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quinta-feira, 17 de junho de 2010

Zoom - Celso Sabadin: Olhos Azuis

O crítico Celso Sabadin comenta a estreia do filme "Olhos Azuis" do diretor José Joffily no Zoom.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Blog "Outra Coisa" tambem publica crítica de Olhos Azuis

Do Blog "Outra Coisa", por Rangel Andrade



Acredito que esse texto se tornará mais político que crítico. Perdoem-me, mas há uma parte em mim que precisa descrever as sensações éticas que o excelente roteiro do filme Olhos Azuis me causou. Portando não me julguem ao terminar de ler, julguem os roteiristas Paulo Halm e Melanie Dimantas, a culpa é única e exclusiva deles. Salvo a crítica que é minha!

Uma boa parcela da população sabe que a situação do estrangeiro se tornou mais catastrófica após o 11 de setembro, e entrar na América depois dos atentados virou uma missão (quase) impossível (a intenção não era lembrar o famoso filme do nosso amigo Tom Cruise). A intolerância americana cresce cada dia mais e trata os imigrantes como se todos fossem terroristas prontos a destruir a supremacia americana (o que graças a Deus vem se tornado realidade, mas não por culpa dos “invasores”, mas sim de um país hipócrita e cheio de falsas morais).

O novo filme de José Joffily (que dessa vez acertou em tudo!), toca justamente nessa ferida. Em seu último dia de emprego como o Chefe Departamento de Imigração do aeroporto JFK, em Nova Iorque, Marshall (David Rasche, em uma atuação primorosa), resolve brincar com sua autoridade ao ter que “escolher” quem vai ter o direito que entrar na América. Enfrentando problemas com o alcoolismo, ou simplesmente se divertindo ao tomar um porre, ele começa a beber durante o expediente e passa a cometer uma série de arbitrariedades contra um grupo de latino-americanos, expondo-os a situações vexatórias para autorizar sua entrada nos Estados Unidos. Dentre os mais variados candidatos à admissão que vão de um casal de argentinos carregando cocaína a uma bela dançarina cubana, passando por um grupo guatemalteco de lutadores de tae kwon do, encontra-se o brasileiro Nonato (Irandhir Santos), que tenta retornar aos Estados Unidos após ter visitado a filha no Brasil.

Marshall utiliza de toda sua autoridade para tentar provar a culpa do brasileiro, vai de um interrogatório arrogante a uma ameaça com arma. É do duelo desses personagens que temos as bem elaboradas questões políticas lançadas no filme. Após ser questionado porque um estrangeiro sai de um país de terceiro mundo para infestar os EUA o brasileiro diz que ´só existem pobrezas no terceiro mundo porque potências, como os EUA, por muitos anos apoiaram ditaduras cruéis e abusivas em prol do seu crescimento´. Esse trecho dispensa comentários, a citação já diz por si só.

A narrativa do filme é não linear, de um lado temos o protagonista na Imigração americana, depois preso e por fim ele anos depois, no Nordeste do Brasil em busca de uma criança que, se encontrada, representará sua redenção. Nessa segunda situação, o protagonista desamparado, decadente e já aposentado encontra Bia (Cristina Lago, em uma atuação surpreendente), uma jovem aparentemente sem rumo que passa a ajudá-lo na procura pela garota.

Em sua caminhada acabamos adentrando um pouco mais na vida do nordeste brasileiro: entram os sons do forró, a seca, as mortes prematuras e a sofrida Bia, uma jovem que foge para Recife atrás de uma vida melhor e acaba se prostituindo. Bia é uma das grandes transformações durante a película, passa de uma menina ambiciosa a uma mulher destemida que ajuda a todo custo o americano a encontrar a pequena Luíza. Durante essa caminhada ela acaba se deparando com o avô, uma desavença do passado que vai mexer com seus sentimentos e mudar sua trajetória levando-a á um final mais humano e compassivo com os sentimentos do “gringo”.

Os opostos permeiam toda a trama: enquanto as cenas nos Estados Unidos são em cores escuras e frias e mostram um policial como o rei do pedaço (outro filme, meus Deus haja inspiração hoje!) as cenas no Brasil são feitas em cores quentes, com uma câmera trêmula e trilha sonora mais agitada. A busca de Marshall por um sucessor também trás esse duo: entre os dois assistentes temos Sandra (Erica Gimpel) uma policial abusiva, fria e quase tão arrogante quanto o chefe, enquanto Bob (Frank Grillo) é mais correto e menos racional, chegando a se condoer pelo caso da dançarina cubana Calipso (Branca Messina).

Joffily disse que queria em seu filme atores dos países de origens dos personagens. Como o protagonista é americano, David Rasche foi escolhido primeiro através de uma seleção feita por dvd´s, ele e mais nove atores passaram por testes com o diretor e para a sorte do público (e do próprio ator, que está em seu melhor papel) Rasche acabou ficando com o papel. E acaba por dar vida a dois Marshall durante o filme: um homem audaz e frio e outro sofrido e melancólico atrás de sua redenção. O segundo com certeza é a parte mais marcante do ator: denso e caótico ele se transforma e chega causar dor e tirar algumas lágrimas com um personagem perdido em uma terra distante.

Quanto à língua estrangeira o diretor afirma: “A Branca Messina (Calipso) morou muito tempo na Espanha, mas eu queria que ela tivesse um sotaque cubano. Coloquei um cubano ao lado dela, uns cinco meses, para fazer isso. O Irandhir pegou rápido. A Cristina Lago também não tinha muita desenvoltura no inglês. É difícil definir o quão bem um personagem deve falar inglês, como ele deveria piorar ou melhorar seu inglês. Ao mesmo tempo se entender com o elenco, no set de filmagens, e fazer improvisos. A gente fez esta opção, mas é difícil encontrar o tom”.

Olhos Azuis foi o grande vencedor no II Festival Paulínia de Cinema em 2009 arrebatando os prêmios de Melhor Filme ficção, Melhor Roteiro, Melhor Ator Coadjuvante (Irandhir Santos), Melhor Atriz (Cristina Lago), Melhor Som e Melhor Montagem.

É um bom filme. Uma boa história e um elenco afiadíssimo. Talvez o final desse texto seja menos político que o esperado, mas escrever tem dessas coisas: às vezes queremos desenvolver um assunto e acabamos nos desviando, mas o grande exemplo de civilidade e amor á pátria se deve sim aos diálogos marcantes e as ironias que permeiam todo o longa. É para pensar e questionar. Somos fruto de uma supremacia ideológica (e preconceituosa) americana que nos taxam como lixos e ainda assim queremos a todo custo Fazer a América!

Político ou não! Pensador ou não! É um filme corajoso e destemido. Merecedor de bons elogios e muitos espectadores, mas o que esperar de um país que lançou somente dezessete cópias (isso mesmo, 17) de uma história que nada mais é que uma declaração de amor aos valores dos brasileiros e de um Brasil tão esquecido.

Lançamento do livro do roteiro de Olhos Azuis neste dia 09, a partir das 19h no Artepelx

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Crítica do filme por Fred Burle

Reproduzimos abaixo crítica do filme originalmente postada no Blog Fred Burle no Cinema:

José Joffily já tinha feito um ótimo filme passado no Brasil e no exterior, Dois Perdidos Numa Noite Suja. Mas aquela era uma história mais simples, o orçamento era menor e a ambição também.

Com Olhos Azuis, o diretor nitidamente almeja mais, do público e da crítica e ainda ousa ao jogar lama no ventilador e fazer uma crítica ferrenha à hipocrisia e à xenofobia, que ficou ainda mais ressaltada nos EUA pós 11 de setembro.

Marshall é o chefe do departamento de imigração do aeroporto JFK e está no seu último dia de trabalho. Ele e sua equipe são responsáveis por entrevistar os imigrantes e liberar ou não suas entradas no país. Dentre os entrevistados daquele último dia de Marshall estão um brasileiro, uma cubana, um grupo de hondurenhos que se dizem lutadores de tae-kwon-do e um casal de poetas argentinos. Alguns deles falam a verdade e outros não.

Paralelamente às entrevistas, outra trama se desenrola: dois anos depois, Marshall viaja ao Brasil em busca de uma menina. Ele contará com a ajuda de Bia, uma pernambucana espevitada e inteligente, para procurar a menina pelo estado de Pernambuco.

Não é todo dia que se pode filmar um roteiro tão bom quanto este e Joffily fez um ótimo proveito do material que tinha em mãos. A história prende a atenção e deixa o público gradativamente tenso e curioso para saber como os acontecimentos serão ligados e em que dará aquilo tudo.

Mas isso só foi possível graças à direção precisa, à montagem difícil e bem realizada e ao elenco semidesconhecido, mas muito competente, especialmente David Rasche e a jovem Cristina Lago, excelente e encantadora no papel de Bia.

Num determinado momento, o chefe do departamento e o brasileiro discutirão e cada qual exporá seus pensamentos com relação ao assunto pautado, ambos com argumentos plausíveis e posturas diferentes. É ali o momento crucial para o filme ganhar o público ou perdê-lo. A mim, ele ganhou.

Se há algum pecado no filme, para mim, este reside na fotografia, estourada demais em determinados momentos, cujo branco chega a incomodar, aparentemente sem propósito.

Eu sempre reclamo quando um diretor nacional resolve fazer filme no estilo norteamericano, por que quase sempre fica-se somente na intenção. Com Olhos Azuis, José Joffily conseguiu extrair o que há de melhor no cinemão gringo e unir ao que há de melhor no cinema brasileiro.

Não deve em nada nem para os grandes filmes policiais hollywoodianos nem aos ótimos dramas brasileiros passados no nordeste. Infelizmente, pela “xenofobia cinéfila”, pelo protecionismo existente nos EUA e por tocar na ferida sem dó, dificilmente conseguirá exibição onde ele provavelmente seria melhor apreciado: lá, na casa do tio Sam.

 
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O blog também sugere o trailer.
OLHOS AZUIS EMCARTAZ NUM CINEMA MAIS OU MENOS PRÓXIMO DE VOCÊ. NÃO PERCA!

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Olhos Azuis no "Pulei pela Janela, Beijos!"

Do blog "Pulei pela Janela, Beijos", por Taís Bravo.

A primeira coisa que deve ser dita sobre Olhos Azuis: é um filme destemido. Há uma Verdade que perpassa suas histórias e se apresenta ao longo de todo o filme sem nenhum vestígio de hesitação, forte e pungente.



A trama se desenvolve através de dois principais fragmentos, um se passa no departamento de imigração americana, outro no Nordeste brasileiro. À medida que a relação entre estes fragmentos torna-se mais clara, maior é a aflição que nos atinge, não queremos enxergar o final que se aproxima. No entanto, é inevitável, o clímax se instala, os fragmentos se encontram, porém o ritmo tenso que os conduz, não se satisfaz, persevera, somos abandonados em meio a ele. O filme acaba e não tem fim.


O grande mérito de Olhos Azuis é este, sua relevância que ultrapassa a sala de cinema. Pode-se falar sobre muitos aspectos incríveis do filme, as atuações brilhantes, o roteiro impecável, fotografia…É um trabalho primoroso. Mas o que realmente engrandece todas estas ações é a relevância desse cinema destemido.

A Verdade que para muitos parece ousadia expor, Olhos Azuis escancara com a honestidade de quem não suporta mais rebaixar-se a reivindicações comedidas.


Ter coragem não deveria ser um motivo de honra, mas em tempos de relativismo e cinismo, é muito mais do que isso.


Entrando em pormenores, Olhos Azuis é um filme com um viés político explícito, no qual os paradoxos do um mundo neo-liberal – em que as relações de poder se dão de forma extremamente injustas, impossibilitando, então, a existência de uma liberdade propriamente dita – são apresentados com suas reais amarguras.


O embate entre olhos negros e olhos azuis é resultado da história de homens condicionados à História. Não há condições naturais ou determinismos, tudo é construção histórica. Marshall (David Rasche), o olhos azuis, carrega em si a paranóia, o individualismo, a arrogância e um patriotismo tipicamente americanos, porém, o ser americano não se trata de uma condição natural, impassível de mudança, é uma condição histórica, logo, em contínuo processo. Bia (Cristina Lago), é outra personagem que representa uma condição típica, é a puta brasileira, mais do que brasileira, nordestina, marcada pelas intransigentes raízes do Sertão. Confesso que tal personagem era a mais problemática para mim, temia que tal estereótipo fosse apresentado superficialmente, porém Bia cresce belamente ao longo da trama, as cenas de sua volta ao Sertão apertam a garganta e dilaceram as feridas ainda não curadas.


O clímax de Olhos Azuis pode ser representado por uma imagem, a veia dilatada de Nonato (Irandhir Santos)*. A revolta deste personagem é perturbadora, porque é um grito de realidade em meio a um jogo de consentimentos, no qual, os subordinados aceitam as regras em nome de uma liberdade que nunca deveria ser requisitada. Neonato é um corpo que sofre. Ele treme, chora, sua veia dilata, a injustiça que sente vai além, ela está impregnada em suas raízes, no seu povo, na História. Ele vai até as últimas instâncias, no filme é herói, na vida real seria, provavelmente, um imprudente. Ser destemido em tempos de liberdades relativas é imprudência, falta de limite.


Porém, como já foi dito, Olhos Azuis vai além das terríveis conjunturas de nosso tempo. A tensão que pulsa através da trama é História e as injustiças atreladas a essa construção que definham as liberdades individuais. A História da ascensão capitalista da supremacia americana é a História da vida humana impedida, diminuída, controlada.


Voltamos, então, a relevância de Olhos Azuis. O que o torna importante é seu compromisso com os homens, com suas histórias individuais condicionadas e fadadas, em geral injustamente, pela História. Não há consolo após essas imagens. Há orgulho, de um filme nacional executado perfeitamente com um tema de extrema importância global, e a esperança de que pelo menos a arte seja capaz de expor o que a realidade de simulacros nos persuade a ignorar.


Olhos Azuis é o cinema como instrumento de choque, de imersão em outras experiências, para a construção de consciência de nossa própria história.
 
* Sobre a veia de Nonato e Olhos Azuis, o excelente texto de Rafael Zacca. 
No G1, entrevista com David Rasche, protagonista de "Olhos Azuis"

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sábado, 29 de maio de 2010

Crítica: Olhos Azuis por Celso Sabadin


Suspense não é exatamente um gênero cinematográfico tradional no cinema brasileiro. E por aqui, quando se fala em Polícia, logo o tema é associado a favelas ou cárceres. Assim, é mais do que bem-vinda a estreia do premiado “Olhos Azuis”, produção brasileira que mescla elementos de suspense, drama e policial sem cair na facilidade dos desgastados clichês que permeiam estes três gêneros.

O bom roteiro assinado por Melanie Dimantas e Paulo Halm enfoca o protagonista Marshall (vivido pelo norte-americano David Rasche) em três tempos bem diferentes na sua vida: (1) em seu último dia como policial de imigração de um aeroporto dos EUA, antes de se aposentar; (2) preso numa penitenciária e (3) embriagado vagando pelas praias brasileiras. Os primeiros minutos do filme não sinalizam em qual ordem cronológica poderiam ter acontecido estes três momentos. A narrativa é entrecortada, embaralha os tempos, atraindo desta forma rapidamente a atenção e a curiosidade da plateia, que é convidada a montar o seu quebra-cabeças dramatúrgico.

Aos poucos, novos personagens vão se agregando, e rapidamente a situação ambientada na terrível sala de imigração do aeroporto - um verdadeiro purgatório onde se decide quem vai para o Céu ou para o Inferno - vai ganhando mais força e se agigantando dentro do filme. Num ambiente claustrofóbico semelhante ao obtido por Giuseppe Tornatore em “Uma Simples Formalidade” (1994), o diretor José Joffily (o mesmo de “Quem Matou Pixote” e “Dois Perdidos numa Noite Suja”) cria com muita eficiência um clima de forte tensão, onde gradativamente se destilam os mais arraigados sentimentos de ódio, culpa e preconceito.

Apenas uma frágil divisória de vidro, com persianas mais frágeis ainda, separa a força policial norte-americana dos “cucarachas” ansiosos por entrar na tão decantada América. É um tênue “muro de Berlim” de vidro e compensado que simboliza um imenso fosso cultural e social. Ao lado de Rasche, os atores Frank Grillo (no papel de Bob), Erika Gimpel (Sandra) e principalmente Irandhir Santos (Nonato) brilham como coadjuvantes de primeira linha.

No outro tempo fílmico, Marshall aparece despido de sua carapuça policialesca, decadente e carcomido pelos caminhos do “inferno” para onde desceu: as belas praias do nordeste brasileiro, através das quais é ciceroneado por Bia (Cristina Lago), o sempre enigmático personagem da prostituta de bom coração.

Desencontradas no tempo e no espaço, as linhas narrativas se encaminham com competência para a solução final que - se não é exatamente surpreendente - tem o mérito de carregar consigo uma vigorosa discussão sobre as diferenças históricas e aparentemente irreconciliáveis que separam as civilizações dominantes das dominadas.

Um belo trabalho de Joffily, forte e corajoso, que foi o grande vencedor do II Festival Paulínia de Cinema com seis prêmios, incluindo o principal, de Melhor Filme.

LEIO O POST ORIGINAL NO CINECLICK

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Do blog: O Cine Dude


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O Estado de São Paulo, Caderno 2, 28 de Maio

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Folha de São Paulo, sessão Ilustrada, 28 de Maio

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O Dia, Show e Lazer, 28 de Maio

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Jornal do Brasil, Revista Programa, 28 de Maio

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Diário de São Paulo, 28 de Maio
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Uma pequena entrevista com José Joffily

Do blog: Aventuras de uma Gringa, por Rachel Glickhouse.

Como vocês já devem saber, o filme Olhos Azuis estreia hoje no Brasil. A longa trata da imigração, das relações entre a América Latina e os EUA, e dos relacionamentos. O ator americano David Rasche faz o papel do oficial cruel no aeroporto JFK, e os atores brasileiros Irandhir Santos e Cristina Lagos são o protagonista e a heroina, respectivamente. O filme é muito interessante e vale a pena ver. Para vocês que moram aqui nos EUA, tenho boas notícias: acabei de saber que o filme vai estreiar em Nova York no Festival Inffinito de Cinema em junho.

Esta semana, fiz uma pequena entrevista com o diretor, José Joffily, sobre sua experiência com o filme e para tirar umas dúvidas minhas. Se vocês tiveram mais perguntas para ele depois de ver o filme, deixem um comentário e posso ver se ele ou a assessora dele pode responder.

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Entrevista com José Joffily

Ao final, que aconteceu com seu amigo (que morava nos EUA)? Ele ajudou com o filme?
Ele está vivo e feliz. Depois de deportado, conseguiu voltar. Adora viver na América. Ele não viu.

Qual é a sua cena preferida no filme, e por que?
Gosto muito do relato do Marshall quando a ficha cai e subitamente entende o boliviano de quem tinha desconfiado. Talvez porque seja um cena que tenha caído por questões de produção, mas gostavamos tanto dela que, como não podiamos filmar, contamos...Gosto também da dança que vem em seguida, pelo que ela promete que possa mudar na dupla.

O que você aprendeu durante sua experiência fazendo o filme?
Mais uma vez entendi que é apenas um filme.

Você pensa em fazer mais filmes "internacionais" com um elenco e um tema sobre pessoas de vários países?
Não estou me programando para este modelo. Todo filme é um protótipo, o cinema se reinventa a cada filme.

Você já teve uma experiência constrangedora com em um aeroporto nos EUA ou na Europa?
Estou meio velho, os senhores oficiais não são instruídos a desconfiarem dos anciões.




Jornal do Brasil, Caderno B, 28 de maio de 2010.


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O Globo, Rio Show, 28 de maio de 2010.
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Portal PLUS TV, maio 2010.

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Sobre trauma e humilhação

Laboratório Pop, por Daniel Passi, maio 2010.



Olhos azuis conta a história de Marshall (David Rasche), chefe do departamento de imigração americano, que no último dia antes da aposentadoria resolve se divertir à sua maneira, detendo um grupo de latino-americanos e expondo-os a situações humilhantes. Alcoólatra, com seus atos Marshall faz a noite tomar um rumo inesperado. Anos depois, usando como referência um vídeo dentro de uma câmera portátil, ele sai à procura de uma pequena menina por Pernambuco, contando com a ajuda da prostituta Bia. Este é um filme sobre palavras. Aqui elas agem como bombas e parecem ter o mesmo peso dos galopantes tambores de maracatu que abrem os letreiros iniciais.

Como uma grande lavação de roupa suja sem restrições morais, Olhos azuis nos mostra o ódio e o rancor ocultos de uma nação traumatizada pós 11 de setembro, representada pela figura de Marshall. Dirigido por José Joffily (Dois perdidos numa noite suja), ganhador do Festival de Paulínia de Cinema 2009, trata-se também de um filme sobre contrastes. Dicotomizam rico e pobre; claro e escuro; espaços claustrofóbicos e abertos. Não há hesitação em jogar o espectador de um lado para o outro, criando com essa agilidade uma intensa carga dramática.

Duas histórias acontecem paralelamente. Uma, em flashback, se passa inteiramente dentro do sufocante espaço do departamento de imigração de um grande aeroporto americano. Com uma iluminação fria e sons de vertigem ao fundo, a realidade é exposta de maneira crua. Para tal, Joffily lança mão de um tom documental, alcançando, porém, um nível de veracidade maior do que qualquer documentário conseguiria atingir. Talvez este seja o aspecto mais perturbador da obra — isto pode estar acontecendo neste momento, em qualquer aeroporto americano, e não há nada que possamos fazer.

Todos os personagens presos neste limbo são uma síntese, uma unidade representando um drama coletivo. Embora postos no mesmo saco latino pelos oficiais, fica clara cada particularidade. Temos o mestiço brasileiro que, saído de uma pequena cidade do interior, tenta a vida em outro país (impossível não vir à cabeça a imagem de Jean Charles); a dançarina cubana morena que mesmo conseguindo um visto cultural ainda assim é importunada por conta de Fidel; a equipe esportiva com traços andinos.

O casal de poetas argentinos é a inteligente escolha que o filme faz de não vitimizar ninguém: embora estejam saindo de Buenos Aires por não conseguirem grande aceitação de seus trabalhos, financiam sua ida traficando cocaína para os "viciados americanos", escondendo a carga dentro de seus livros (detalhe para o hilário título: Poesias y algo más).

Na situação de fragilidade em que todos se encontram, os viajantes são submetidos por um Marshall cada vez mais alterado pela garrafa de Jack Daniels que consome desde o começo do expediente e sua equipe (uma negra e um descendente de mexicanos) a tormentos desnecessários. Em especial o brasileiro Nonato (interpretado com vigor por Irandhir Santos em cartaz com Quincas Berro D’água e como a voz do protagonista itinerante de Viajo porque preciso, volto porque te amo). Na escalada de acontecimentos que se seguem, o que vemos é a reação natural de qualquer ser humano exposto a abusos físicos e psicológicos, seja ele latino, americano ou árabe — a razão é deixada de lado, torna-se então uma bomba relógio ambulante.

Corta para os grandes espaços abertos de Petrolina. Da excessiva organização burocrática do aeroporto somos jogados para Recife durante o carnaval. Da iluminação fria e artificial, para a brutal luminosidade do sertão pernambucano. Agora com todo o lirismo de um road movie, vemos Marshall, doente e alcoólatra, buscar anos depois sua redenção, como em todo filme do gênero que se preze. Para isto conta com a ajuda de Beatriz (Cristina Lago), perfeitamente a imagem estadunidense de um país latino-americano — uma prostituta com um vocabulário importado do lixo cultural estrangeiro, abundância de shits e fucks. No emocionante desfecho da história, mais uma vez a força das palavras é celebrada, mesmo que aqui sejam as que não são ditas.

Embora todos os atores estejam no tom, é David Rasche quem mostra sem dúvida uma das melhores atuações de sua carreira. Pouco conhecido do público brasileiro, foi definitivamente uma escolha acertada. Destaque também para Frank Grillo que interpreta Bob, o outro oficial de imigração. Grillo e Rashe, ao pesquisarem para o papel em aeroportos americanos, alcançaram um realismo embasbacante.

Simbólico, Olhos azuis é um dedo na ferida ainda bastante aberta do preconceito que o fará ficar sentado na poltrona depois que aparecerem os letreiros finais. Um dos poucos filmes atuais que faz o que uma boa obra de arte tem de melhor. Isto é, ser um fomentador de discussões. Olhos azuis é um filme obrigatório.

Olhos Azuis: sendo mais humano

Cinetotal, por Rod Carvalho, maio.
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OLHOS AZUIS 28 DE MAIO NOS CINEMAS!

Almanaque Virtual.

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