta de maneira crua. Para tal, Joffily lança mão de um tom documental, alcançando, porém, um nível de veracidade maior do que qualquer documentário conseguiria atingir. Talvez este seja o aspecto mais perturbador da obra — isto pode estar acontecendo neste momento, em qualquer aeroporto americano, e não há nada que possamos fazer.

Todos os personagens presos neste limbo são uma síntese, uma unidade representando um drama coletivo. Embora postos no mesmo saco latino pelos oficiais, fica clara cada particularidade. Temos o mestiço brasileiro que, saído de uma pequena cidade do interior, tenta a vida em outro país (impossível não vir à cabeça a imagem de Jean Charles); a dançarina cubana morena que mesmo conseguindo um visto cultural ainda assim é importunada por conta de Fidel; a equipe esportiva com traços andinos.

O casal de poetas argentinos é a inteligente escolha que o filme faz de não vitimizar ninguém: embora estejam saindo de Buenos Aires por não conseguirem grande aceitação de seus trabalhos, financiam sua ida traficando cocaína para os "viciados americanos", escondendo a carga dentro de seus livros (detalhe para o hilário título: Poesias y algo más).

Na situação de fragilidade em que todos se encontram, os viajantes são submetidos por um Marshall cada vez mais alterado pela garrafa de Jack Daniels que consome desde o começo do expediente e sua equipe (uma negra e um descendente de mexicanos) a tormentos desnecessários. Em especial o brasileiro Nonato (interpretado com vigor por Irandhir Santos em cartaz com Quincas Berro D’água e como a voz do protagonista itinerante de Viajo porque preciso, volto porque te amo). Na escalada de acontecimentos que se seguem, o que vemos é a reação natural de qualquer ser humano exposto a abusos físicos e psicológicos, seja ele latino, americano ou árabe — a razão é deixada de lado, torna-se então uma bomba relógio ambulante.

Corta para os grandes espaços abertos de Petrolina. Da excessiva organização burocrática do aeroporto somos jogados para Recife durante o carnaval. Da iluminação fria e artificial, para a brutal luminosidade do sertão pernambucano. Agora com todo o lirismo de um road movie, vemos Marshall, doente e alcoólatra, buscar anos depois sua redenção, como em todo filme do gênero que se preze. Para isto conta com a ajuda de Beatriz (Cristina Lago), perfeitamente a imagem estadunidense de um país latino-americano — uma prostituta com um vocabulário importado do lixo cultural estrangeiro, abundância de shits e fucks. No emocionante desfecho da história, mais uma vez a força das palavras é celebrada, mesmo que aqui sejam as que não são ditas.

Embora todos os atores estejam no tom, é David Rasche quem mostra sem dúvida uma das melhores atuações de sua carreira. Pouco conhecido do público brasileiro, foi definitivamente uma escolha acertada. Destaque também para Frank Grillo que interpreta Bob, o outro oficial de imigração. Grillo e Rashe, ao pesquisarem para o papel em aeroportos americanos, alcançaram um realismo embasbacante.

Simbólico, Olhos azuis é um dedo na ferida ainda bastante aberta do preconceito que o fará ficar sentado na poltrona depois que aparecerem os letreiros finais. Um dos poucos filmes atuais que faz o que uma boa obra de arte tem de melhor. Isto é, ser um fomentador de discussões. Olhos azuis é um filme obrigatório.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Noite de pré-estreia no Rio de Janeiro

Ontem foi a nossa pré-estreia carioca para convidados. Tivemos o prazer de poder contar com a presença de quase todo o elenco. Agora, a menos de 48 horas para estreia, só nos resta mesmo confiar no talento da nossa equipe e nos entregar para a maravilha deste delicioso momento. O sentimento é o de dever cumprido, em um misto de orgulho e satisfação. Parabéns a toda equipe e ao maravilhoso elenco que topou contar esta história!


Irandhir Santos, Cristina Lago, Pablo Uranga, José Joffily, Valéria Lorca e Branca Messina
Valeria Lorca,José Joffily, Cristina Lago e Branca Messina

Fotos: Ag. News
O filme agora é de vocês, aproveitem! A partir desta sexta-feira (28) nos cinemas!


Cinéfila Satisfeita

do Blog: Nem Froid Explica, por Hellomotta.

Até quando o jogo vale o que custa?

Você é um cara feliz. Metido a turrão. Trabalha no sonho de consumo de 50% da população mundial: É policial americano. Sua nacionalidade irlando-inglesa é motivo de inveja. Você mora no país dos sonhos, na cidade dos sonhos e tem até o emprego dos sonhos. Não, não é um policial comum! É o chefe do departamente de imigração dos EUA! Aposentadoria a caminho. Tudo seria perfeito, exceto pelo fato da solidão que esconde. Bebe por algum motivo que todos desconhecem.

Um dia você decide brincar. Todos entram no jogo, não necessariamente por vontade. Schadenfreude. O prazer que se sente com a dor e a humilhação ao outro é indescritível. Você é o dono do jogo e isso faz bem ao ego. A vida de todos que estão na sala de vidro depende de uma decisão: pode ser questão de política ou, simplesmente, do seu bom humor. O jogo começa, você dá as cartas. O problema é: após a primeira rodada, nem tudo depende só de você.

Olhos Azuis é assim. Você aprende que quando você perde o controle da sua vida, muitas outras podem estar em jogo. Hipnotizante do 5º primeiro minuto até horas após o final.

Uau! Foi com esse suspiro que deixei o cinema. U-a-u!

Não conhecia o trabalho do José Joffily. Foi paixão a primeira vista.

Só pra constar: saí de casa pra ver "Viajo porque preciso, volto porque te amo!". Literalmente, a bonequinha aqui dormiu várias vezes durante o filme. Não recomendo!

Mas como eu sou a cinéfila sortuda, caí de paraquedas nessa pré-estreia, que não só salvou a noite, como deu uma super lição de moral pré-aniversário.

A quem interessar:
Olhos Azuis (Brasil, 2010)
Estreia: 28 de maio.
Duração: 111 min
Direção: José Joffily
Com: David Rasche, Frank Grillo, Erica Gimpel, Cristina Lago e Irandhir Santo.

É como eu sempre digo: em jogo de ganha-ganha, todo mundo sai perdendo!
Uau!
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Outra leitura

do Blog: Imagem em Movimento, por Christian Jafas, maio 2010.



Preconceito sm. 1. Ideia preconcebida. 2. Suspeita, intolerância, aversão a outras raças, credos, religiões, etc.

A definição dada pelo Dicionário Aurélio parece simplista ao primeiro olhar, mas as poucas palavras utilizadas são precisas, diretas e garantem um significado inequívoco para o termo. Olhos Azuis, oitavo longa-metragem de José Joffily, também possui essa rara qualidade e consegue transpor para a película, com exatidão, os sentimentos de quem um dia aprendeu o sentido do vocábulo sem ter que procurar no dicionário.

O ponto de partida para a análise que Joffily propõe parece ter saído de um filme de ação norte-americano, mas tiros e explosões são desnecessários aqui. Marshall (David Rasche), chefe do Departamento de Imigração do Aeroporto JFK, em Nova Iorque, celebra o último dia de trabalho, antes da aposentadoria forçada, incomodando um grupo de latino-americanos que ainda sonham com a terra prometida pelo Tio Sam. O incômodo que os latinos sofrem na sala de espera do aeroporto transcende a tela e recaí sobre os expectadores que, impassíveis como os personagens, compartilham das humilhações e agressões.
 
Para atingir esse estágio de interação com a platéia, José Joffily utiliza metáforas audiovisuais, um elenco forte e o recurso da montagem paralela. Vemos a trama ser revelada aos poucos, lentamente, passo a passo, enquanto nos aprofundamos na construção dos personagens. A montagem paralela nos leva a antever os acontecimentos e a julgar antes da hora, do mesmo modo que os oficiais da imigração fazem quando precisam decidir quem entra nos Estates e quem pega o avião de volta para seu país de origem.

A escolha por esse estilo de edição se mostra mais do que acertada, já que também permite aos atores coadjuvantes brilharem nos seus momentos em cena. Cada microuniverso que a narrativa constrói possui tensão e conflito na mesma escala da trama principal e esses elementos somados contribuem para a sensação de incômodo que atravessa a projeção do início ao fim.
 
O roteiro é dividido em camadas que apresentam duas realidades distintas, mas que irão percorrer caminhos paralelos até a inevitável fusão. A relação entre Marshall e o brasileiro Nonato, interpretado magistralmente por Irandhir Santos, é o fio condutor da história. Quando Marshall deixa de ser “O Chefe” para ser “O Gringo” a perspectiva muda e a relação dele com a prostituta Bia (Cristina Lago) estabelece uma segunda realidade no filme. A alternância entre essas duas realidades ora imprime um ritmo de road movie, ora de suspense impedindo que o expectador se acomode e evitando que o desfecho seja facilmente revelado.

Olhos Azuis foi o grande vencedor do Festival de Paulínia 2009 conquistando o troféu Menina de Ouro nas categorias de Melhor Filme, Melhor Roteiro, Melhor Montagem, Melhor Atriz (Cristina Lago), Melhor Ator Coadjuvante (Irandhir Santos) e Melhor Som. O desafio agora é conseguir ultrapassar as barreiras impostas por outra forma de preconceito.

O filme será lançado nesta sexta, 28 de maio, e dividirá as salas de cinema com os blockbusters do verão norte-americano. A invasão dos ‘olhos azuis’ em terras tupiniquins começou com Homem de Ferro 2, Robin Hood, Fúria de Titãs e na próxima semana teremos a estréia de Príncipe da Pérsia – adaptação do famoso joguinho da década de 80. Não seria o caso de utilizarmos o mesmo discurso de qualquer fiscal da alfândega norte-americana: “Vocês entram aqui, pegam nossos empregos, ganham dinheiro, mandam para seus países e nós, como ficamos?”

Sem apelar para o nacionalismo exacerbado podemos dizer que nós temos escolhas e uma delas é ver o ótimo trabalho de José Joffily na tela grande. Não deixe para ver em DVD. A elaborada fotografia de Nonato Estrela e a inquietante trilha sonora de Jaques Morelenbaum esperam por você.
 
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Clique aqui para ler o post original.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Mais uma avaliação diretamente da blogsfera

do Blog: Proibido Proibir por Mattheus Rocha, maio 2010.



O cinema nacional está me enchendo de orgulho neste ano. Não são poucos os excelentes filmes lançados em 2010: Histórias de Amor Duram Apenas 90 Minutos, Sonhos Roubados, As Melhores Coisas do Mundo, Utopia e Barbárie, Quincas Berro D'água, e, agora, Olhos Azuis, novo longa de José Joffily (sem dúvida, o melhor de sua carreira). Sou capaz de apostar que o Brasil estará entre os indicados a Melhor Filme Estrangeiro no Oscar 2011. Não sei por qual, mas certamente estará. Curiosamente, além de ter dirigido Histórias de Amor..., o cineasta Paulo Halm está ligado aos roteiros de quase todos os destaques do ano. O cara tá botando a mão na massa mesmo. 
Olhos Azuis tem um tema bastante delicado. É uma crítica à xenofobia, mais evidente ainda, nos EUA, após o polêmico 11 de setembro (que fez o mundo se esquecer do assassinato de Salvador Allende). Marshall (David Rasche) é o chefe do Departamento de Imigração do Aeroporto JKF, em Nova York. Em outras palavras, ele é o buldogue que escolhe quem entra e quem não entra nos EUA, por aquelas portas. Em seu último dia de trabalho, antes da aposentadoria, ele começa a beber em serviço e perde totalmente o controle. Além de não querer deixar seu cargo (pelo poder da posição), um sério problema de saúde o aflige. Ele quer descontar suas raivas, frustrações e angústias em alguém.
Os latinos, que aguardam o carimbo em seus passaportes, são submetidos a situações humilhantes, mas o pior sobra para o brasileiro Nonato (Irandhir Santos). A tensão aumenta a cada intenso diálogo do duelo entre Marshall e ele, mesmo o roteiro deixando evidente que algo ruim acontecerá e quem levará o pior na história. A estrutura narrativa é brilhantemente dividida em três tempos, contados de forma não linear. A prisão, o conflito e a busca pela redenção, nas cidades de Pernambuco. O elenco de apoio é ótimo, com destaque para a prostituta Bia (Cristina Lago) e os atores principais têm performances geniais. Antagonista e protagonista duelam em palavras, gestos, expressões. E quem ganha é o público. Estreia: 28 de maio.
Olhos Azuis - 111 min
Brasil - 2010
Direção: José Joffily
Roteiro: Melanie Diamantas, Paulo Halm
Com: David Rasche, Frank Grillo, Erica Gimpel, Cristina Lago, Irandhir Santo.

Em "Olhos Azuis", Joffily aborda preconceito contra imigrantes brasileiros nos EUA

por: ALYSSON OLIVEIRA,  Especial para o UOL, do Cineweb, maio 2010.

Personagem de David Rasche viaja ao Brasil em ''Olhos Azuis'', filme de José Joffily

O cineasta José Joffily sabe que com seu novo trabalho, “Olhos Azuis”, está mexendo numa ferida delicada de ordem até internacional: a entrada de estrangeiros nos Estados Unidos. “A triagem de quem entra é um processo completamente aleatório. Não são nada raras as situações que o filme trata”, comentou o diretor ao UOL Cinema.
 
Em “Olhos Azuis”, um brasileiro residente nos Estados Unidos volta ao país depois de visitar a filha em Pernambuco. Ao desembarcar é barrado pelo serviço de imigração que confisca seu passaporte e o submete, junto a outros latinos, a duro interrogatório. Joffily conta que o ponto de partida aconteceu no final dos anos 1990, quando um amigo passou pela mesma situação e acabou deportado.


“Quando se chega ao aeroporto nos Estados Unidos, você é separado por categorias: americanos, europeus, e as pessoas do resto do mundo. O preconceito já começa aí. E com os mais jovens é ainda maior, porque os oficiais da imigração veem neles um imigrante ilegal em potencial”. Curiosamente, a ideia de fazer o filme começou há mais de dez anos e, depois dos atentados de 11 de setembro de 2001, Joffily percebeu que a paranóia contra quem entrava nos Estados Unidos ficara ainda maior.
 
 
Joffily lembra que no final de agosto daquele ano, filmava em Nova York o longa “2 Perdidos numa Noite Suja”. Quando voltou para concluir as filmagens em fevereiro do ano seguinte, a cidade estava completamente diferente. “Os Estados Unidos jamais serão os mesmos. O clima depois dos atentados era de total medo, insegurança”.

No filme, que estreia no país na próxima semana, Irandhir Santos (“Quincas Berro D’Água”) é o brasileiro que tenta voltar à sua vida nos Estados Unidos, enquanto o ator norte-americano David Rasche (“Queime depois de ler”) é um oficial da imigração no aeroporto JFK, em Nova York, em seu último dia de trabalho antes da aposentadoria compulsória.

Rasche e Frank Grillo, que interpreta seu subalterno, fizeram várias pesquisas, segundo Joffily, no próprio departamento de imigração do aeroporto e trouxeram uma veracidade muito grande para os personagens e o filme. “Eu acredito que aquilo tudo que o personagem Marshall sente e diz em relação ao estrangeiro reflete a mentalidade do americano médio”. Em época de mundo globalizado, aliás, o cineasta arrisca até um palpite sobre o governo dos Estados Unidos. “Hoje em dia, todo mundo parece meio especialista em política internacional. Como lá o voto é facultativo, apenas 40% dos eleitores votaram nas últimas eleições, que elegeram Barack Obama. Acredito que, atualmente, há muito americano arrependido de não ter votado. Muito mais gente deve ir às urnas na próxima eleição e o resultado pode ser um passo atrás, uma volta da direita ao poder”.
 
 
Ganhador do principal prêmio no Festival de Paulínia no ano passado, entre outros, “Olhos Azuis” também já tem uma carreira internacional, tendo sido exibido em festivais na França e nos Estados Unidos. No próximo mês, o filme será apresentado em Nova York e Joffily se confessa particularmente curioso para saber a reação do público norte-americano. “O filme surpreendeu em Paris, pois o europeu sempre espera uma temática diferente do brasileiro”, conta. Santos e Rasche dividiram o prêmio de melhor ator no festival.

Contrastes cinematográficos
Quando começou a pensar nas imagens e sons de “Olhos Azuis”, Joffily percebeu que pretendia fazer um filme de contrastes. Na verdade, há duas histórias no filme, a primeira é o embate entre o brasileiro e o americano na imigração, e a outra mostra esse mesmo oficial no Brasil, em busca da filha do outro personagem. As duas narrativas são bem distintas visualmente e isso não foi por acaso. “Todas as cenas que se passam nos Estados Unidos são em espaços fechados, planos menos abertos, não há música, apenas ruídos. Já no Nordeste, temos imagens que aproveitam a beleza natural da região, muita música, além da iluminação natural bem forte”, explica. A fotografia assinada por Nonato Estrela (“Chico Xavier”) explora bem esses contrastes.

Joffily, que também tem experiência como documentarista, tendo assinado “Vocação do Poder” (2005, codirigido por Eduardo Escorel) e “O Chamado de Deus” (2001), acredita que a linha tênue entre o documentarista e o diretor de ficção não existe quando ele faz um filme. “Acho os dois processos de trabalho muito parecidos. A construção dramática é a mesma”, conta.

O diretor ressalta que quando faz um filme sempre descobre algo de novo sobre a vida e o ser humano – especialmente em seus documentários que abordam pessoas com vocação para a religião e para a política. Seguindo o tema, Joffily quer documentar agora as pessoas com o dom para as artes. Mas ele não quer trabalhar com artistas famosos. “Penso em fazer com músicos de alguma orquestra, ou algo assim”, adianta. “O tema da vocação é algo que me interessa. Nem parei para pensar porque, mas me atrai muito”.

Antes disso, porém, Joffily dirigirá outra ficção, junto com o ator Roberto Bomtempo, uma adaptação da peça “A Mão na luva”, de Oduvaldo Vianna Filho. Além de Bomtempo, o filme também trará Miriam Freeland, vista recentemente na novela “Poder Paralelo”.