Mostrando postagens com marcador Resenhas sobre o filme. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Resenhas sobre o filme. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Lançamento do livro sobre o filme é destaque no Blog

Do Blog Cinideia, por Cris Corso

       Na última quarta-feira, 09/06, aconteceu em Botafogo - RJ, na Livraria Blooks, no espaço Unibanco Artplex, o lançamento do livro homônimo do filme Olhos Azuis, de direção de José Joffily, roteiro assinado por Paulo Halm, Jorge Durán e Melanie Dimantas.
       Depois do convite, que perdi, infelizmente por motivos técnicos, da pré-estreia só para bloggeiros do filme 'Olhos Azuis', recebi o convite, de ir ao lançamento do livro, com um grande prazer compareci na livraria, e pude parabenizar pessoalmente seus realizadores.
O filme, ainda não o vi, porém, já marquei para semana que vem. Meus dois convites enviados pela Coevos filmes, chegaram ontem, 11/06, mas já dei uma lida em alguns releases e críticas que falam sobre a obra. Muitos podem ser lidos no site do filme em http://www.olhosazuisfilme.com.br/ .
       O livro, segundo o José Joffily, é uma obra mais voltada para estudantes e amantes do cinema, ele vem com os dois roteiros do filme que entrou em circuito em 28 de maio de 2010.
Olhos Azuis começou a ser escrito anos atrás, em 1999, e foi realizado em 2007. Em 2009 participou do II Festival de Cinema de Paulínia - SP, no qual foi premiado em 6 categorias incluindo o de melhor filme com  o Troféu Menina de Ouro, fazendo seus realizadores receberem o convite da editora Imprensa oficial, do estado de São Paulo, para produzirem o livro, que já pode ser comprado nas melhores livrarias.



Olhos Azuis:
       Marshall (David Rasche) é o chefe do Departamento de Imigração do aeroporto JFK, em Nova York. Comemorando seu último dia de trabalho, Marshall resolve se divertir complicando a entrada no país de vários latino-americanos. Entre eles está Nonato (Irandhir Santos), um brasileiro radicado nos EUA, dois poetas argentinos, uma bailarina cubana e um grupo de lutadores hondurenhos. Dois anos depois, Marshall vem ao Brasil procurar uma menina de nome Luiza. Quando ele conhece Bia (Cristina Lago), uma jornada em busca de redenção se inicia.

       Confiram o trailer do filme, e vão voando conferir no cinema. Segundo pessoas, presentes na Blooks, o filme é sensacional, e só pelos releases que estive lendo realmente parece ser ótimo, bem assim que eu assistir a obra virei aqui postar para lerem.
 


Olhos Azuis é destaque no Blog Brazlopes

Do Blog Brazlopes, por Regina Lopes.

       Não deve ter sido tarefa fácil para o júri do Festival de Paulínia de 2009 escolher entre o fofo “Antes que o Mundo Acabe” e o criativo drama “Olhos Azuis”. O primeiro, ainda inédito nas salas paulistanas, faturou cinco prêmios, incluindo o de direção para Ana Luisa Azevedo. O segundo, que entra em cartaz em oito salas, foi laureado nas categorias melhor filme, roteiro, atriz (Cristina Lago), ator coadjuvante (Irandhir Santos), montagem e som. Paraibano radicado no Rio de Janeiro, José Joffily, de 64 anos, faz de “Olhos Azuis” o melhor e mais redondo longa-metragem desde sua estreia na direção, em 1985. 
       A história é dividida em dois tempos e locais distintos. No passado, Marshall (o ator americano David Rasche) cumpre seu último dia na função de fiscal da polícia de imigração num aeroporto dos Estados Unidos. Prestes a se aposentar, ele decide tornar torturante o processo de entrada de alguns passageiros naquele país. Na fila para uma entrevista, há um modesto empresário nordestino (papel de Irandhir Santos), um casal de poetas argentinos, uma dançarina cubana e um grupo de lutadores hondurenhos. A narrativa no presente começa ambientada no Recife, onde Marshall pede a ajuda de uma garota de programa (Cristina Lago) para descobrir o paradeiro de uma menina. 
       Sabe-se de antemão que as duas tramas, ambas nervosas, vão convergir para um desfecho dramático. Joffily diz ter se inspirado na experiência pessoal de um amigo, encrencado na alfândega de Nova York e deportado de lá, para dar forma ao argumento. Embora o diretor carregue propositadamente nas tintas e a trama se revele artificial em alguns momentos, a discussão sobre intolerância racial e outros preconceitos se mostra oportuna. Até mesmo a redenção do protagonista em solo brasileiro, algo capaz de soar déjà vu, ganha contornos convincentes pelas atuações de Rasche e Cristina. Estreou em 28/05/2010.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Olhos Azuis choca platéia nos EUA !!!




       Olhos Azuis é o filme mais polêmico da oitava edição do “Cine Fest Petrobras Brasil – NY”, que acontece na cidade americana. O longa, que já está em cartaz no Brasil há duas semanas, conta a história de Marshall (vivido pelo ator americano David Rasche), que é o chefe do Departamento de Imigração do aeroporto JFK, nos Estados Unidos. Ele está prestes a se aposentar e resolve se divertir com um grupo de imigrantes, complicando sua entrada no país apenas por diversão.
       As humilhações morais, e até físicas, pelas quais os imigrantes passam, ao longo da história, tocam em cheio o público do festival – composto, em sua maioria, por brasileiros e outros latinos em geral. A cada desaforo de algum dos personagens, o público reage com comentários de indignação. Exibido na noite de quarta-feira (9), este é, até o momento, o longa que mais despertou a ira dos presentes e tem levantado discussões além das sessões nas salas de cinema.
       As amigas cariocas Joy Ernanny e Cinthia Azevedo, que moram nos Estados Unidos há dois anos e meio, saíram da sessão travando um bate-papo caloroso. “Gostei muito do filme. Eu mesma passo problemas na imigração americana sempre que retorno para cá. Uma vez eles erraram meu nome com o da minha irmã no sistema, e o problema persiste para sempre. Sou chamada diversas vezes para a salinha”, conta Joy, jornalista, em referência à sala de controle de imigração para onde são encaminhados os “suspeitos” de quererem ficar em definitivo nos Estados Unidos.
       Cinthia conta que também sofre com a burocracia americana, em nome da segurança nacional. “Meus pais são diplomatas, e por isso tenho visto diferenciado. Mas o pessoal da imigração sempre me questiona por isso. Sei que minha realidade é diferente da que é retratada no filme, tem gente que sofre muito para entrar”, afirma a jovem, estudante.
       Já a americana Samantha Croussgry saiu da sala com os olhos marejados. “É um problema que precisa ser resolvido. Tem que haver fiscalização, mas não é com intolerância e preconceito. Isso não reflete o que é esse nosso país”, disse ela.
       Pela receptividade do público, Olhos Azuis é um dos filmes mais requisitados para vencer no voto popular o prêmio dessa oitava edição do “Cine Fest Petrobras Brasil – NY”, que se encerra  sábado.


quinta-feira, 10 de junho de 2010

Olhos Azuis recebe boa crítica no site Pipoca Combo

Do site Pipoca Combo, por Virgilio Souza

       Qualquer brasileiro que já tenha visitado os Estados Unidos sabe como é sentir um frio na barriga antes de ser entrevistado pelos responsáveis pelo processo de admissão de estrangeiros. Em Olhos Azuis, que narra a história do policial Marshall (David Rasche, na melhor atuação de sua carreira), essa burocrática rotina é alterada quando a xenofobia e o ideal ilusório de proteção contra a “ameaça externa” falam mais alto que as normas de procedimento.
       Num primeiro momento, Marshall se vê prestes a se aposentar no Departamento de Imigração do aeroporto JFK, em Nova Iorque, e precisa indicar um sucessor entre seus dois assistentes, a abusiva e intempestiva Sandra (Erica Gimpel) e o correto Bob (Frank Grillo). Enfrentando problemas com o alcoolismo – ele começa a beber em sua festa de despedida, durante o expediente –, passa a cometer uma série de arbitrariedades contra um grupo de latino-americanos, expondo-os a situações vexatórias para, em tese, comprovar a veracidade de suas respostas e seu “direito a visitar a América”. Dentre os mais variados postulantes à admissão – que vão de um casal de argentinos carregando cocaína a uma bela dançarina cubana, passando por um grupo guatemalteco de lutadores de tae kwon do – encontra-se o brasileiro Nonato (um intenso Irandhir Santos), que tenta retornar aos Estados Unidos após ter visitado a filha no Brasil.

       Grande vencedor do Festival de Paulínia do ano passado, o brasileiro Olhos Azuis passou anos arquivado esperando financiamento e chega na próxima sexta-feira, 28, aos cinemas. É um retrato belo e corajoso da imigração latino-americana nos Estados Unidos e merece ser visto.

       Na sala do aeroporto em que os estrangeiros são entrevistados um a um, a tensão cresce gradativamente, na medida em que Marshall fica cada vez mais bêbado e intolerante. Paralelamente, a produção mostra, em recortes e sem anunciar uma ordem cronológica definida, dois outros momentos da vida do policial: o primeiro, em que ele está preso numa penitenciária; o segundo, anos depois, em que ele está no Nordeste do Brasil em busca de uma criança que, se encontrada, representará sua redenção. Nessa segunda situação, o protagonista – desamparado, decadente e já aposentado – encontra Bia (Cristina Lago), uma jovem aparentemente sem rumo que passa a ajudá-lo na procura pela garota.
       É nessa distinção entre a degradação e a redenção de Marshall que os méritos do roteiro de Paulo Halm e Melanie Dimantas e da direção de José Joffily mais aparecem. Nas cenas acontecidas no aeroporto, as cores – em tons quase únicos de azul e cinza – são frias e a câmera mostra o policial numa espécie de pedestal – enquanto as conversas entre os latino-americanos são filmadas de perto, as entrevistas são mostradas em quadros mais distantes. Nos momentos em que Marshall está no Brasil, por sua vez, sua busca incessante e afobada faz com que a câmera fique cada vez mais trêmula; as cores, mais quentes; e a trilha sonora, mais agitada, passando até mesmo por ritmos como o forró.
       A própria angústia, presente nas duas situações, é representada em planos distintos e faz com que o espectador se porte de diferentes maneiras de acordo com o período retratado na tela. Se em certas ocasiões a indignação é causada pelo extremo preconceito de Marshall contra aqueles que ele chama de “cucarachas”, em especial Nonato; em outras é fruto da compaixão para com ele, agora mais humanizado (mas, vale lembrar, bem longe de ser um herói), e da simpatia de Bia, que ganha seu espaço e cumpre importante papel na trama.
       Por fim, a construção do suspense em Olhos Azuis impressiona, e as duas tramas convencem justamente por convergirem em um final que é até esperado, mas não óbvio, e que foge tanto de clichês e extremismos desnecessários quanto de discursos excessivamente didáticos ou panfletários, ainda que apresente uma importante discussão acerca das diferenças culturais, sociais, políticas e históricas entre os Estados Unidos e as nações latino-americanas. Não é só um ótimo filme sobre a queda de um homem de sua posição de falsa superioridade, mas também uma aula correta e coerente sobre uma questão extremamente controversa. É o cinema brasileiro se mostrando acessível ao público sem cair em antigos estigmas e estereótipos.

Olhos Azuis é destaque na Folha de Pernambuco

Do site Folha de Pernambuco, por Luiz Joaquim

Olhos azuis VS olhos negros

       Algo inédito acontece hoje. Pela primeira vez, um ator pernambucano, Irandhir Santos, está em cartaz nos cinemas em três filmes. “Olhos Azuis” (Brasil, 2009), de José Joffily, “Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo”, de Marcelo Gomes e Karin Aïnouz - ambos filmes estreando - e “Quincas Berro D’Água”, de Sérgio Machado. De forma curiosa, os dois primeiros podem ser vistos como um complemento, isso porque o Irandhir de “Olhos Azuis” é um professor que saiu de Petrolina e foi ao Recife cursar História na Universidade Federal de Pernambuco.
       Há um movimento inverso - da metrópole para o sertão - ao de “Viajo...” em “Olhos Azuis” que é  feito pelo policial da fronteira norte-americana Marshall (David Rasche). Ele segue em função de Nonato (personagem de Irandhir) que voltava aos Estados Unidos, onde reside, após visitar a filha pequena no Recife.
       Funcionando em dois tempos distintos, o filme de Joffily - que já visitou o universo do imigrante nos EUA em “2 Perdidos numa Noite Suja” (2002) - mostra a tensão de quatro grupos de viajantes (um casal argentino, uma bailarina cubana, atletas colombianos, e o brasileiro Nonato dono de um restaurante) sendo interrogados no departamento de imigração do aeroporto americano JFK (na verdade os estúdios de Paulínia).
       O outro tempo do filme é do trajeto de Marshall em busca de uma redenção pelo sertão nordestino ao lado da prostituta Bia (Cristina Lago).
       Apesar da estrutura formal de “Olhos Azuis” não agradar a alguns já cansados do exercício de enredo múltiplo temático, exposto principalmente pelos filmes de Alejandro G. Iñárritu (“Amores Brutos”, “Babel”), o longa de Joffily funciona pela fluidez em seus dois tempos - com dinamicidade melhor aproveitada no aeroporto, é verdade.
       O foco aqui é o preconceito, a ignorância, o abuso de poder e a redenção. “Olhos Azuis” é um bom exercício que caminha com desenvoltura por esses temas, e o roteiro dá espaço para seus atores mostrarem talento. Destaque para o próprio Irandhir - que aceitou o papel sem saber falar inglês - e para Cristina Lago.
       Se Irandhir chama a atenção pela mistura de contenção e explosão diante da humilhação que sofre com o policial norte-americano, Cristina destaca-se pela também duplicidade de sentidos que dá a sua prostituta. Se numa hora a vemos leve e livre numa Recife festiva, também a vemos melancólica, mas altiva, pela sua condição.
       Curiosidade: no curta-metragem “Azul”, de Eric Laurence, Irandhir de certa forma atua como o filho do personagem da atriz Zezita Matos. Em “Olhos Azuis”, ela também é a mãe de Irandhir.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Cinema em Cena fala sobre Olhos Azuis

Do site Cinema em Cena, por J.S
    
     Uma versão tupiniquim da torre de babel – ou quase. Em entrevista ao TeleCine, o diretor de Olhos Azuis, José Joffily (Dois perdidos numa noite suja) disse que os diversos idiomas falados durante o filme tornaram o trabalho mais complicado.
     No longa, David Rasch (Queime Depois de Ler) é um americano, chefe do departamento de imigração do aeroporto de NY e dono dos olhos-título. Ele comete um erro que transforma sua vida e o faz partir em busca da redenção em uma terra distante da sua, o Brasil.
     Joffily considerou um desafio dar ordem ao caos lingüístico, misturando instruções em diversas línguas para atores de todos os cantos do mundo.
Na maior parte do tempo os personagens conversam em línguas oficiais (inglês, português, espanhol), mas rolou também muito "portunhol" e linguagem visual.
     Quem sofreu mais, segundo o diretor paraibano, foi o protagonista Irandhir Santos, que teve que contracenar em inglês, mesmo sem falar o idioma.
     "Era muito difícil para o Irandir. Se você não fala, não tem o domínio do idioma... Você apenas decorou aquelas falas. Mesmo sabendo o sentido delas, é muito difícil", disse Joffily.

Olhos Azuis é destaque no Blog da Livraria Saraiva

Do site Saraiva Conteúdo, por Ramon Mello

       Quando um filme é bom saio mareado do cinema, ainda com certa vertigem provocada pelas ações de algum personagem. Ou, então, muito satisfeito por ter mergulhado na telona. De um modo ou de outro o espectador poderá se sentir ao assistir Olhos azuis (2009), novo longa do cineasta José Joffily.
       O ator americano David Rasche faz o papel de Marshall, chefe do Departamento de Imigração do aeroporto JFK, em Nova Iorque, que resolve comemorar seu último dia de trabalho complicando a entrada de imigrantes nos Estados Unidos, muitos deles latino-americanos.  O premiado ator pernambucano Irandhir Santos - também em cartaz em Quincas Berro D’Água e Viajo porque preciso, volto porque te amo- dá vida a Nonato, um brasileiro radicado nos EUA, que é humilhado num interrogatório sofrível.
      Para completar o time de imigrantes que aguardam a aprovação de um visto, estão dois poetas-traficantes argentinos (Valéria Lorca e Pablo Uranga), um grupo de lutadores hondurenhos e uma bailarina cubana - interpretada por Branca Messina. Mas é no duelo entre Irandhir e David que está a trama, os dois atores nos oferecem um trabalho de primeira, que faz jus aos prêmios recebidos mundo afora.
      Destaca-se também a atuação de Cristina Lago, como a nordestina Bia, e Eraldo Pontes, que numa única cena ganha o filme. E, ainda, a trilha sonora de Jaques Morelenbaum. Um thriller psicológico das diferenças – o roteiro é assinado por Paulo Halm e Melanie Dimantas - que prende o espectador às burocracias e às injustiças de um departamento de imigração e deságua num Brasil que foge dos estereótipos dos cartões-postais.
      Impossível não se sensibilizar com quem está do outro lado da persiana, à espera de um carimbo que pode mudar o rumo de sua história. Num mundo em que a questão da imigração é cada vez mais presente, ainda mais em se tratando da América do Norte ou da Europa, mesmo quem não passou por tal situação se lembrará de algum caso semelhante, seja um amigo ou o conhecido de um amigo. Em Olhos azuis o público é levado a refletir sobre a ignorância, e, quem sabe, entender que do mesmo modo como oprime, a ignorância também pode libertar.

      Confira a entrevista feita com o diretor José Joffily e o ator Irandhir Santos:

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Blog da jornalista Renata Pacheco fala sobre "Olhos Azuis"


Do Blog "Renata Pacheco", por Renata Pacheco
      Preconceituoso. Esta é a palavra-chave para o longa “Olhos Azuis” dirigido por José Joffily. O preconceito não está nos olhos do chefe da imigração do Aeroporto JFK e sim do próprio americano em querer ser o dono da verdade, dono da razão.


Bia e Marshall se encontram pela primeira vez em Recife (Crédito: 
Divulgação/Imagem Filmes/Fred Jordan)
  
     Fique atento ao começo do filme, pois mostra apenas trechos, que a princípio, podem parecer sem nexo, já que o desenrolar da história começa mesmo na sala da imigração, onde Marshall (David Rasche), chefe da imigração do Aeroporto JFK, comemora seu último dia de trabalho. Ele, além de alcóolatra, é o responsável por barrar estrangeiros que “sonham com o paraíso americano”. Mal sabe os viajantes, que entrarão em um inferno.

Bob tenta acalmar Marshall (Crédito: Divulgação/Imagem 
Filmes/Estevam Avellar)

        O longa só começa a ficar interessante quando ele vem ao Brasil dois anos após sua aposentadoria, precisamente em Recife, atrás de uma menina chamada Luiza. No entanto, acaba encontrando com Bia (Cristina Lago), uma prostituta, que por sinal fala muito bem inglês, e que acaba sendo seu anjo da guarda – já que o machão “descobre” que está com um tumor.

Marshall "descobre" que está com um tumor (Crédito: 
Divulgação/Imagem Filmes/Helder Tavares)

        Ora NY, ora Recife, ora Petrolina: é assim que a trama de “Olhos Azuis” se desenrola. A medida em que Marshall e seus subordinados se divertem complicando a entrada no país de vários latino-americanos, o filme fica mais tenso e o telespectador tem vontade de socar e falar “algumas verdades” para tal personagem.

Bia e seu avô no sertão brasileiro  (Crédito: Divulgação/Imagem 
Filmes/Helder Tavares)

    Dentre os imigrantes, há dois poetas argentinos, uma bailarina cubana, um grupo de lutadores hondurenhos e Nonato (Irandhir Santos), um brasileiro radicado nos EUA. Em clima de alta tensão, Marshall cria situações cada vez mais constrangedoras, até provocar um duelo entre ele e o brasileiro. A partir daí, já é possível descobrir quem é Luiza e porque Marshall foi atrás dela.

A bailarina cubana e o brasileiro Nonato (Crédito: 
Divulgação/Imagem Filmes/Estevam Avellar)

     O remorso de ter falado coisas tão horríveis para o brasileiro “olhos negros”, além de ter visto a morte de perto, fez com que o americano abondonasse seu país, atravessasse o Nordeste brasileiro, cruzasse o sertão até encontrar a bela região do rio São Francisco. Tudo isso para pedir perdão à família de Nonato e com a ajuda de Bia – que tem uma atuação brilhante ao encontrar seu avô no serão.
Marshall e Bia em Petrolina à procura de Luiza (Crédito: 
Divulgação/Imagem Filmes/Helder Tavares)

     Se antes de assistir o filme você gostava dos Estados Unidos, após vê-lo, terá um novo olhar sobre como a América Latina é vista pelos yankees. Com certeza comunistas e socialistas falarão: “eu bem que avisei para não pisarem lá!”. Além de preconceituoso, o filme mostra claramente a ignorância da sociedade americana.
      O thriller “Olhos Azuis”, grande vencedor do II Festival Paulínia de Cinema com seis prêmios, incluindo o de Melhor Filme, tem sua estreia nacional dia 28 de maio.

Blog "Doce Declínio" pública crítica sobre o filme


   Bem, Olhos Azuis é um filme que estreou sexta passada nos cinemas por aqui. Eu fui ver a esse filme na pré-estréia e pretendia escrever esse texto a uma semana atrás, mas esqueci! Sou mesmo um esquecido, de qualquer forma, antes tarde do que nunca, posto hoje, na quarta feira. Primeiro, para quem acha importante, vou colar aqui a sinopse que achei em um site qualquer (da veja de sp, eu acho). Se você for como eu pode pular o próximo parágrafo, mas se for normal, leia tudinho mesmo: 

                                   

    No passado, Marshall (o ator americano David Rasche) cumpre seu último dia na função de fiscal da polícia de imigração num aeroporto dos Estados Unidos. Prestes a se aposentar, ele decide tornar torturante o processo de entrada de alguns passageiros naquele país. Na fila para uma entrevista, há um modesto empresário nordestino (papel de Irandhir Santos), um casal de poetas argentinos, uma dançarina cubana e um grupo de lutadores hondurenhos. A narrativa no presente começa ambientada no Recife, onde Marshall pede a ajuda de uma garota de programa (Cristina Lago) para descobrir o paradeiro de uma menina. Sabe-se de antemão que as duas tramas, ambas nervosas, vão convergir para um desfecho dramático.”
     Pronto. Eu não gosto de saber das história, porque tento ao máximo impedir que eu descubra o final ou o meio do filme, sabe, detesto perder as surpresas. Graças a Coevos Filmes, tive a oportunidade de assistir ao longa de José Joffily antes da estréia – e digo logo, é um filme excelente.
    Tem uma tribo de pessoas que não assiste ou não gosta de filmes brasileiros pela precariedade de produção, mas vou dizer: Olhos Azuis parece até filme americano. O som é impecável (diferente de Lisbela e o Prisioneiro, por exemplo, que não se ouve porcaria nenhuma), a imagem é muito bem trabalho, a história é muito bem contada e o meu destaque para o filme: os atores são sensacionais – David Rasche e Irandhir Santos criam personagens difíceis de esquecer.
     O drama envolve muitas questões e faz você se perguntar várias coisas, do tipo, quem tem razão? Os dois lados são mostrados inúmeras vezes – o que abusa e o que é abusado. A história cria momentos tensos do inicio ao fim, de modo que as quase duas horas de filme passam rapidamente, de um jeito bom.
     Só havia visto um filme de José Joffily, um bem cru – 2 perdidos numa noite suja. Mas Olhos Azuis vai muito mais longe, tratando de um tema ligeiramente semelhante – o estrangeiro nos EUA. Não vá ao cinema esperando um filme pipoca, mas sim um longa capaz de criar reflexões sobre o mundo em que vivemos e até sobre sua própria vida, seu modo de se relacionar com as pessoas – seja no trabalho ou na família.
    Como já dito o filme é belíssimo e se me repito dizendo que os atores são fantásticos e o som excelente, é porque não quero revelar nada da trama, capaz de deixá-lo ligado até a cena final. Ganhou vários prêmios e por mim merece muitos mais. Veja. Mas veja não apenas com os olhos, veja com a cabeça também.
       É isso.

Blog "Outra Coisa" tambem publica crítica de Olhos Azuis

Do Blog "Outra Coisa", por Rangel Andrade



Acredito que esse texto se tornará mais político que crítico. Perdoem-me, mas há uma parte em mim que precisa descrever as sensações éticas que o excelente roteiro do filme Olhos Azuis me causou. Portando não me julguem ao terminar de ler, julguem os roteiristas Paulo Halm e Melanie Dimantas, a culpa é única e exclusiva deles. Salvo a crítica que é minha!

Uma boa parcela da população sabe que a situação do estrangeiro se tornou mais catastrófica após o 11 de setembro, e entrar na América depois dos atentados virou uma missão (quase) impossível (a intenção não era lembrar o famoso filme do nosso amigo Tom Cruise). A intolerância americana cresce cada dia mais e trata os imigrantes como se todos fossem terroristas prontos a destruir a supremacia americana (o que graças a Deus vem se tornado realidade, mas não por culpa dos “invasores”, mas sim de um país hipócrita e cheio de falsas morais).

O novo filme de José Joffily (que dessa vez acertou em tudo!), toca justamente nessa ferida. Em seu último dia de emprego como o Chefe Departamento de Imigração do aeroporto JFK, em Nova Iorque, Marshall (David Rasche, em uma atuação primorosa), resolve brincar com sua autoridade ao ter que “escolher” quem vai ter o direito que entrar na América. Enfrentando problemas com o alcoolismo, ou simplesmente se divertindo ao tomar um porre, ele começa a beber durante o expediente e passa a cometer uma série de arbitrariedades contra um grupo de latino-americanos, expondo-os a situações vexatórias para autorizar sua entrada nos Estados Unidos. Dentre os mais variados candidatos à admissão que vão de um casal de argentinos carregando cocaína a uma bela dançarina cubana, passando por um grupo guatemalteco de lutadores de tae kwon do, encontra-se o brasileiro Nonato (Irandhir Santos), que tenta retornar aos Estados Unidos após ter visitado a filha no Brasil.

Marshall utiliza de toda sua autoridade para tentar provar a culpa do brasileiro, vai de um interrogatório arrogante a uma ameaça com arma. É do duelo desses personagens que temos as bem elaboradas questões políticas lançadas no filme. Após ser questionado porque um estrangeiro sai de um país de terceiro mundo para infestar os EUA o brasileiro diz que ´só existem pobrezas no terceiro mundo porque potências, como os EUA, por muitos anos apoiaram ditaduras cruéis e abusivas em prol do seu crescimento´. Esse trecho dispensa comentários, a citação já diz por si só.

A narrativa do filme é não linear, de um lado temos o protagonista na Imigração americana, depois preso e por fim ele anos depois, no Nordeste do Brasil em busca de uma criança que, se encontrada, representará sua redenção. Nessa segunda situação, o protagonista desamparado, decadente e já aposentado encontra Bia (Cristina Lago, em uma atuação surpreendente), uma jovem aparentemente sem rumo que passa a ajudá-lo na procura pela garota.

Em sua caminhada acabamos adentrando um pouco mais na vida do nordeste brasileiro: entram os sons do forró, a seca, as mortes prematuras e a sofrida Bia, uma jovem que foge para Recife atrás de uma vida melhor e acaba se prostituindo. Bia é uma das grandes transformações durante a película, passa de uma menina ambiciosa a uma mulher destemida que ajuda a todo custo o americano a encontrar a pequena Luíza. Durante essa caminhada ela acaba se deparando com o avô, uma desavença do passado que vai mexer com seus sentimentos e mudar sua trajetória levando-a á um final mais humano e compassivo com os sentimentos do “gringo”.

Os opostos permeiam toda a trama: enquanto as cenas nos Estados Unidos são em cores escuras e frias e mostram um policial como o rei do pedaço (outro filme, meus Deus haja inspiração hoje!) as cenas no Brasil são feitas em cores quentes, com uma câmera trêmula e trilha sonora mais agitada. A busca de Marshall por um sucessor também trás esse duo: entre os dois assistentes temos Sandra (Erica Gimpel) uma policial abusiva, fria e quase tão arrogante quanto o chefe, enquanto Bob (Frank Grillo) é mais correto e menos racional, chegando a se condoer pelo caso da dançarina cubana Calipso (Branca Messina).

Joffily disse que queria em seu filme atores dos países de origens dos personagens. Como o protagonista é americano, David Rasche foi escolhido primeiro através de uma seleção feita por dvd´s, ele e mais nove atores passaram por testes com o diretor e para a sorte do público (e do próprio ator, que está em seu melhor papel) Rasche acabou ficando com o papel. E acaba por dar vida a dois Marshall durante o filme: um homem audaz e frio e outro sofrido e melancólico atrás de sua redenção. O segundo com certeza é a parte mais marcante do ator: denso e caótico ele se transforma e chega causar dor e tirar algumas lágrimas com um personagem perdido em uma terra distante.

Quanto à língua estrangeira o diretor afirma: “A Branca Messina (Calipso) morou muito tempo na Espanha, mas eu queria que ela tivesse um sotaque cubano. Coloquei um cubano ao lado dela, uns cinco meses, para fazer isso. O Irandhir pegou rápido. A Cristina Lago também não tinha muita desenvoltura no inglês. É difícil definir o quão bem um personagem deve falar inglês, como ele deveria piorar ou melhorar seu inglês. Ao mesmo tempo se entender com o elenco, no set de filmagens, e fazer improvisos. A gente fez esta opção, mas é difícil encontrar o tom”.

Olhos Azuis foi o grande vencedor no II Festival Paulínia de Cinema em 2009 arrebatando os prêmios de Melhor Filme ficção, Melhor Roteiro, Melhor Ator Coadjuvante (Irandhir Santos), Melhor Atriz (Cristina Lago), Melhor Som e Melhor Montagem.

É um bom filme. Uma boa história e um elenco afiadíssimo. Talvez o final desse texto seja menos político que o esperado, mas escrever tem dessas coisas: às vezes queremos desenvolver um assunto e acabamos nos desviando, mas o grande exemplo de civilidade e amor á pátria se deve sim aos diálogos marcantes e as ironias que permeiam todo o longa. É para pensar e questionar. Somos fruto de uma supremacia ideológica (e preconceituosa) americana que nos taxam como lixos e ainda assim queremos a todo custo Fazer a América!

Político ou não! Pensador ou não! É um filme corajoso e destemido. Merecedor de bons elogios e muitos espectadores, mas o que esperar de um país que lançou somente dezessete cópias (isso mesmo, 17) de uma história que nada mais é que uma declaração de amor aos valores dos brasileiros e de um Brasil tão esquecido.

Crítica do filme por Fred Burle

Reproduzimos abaixo crítica do filme originalmente postada no Blog Fred Burle no Cinema:

José Joffily já tinha feito um ótimo filme passado no Brasil e no exterior, Dois Perdidos Numa Noite Suja. Mas aquela era uma história mais simples, o orçamento era menor e a ambição também.

Com Olhos Azuis, o diretor nitidamente almeja mais, do público e da crítica e ainda ousa ao jogar lama no ventilador e fazer uma crítica ferrenha à hipocrisia e à xenofobia, que ficou ainda mais ressaltada nos EUA pós 11 de setembro.

Marshall é o chefe do departamento de imigração do aeroporto JFK e está no seu último dia de trabalho. Ele e sua equipe são responsáveis por entrevistar os imigrantes e liberar ou não suas entradas no país. Dentre os entrevistados daquele último dia de Marshall estão um brasileiro, uma cubana, um grupo de hondurenhos que se dizem lutadores de tae-kwon-do e um casal de poetas argentinos. Alguns deles falam a verdade e outros não.

Paralelamente às entrevistas, outra trama se desenrola: dois anos depois, Marshall viaja ao Brasil em busca de uma menina. Ele contará com a ajuda de Bia, uma pernambucana espevitada e inteligente, para procurar a menina pelo estado de Pernambuco.

Não é todo dia que se pode filmar um roteiro tão bom quanto este e Joffily fez um ótimo proveito do material que tinha em mãos. A história prende a atenção e deixa o público gradativamente tenso e curioso para saber como os acontecimentos serão ligados e em que dará aquilo tudo.

Mas isso só foi possível graças à direção precisa, à montagem difícil e bem realizada e ao elenco semidesconhecido, mas muito competente, especialmente David Rasche e a jovem Cristina Lago, excelente e encantadora no papel de Bia.

Num determinado momento, o chefe do departamento e o brasileiro discutirão e cada qual exporá seus pensamentos com relação ao assunto pautado, ambos com argumentos plausíveis e posturas diferentes. É ali o momento crucial para o filme ganhar o público ou perdê-lo. A mim, ele ganhou.

Se há algum pecado no filme, para mim, este reside na fotografia, estourada demais em determinados momentos, cujo branco chega a incomodar, aparentemente sem propósito.

Eu sempre reclamo quando um diretor nacional resolve fazer filme no estilo norteamericano, por que quase sempre fica-se somente na intenção. Com Olhos Azuis, José Joffily conseguiu extrair o que há de melhor no cinemão gringo e unir ao que há de melhor no cinema brasileiro.

Não deve em nada nem para os grandes filmes policiais hollywoodianos nem aos ótimos dramas brasileiros passados no nordeste. Infelizmente, pela “xenofobia cinéfila”, pelo protecionismo existente nos EUA e por tocar na ferida sem dó, dificilmente conseguirá exibição onde ele provavelmente seria melhor apreciado: lá, na casa do tio Sam.

 
--
O blog também sugere o trailer.
OLHOS AZUIS EMCARTAZ NUM CINEMA MAIS OU MENOS PRÓXIMO DE VOCÊ. NÃO PERCA!

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Olhos Azuis no "Pulei pela Janela, Beijos!"

Do blog "Pulei pela Janela, Beijos", por Taís Bravo.

A primeira coisa que deve ser dita sobre Olhos Azuis: é um filme destemido. Há uma Verdade que perpassa suas histórias e se apresenta ao longo de todo o filme sem nenhum vestígio de hesitação, forte e pungente.



A trama se desenvolve através de dois principais fragmentos, um se passa no departamento de imigração americana, outro no Nordeste brasileiro. À medida que a relação entre estes fragmentos torna-se mais clara, maior é a aflição que nos atinge, não queremos enxergar o final que se aproxima. No entanto, é inevitável, o clímax se instala, os fragmentos se encontram, porém o ritmo tenso que os conduz, não se satisfaz, persevera, somos abandonados em meio a ele. O filme acaba e não tem fim.


O grande mérito de Olhos Azuis é este, sua relevância que ultrapassa a sala de cinema. Pode-se falar sobre muitos aspectos incríveis do filme, as atuações brilhantes, o roteiro impecável, fotografia…É um trabalho primoroso. Mas o que realmente engrandece todas estas ações é a relevância desse cinema destemido.

A Verdade que para muitos parece ousadia expor, Olhos Azuis escancara com a honestidade de quem não suporta mais rebaixar-se a reivindicações comedidas.


Ter coragem não deveria ser um motivo de honra, mas em tempos de relativismo e cinismo, é muito mais do que isso.


Entrando em pormenores, Olhos Azuis é um filme com um viés político explícito, no qual os paradoxos do um mundo neo-liberal – em que as relações de poder se dão de forma extremamente injustas, impossibilitando, então, a existência de uma liberdade propriamente dita – são apresentados com suas reais amarguras.


O embate entre olhos negros e olhos azuis é resultado da história de homens condicionados à História. Não há condições naturais ou determinismos, tudo é construção histórica. Marshall (David Rasche), o olhos azuis, carrega em si a paranóia, o individualismo, a arrogância e um patriotismo tipicamente americanos, porém, o ser americano não se trata de uma condição natural, impassível de mudança, é uma condição histórica, logo, em contínuo processo. Bia (Cristina Lago), é outra personagem que representa uma condição típica, é a puta brasileira, mais do que brasileira, nordestina, marcada pelas intransigentes raízes do Sertão. Confesso que tal personagem era a mais problemática para mim, temia que tal estereótipo fosse apresentado superficialmente, porém Bia cresce belamente ao longo da trama, as cenas de sua volta ao Sertão apertam a garganta e dilaceram as feridas ainda não curadas.


O clímax de Olhos Azuis pode ser representado por uma imagem, a veia dilatada de Nonato (Irandhir Santos)*. A revolta deste personagem é perturbadora, porque é um grito de realidade em meio a um jogo de consentimentos, no qual, os subordinados aceitam as regras em nome de uma liberdade que nunca deveria ser requisitada. Neonato é um corpo que sofre. Ele treme, chora, sua veia dilata, a injustiça que sente vai além, ela está impregnada em suas raízes, no seu povo, na História. Ele vai até as últimas instâncias, no filme é herói, na vida real seria, provavelmente, um imprudente. Ser destemido em tempos de liberdades relativas é imprudência, falta de limite.


Porém, como já foi dito, Olhos Azuis vai além das terríveis conjunturas de nosso tempo. A tensão que pulsa através da trama é História e as injustiças atreladas a essa construção que definham as liberdades individuais. A História da ascensão capitalista da supremacia americana é a História da vida humana impedida, diminuída, controlada.


Voltamos, então, a relevância de Olhos Azuis. O que o torna importante é seu compromisso com os homens, com suas histórias individuais condicionadas e fadadas, em geral injustamente, pela História. Não há consolo após essas imagens. Há orgulho, de um filme nacional executado perfeitamente com um tema de extrema importância global, e a esperança de que pelo menos a arte seja capaz de expor o que a realidade de simulacros nos persuade a ignorar.


Olhos Azuis é o cinema como instrumento de choque, de imersão em outras experiências, para a construção de consciência de nossa própria história.
 
* Sobre a veia de Nonato e Olhos Azuis, o excelente texto de Rafael Zacca. 

sábado, 29 de maio de 2010

Crítica: Olhos Azuis por Celso Sabadin


Suspense não é exatamente um gênero cinematográfico tradional no cinema brasileiro. E por aqui, quando se fala em Polícia, logo o tema é associado a favelas ou cárceres. Assim, é mais do que bem-vinda a estreia do premiado “Olhos Azuis”, produção brasileira que mescla elementos de suspense, drama e policial sem cair na facilidade dos desgastados clichês que permeiam estes três gêneros.

O bom roteiro assinado por Melanie Dimantas e Paulo Halm enfoca o protagonista Marshall (vivido pelo norte-americano David Rasche) em três tempos bem diferentes na sua vida: (1) em seu último dia como policial de imigração de um aeroporto dos EUA, antes de se aposentar; (2) preso numa penitenciária e (3) embriagado vagando pelas praias brasileiras. Os primeiros minutos do filme não sinalizam em qual ordem cronológica poderiam ter acontecido estes três momentos. A narrativa é entrecortada, embaralha os tempos, atraindo desta forma rapidamente a atenção e a curiosidade da plateia, que é convidada a montar o seu quebra-cabeças dramatúrgico.

Aos poucos, novos personagens vão se agregando, e rapidamente a situação ambientada na terrível sala de imigração do aeroporto - um verdadeiro purgatório onde se decide quem vai para o Céu ou para o Inferno - vai ganhando mais força e se agigantando dentro do filme. Num ambiente claustrofóbico semelhante ao obtido por Giuseppe Tornatore em “Uma Simples Formalidade” (1994), o diretor José Joffily (o mesmo de “Quem Matou Pixote” e “Dois Perdidos numa Noite Suja”) cria com muita eficiência um clima de forte tensão, onde gradativamente se destilam os mais arraigados sentimentos de ódio, culpa e preconceito.

Apenas uma frágil divisória de vidro, com persianas mais frágeis ainda, separa a força policial norte-americana dos “cucarachas” ansiosos por entrar na tão decantada América. É um tênue “muro de Berlim” de vidro e compensado que simboliza um imenso fosso cultural e social. Ao lado de Rasche, os atores Frank Grillo (no papel de Bob), Erika Gimpel (Sandra) e principalmente Irandhir Santos (Nonato) brilham como coadjuvantes de primeira linha.

No outro tempo fílmico, Marshall aparece despido de sua carapuça policialesca, decadente e carcomido pelos caminhos do “inferno” para onde desceu: as belas praias do nordeste brasileiro, através das quais é ciceroneado por Bia (Cristina Lago), o sempre enigmático personagem da prostituta de bom coração.

Desencontradas no tempo e no espaço, as linhas narrativas se encaminham com competência para a solução final que - se não é exatamente surpreendente - tem o mérito de carregar consigo uma vigorosa discussão sobre as diferenças históricas e aparentemente irreconciliáveis que separam as civilizações dominantes das dominadas.

Um belo trabalho de Joffily, forte e corajoso, que foi o grande vencedor do II Festival Paulínia de Cinema com seis prêmios, incluindo o principal, de Melhor Filme.

LEIO O POST ORIGINAL NO CINECLICK

Retrato da realidade

Portal UAI, por Marcello Castilho Avellar, 28 de maio de 2010.


Clique na imagem para ampliar

sexta-feira, 28 de maio de 2010

O Globo, Rio Show, 28 de maio de 2010.
Clique na imagem para ampliar

Sobre trauma e humilhação

Laboratório Pop, por Daniel Passi, maio 2010.



Olhos azuis conta a história de Marshall (David Rasche), chefe do departamento de imigração americano, que no último dia antes da aposentadoria resolve se divertir à sua maneira, detendo um grupo de latino-americanos e expondo-os a situações humilhantes. Alcoólatra, com seus atos Marshall faz a noite tomar um rumo inesperado. Anos depois, usando como referência um vídeo dentro de uma câmera portátil, ele sai à procura de uma pequena menina por Pernambuco, contando com a ajuda da prostituta Bia. Este é um filme sobre palavras. Aqui elas agem como bombas e parecem ter o mesmo peso dos galopantes tambores de maracatu que abrem os letreiros iniciais.

Como uma grande lavação de roupa suja sem restrições morais, Olhos azuis nos mostra o ódio e o rancor ocultos de uma nação traumatizada pós 11 de setembro, representada pela figura de Marshall. Dirigido por José Joffily (Dois perdidos numa noite suja), ganhador do Festival de Paulínia de Cinema 2009, trata-se também de um filme sobre contrastes. Dicotomizam rico e pobre; claro e escuro; espaços claustrofóbicos e abertos. Não há hesitação em jogar o espectador de um lado para o outro, criando com essa agilidade uma intensa carga dramática.

Duas histórias acontecem paralelamente. Uma, em flashback, se passa inteiramente dentro do sufocante espaço do departamento de imigração de um grande aeroporto americano. Com uma iluminação fria e sons de vertigem ao fundo, a realidade é exposta de maneira crua. Para tal, Joffily lança mão de um tom documental, alcançando, porém, um nível de veracidade maior do que qualquer documentário conseguiria atingir. Talvez este seja o aspecto mais perturbador da obra — isto pode estar acontecendo neste momento, em qualquer aeroporto americano, e não há nada que possamos fazer.

Todos os personagens presos neste limbo são uma síntese, uma unidade representando um drama coletivo. Embora postos no mesmo saco latino pelos oficiais, fica clara cada particularidade. Temos o mestiço brasileiro que, saído de uma pequena cidade do interior, tenta a vida em outro país (impossível não vir à cabeça a imagem de Jean Charles); a dançarina cubana morena que mesmo conseguindo um visto cultural ainda assim é importunada por conta de Fidel; a equipe esportiva com traços andinos.

O casal de poetas argentinos é a inteligente escolha que o filme faz de não vitimizar ninguém: embora estejam saindo de Buenos Aires por não conseguirem grande aceitação de seus trabalhos, financiam sua ida traficando cocaína para os "viciados americanos", escondendo a carga dentro de seus livros (detalhe para o hilário título: Poesias y algo más).

Na situação de fragilidade em que todos se encontram, os viajantes são submetidos por um Marshall cada vez mais alterado pela garrafa de Jack Daniels que consome desde o começo do expediente e sua equipe (uma negra e um descendente de mexicanos) a tormentos desnecessários. Em especial o brasileiro Nonato (interpretado com vigor por Irandhir Santos em cartaz com Quincas Berro D’água e como a voz do protagonista itinerante de Viajo porque preciso, volto porque te amo). Na escalada de acontecimentos que se seguem, o que vemos é a reação natural de qualquer ser humano exposto a abusos físicos e psicológicos, seja ele latino, americano ou árabe — a razão é deixada de lado, torna-se então uma bomba relógio ambulante.

Corta para os grandes espaços abertos de Petrolina. Da excessiva organização burocrática do aeroporto somos jogados para Recife durante o carnaval. Da iluminação fria e artificial, para a brutal luminosidade do sertão pernambucano. Agora com todo o lirismo de um road movie, vemos Marshall, doente e alcoólatra, buscar anos depois sua redenção, como em todo filme do gênero que se preze. Para isto conta com a ajuda de Beatriz (Cristina Lago), perfeitamente a imagem estadunidense de um país latino-americano — uma prostituta com um vocabulário importado do lixo cultural estrangeiro, abundância de shits e fucks. No emocionante desfecho da história, mais uma vez a força das palavras é celebrada, mesmo que aqui sejam as que não são ditas.

Embora todos os atores estejam no tom, é David Rasche quem mostra sem dúvida uma das melhores atuações de sua carreira. Pouco conhecido do público brasileiro, foi definitivamente uma escolha acertada. Destaque também para Frank Grillo que interpreta Bob, o outro oficial de imigração. Grillo e Rashe, ao pesquisarem para o papel em aeroportos americanos, alcançaram um realismo embasbacante.

Simbólico, Olhos azuis é um dedo na ferida ainda bastante aberta do preconceito que o fará ficar sentado na poltrona depois que aparecerem os letreiros finais. Um dos poucos filmes atuais que faz o que uma boa obra de arte tem de melhor. Isto é, ser um fomentador de discussões. Olhos azuis é um filme obrigatório.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

"Olhos Azuis" aborda drama de um brasileiro nos EUA

No UOL Cinema - Últimas Notícias: Reuters, por Alysson Oliveira do CineWeb, 27 de maio de 2010.


Bia (Cristina Lago) vai ao encontro de Marshall (David Rasche) nas ruas de Pernambuco, em cena de "Olhos Azuis"

SÃO PAULO - Vencedor do principal prêmio do Festival de Paulínia do ano passado, "Olhos Azuis", dirigido por José Joffily, traz Irandhir Santos ("Quincas Berro D'Água") no papel de Nonato, um brasileiro que construiu sua vida nos Estados Unidos e é impedido de entrar novamente no país depois de passar férias em sua terra natal. O filme, roteirizado por Paulo Halm e Melanie Dimantas, estreia em circuito nacional.

Há duas linhas narrativas em "Olhos Azuis". A primeira é um embate entre Nonato e um oficial da imigração norte-americana, Marshall (David Rasche, de "Queime depois de ler"), numa pequena sala num aeroporto. O brasileiro acaba de chegar de viagem e é barrado - num processo aleatório, no qual um grupo de americanos escolhe meia dúzia de passaportes e resolve questionar essas pessoas que tentam entrar no país.

Marshall trabalha com dois colegas, Sandra (Erica Gimpel) e Bob (Frank Grillo), e está em seu último dia de atividade. Ele foi forçado a se aposentar e deverá passar o cargo. Ele não está em seu estado normal, bebeu demais e está disposto a comprar briga com qualquer pessoa.

Na outra linha, o mesmo Marshall já não é mais o mesmo sujeito bem arrumado e barbeado que barrava as pessoas que queriam entrar nos EUA. Mais velho e desleixado com a aparência, ele está no Brasil, em busca de uma garotinha cuja imagem ele vê numa câmera.

Aos poucos, a história de "Olhos Azuis" se abre e descobrimos que o americano está no país em busca da filha de Nonato e crê ter uma dívida com ela. Não é difícil de imaginar, em poucos minutos de filme, que o conflito entre Nonato e Marshall não acabou bem. No entanto, as duas tramas vão se entrecortando ao longo de quase duas horas de filme.


Joffily é um diretor com experiência em ficção ("Dois Perdidos numa noite suja", "Achados e Perdidos") e documentários ("Vocação do Poder"). Neste novo filme, imprime tensão nas duas narrativas, construídas em cima da dúvida de como os personagens chegaram no ponto em que estão.
Tecnicamente, o filme também deixa bem clara cada história, com fotografia diferente para cada uma. Nos Estados Unidos, todas as cenas são na sala do aeroporto, com planos mais fechados e iluminação artificial. No nordeste do Brasil, as cenas são bem iluminadas, quase sempre com luz natural, e os planos valorizam a paisagem local.

Apesar de sua boa intenção, em alguns momentos, "Olhos Azuis" esbarra em inconsistências. No Brasil, Marshall recebe ajuda de uma garota de programa (Cristina Lago, de "Maré - Nossa história de amor"). Ela é mais um catalisador na narrativa do que um personagem. Com domínio bastante bom do inglês, ela serve de ponte para o americano em sua investigação. No entanto, ela nunca questiona ou estranha essa busca. O mesmo acontece com as pessoas que cruzam os caminhos da dupla, que sempre fornecem informações sem a menor cautela.

Em meio a essas fragilidades, ganha força então o trabalho do ator pernambucano Irandhir Santos - em seu terceiro filme a chegar às telas no mês de maio. Além de "Olhos Azuis" e "Quincas Berro D'Água", ele é o narrador de "Viajo porque preciso, volto porque te amo". Aqui, ele é a alma desesperada do filme, um personagem preso no limbo de um aeroporto, sem pertencer nem ao Brasil nem aos Estados Unidos. A imagem de desespero de Nonato é o que fica gravado do filme.

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

LEIA O POST ORIGINAL AQUI.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Mais uma avaliação diretamente da blogsfera

do Blog: Proibido Proibir por Mattheus Rocha, maio 2010.



O cinema nacional está me enchendo de orgulho neste ano. Não são poucos os excelentes filmes lançados em 2010: Histórias de Amor Duram Apenas 90 Minutos, Sonhos Roubados, As Melhores Coisas do Mundo, Utopia e Barbárie, Quincas Berro D'água, e, agora, Olhos Azuis, novo longa de José Joffily (sem dúvida, o melhor de sua carreira). Sou capaz de apostar que o Brasil estará entre os indicados a Melhor Filme Estrangeiro no Oscar 2011. Não sei por qual, mas certamente estará. Curiosamente, além de ter dirigido Histórias de Amor..., o cineasta Paulo Halm está ligado aos roteiros de quase todos os destaques do ano. O cara tá botando a mão na massa mesmo. 
Olhos Azuis tem um tema bastante delicado. É uma crítica à xenofobia, mais evidente ainda, nos EUA, após o polêmico 11 de setembro (que fez o mundo se esquecer do assassinato de Salvador Allende). Marshall (David Rasche) é o chefe do Departamento de Imigração do Aeroporto JKF, em Nova York. Em outras palavras, ele é o buldogue que escolhe quem entra e quem não entra nos EUA, por aquelas portas. Em seu último dia de trabalho, antes da aposentadoria, ele começa a beber em serviço e perde totalmente o controle. Além de não querer deixar seu cargo (pelo poder da posição), um sério problema de saúde o aflige. Ele quer descontar suas raivas, frustrações e angústias em alguém.
Os latinos, que aguardam o carimbo em seus passaportes, são submetidos a situações humilhantes, mas o pior sobra para o brasileiro Nonato (Irandhir Santos). A tensão aumenta a cada intenso diálogo do duelo entre Marshall e ele, mesmo o roteiro deixando evidente que algo ruim acontecerá e quem levará o pior na história. A estrutura narrativa é brilhantemente dividida em três tempos, contados de forma não linear. A prisão, o conflito e a busca pela redenção, nas cidades de Pernambuco. O elenco de apoio é ótimo, com destaque para a prostituta Bia (Cristina Lago) e os atores principais têm performances geniais. Antagonista e protagonista duelam em palavras, gestos, expressões. E quem ganha é o público. Estreia: 28 de maio.
Olhos Azuis - 111 min
Brasil - 2010
Direção: José Joffily
Roteiro: Melanie Diamantas, Paulo Halm
Com: David Rasche, Frank Grillo, Erica Gimpel, Cristina Lago, Irandhir Santo.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Crítica ao filme Olhos Azuis

Do blog: The Best, maio 2010.

O filme “Olhos Azuis” do diretor José Joffily estreiará, em circuito nacional, no dia 28/05 e nós estivemos na sessão de pré- estreia dele, que aconteceu no Rio de Janeiro. Tivemos a ilustre presença do diretor José Joffily falando rapidamente sobre o filme e suas expectativas.

O roteiro que ficou parado por 9 anos e somente se concretizou após ser aprovado pelo circuito Petrobrás e pela ANCINE, através do Prêmio de Qualidade (PAQ). O que mostra que um roteiro com um bom argumento é sempre bem atual e pode ser utilizado, com algumas modificações, a qualquer momento sem perder a fidelidade ao original.

A historia do filme baseia-se na vida de Marshall (David Rasche), que é o chefe do departamento de imigração do aeroporto JFK em Nova York. Ele está se aposentando e em seu último dia de serviço resolve se divertir complicando a vida de alguns latinos que desejam entrar nos EUA. Entre eles encontra-se Nonato (Irandhir Santos), dois poetas argentinos, uma bailarina cubana e um grupo de lutadores hondurenhos. Neste dia acontecimento irão mudar para sempre a vida do americano, que 2 anos depois vem ao Brasil procurar uma menina. É onde ele conhece Bia (Cristina Lago), uma jornada em busca de redenção se inicia.

O filme se passa em dois ambientes distintos, que ocorrem em momentos diferentes e que se entrelaçam em um momento chave. Ele baseia-se muito na característica americana de achar que todos os latinos que chagam ao país estão querendo sugar suas riquezas monetárias e tirar os empregos dos americanos.

Conta com interpretações impecáveis de Irandhir Santos e David Rasche que dividem com louvor, os protagonistas do filme. O filme ainda conta com Cristina Lago fazendo um papel importante e mostrando a beleza da mulher brasileira. Este ano temos vários filmes com participações de Irandhir Santos estreando e que devem estrear em breve, pois ele, além de fazer parte de Olhos Azuis, participa do elenco de “Quincas Berro D’Agua “e fará parte de “Tropa de Elite 2“
Para quem acha que assistirá um filme nacional e não necessitará ler legendas, se prepare pois ele conta com várias línguas (português, espanhol e inglês) e é quase totalmente legendado. Inclusive esse é um dos pontos altos do filme, que conta com atores “regionalizados”, ou seja os atores são dos países de seus personagens.
O filme me surpreendeu pela riqueza de detalhes que o diretor conseguiu transmitir ao público, pela fotografia encontrada no filme e pelo roteiro que é perfeito. O filme “Olhos Azuis” faz jus a todos os 6 prêmios que recebeu no Festival de Paulínia de 2009 ( Melhor filme, Melhor roteiro (Paulo Halm e Melanie Dimanta), Melhor montagem (Pedro Bronz), Melhor atriz (Cristina Lago) e Melhor ator coadjuvante (Irandhir Santos).

Você pode seguir pelo twitter: @olhosazuisfilm







terça-feira, 18 de maio de 2010

Expurgo de pecados na busca pela humanidade

Do Blog: Doidos por Cinema, por Carlos Bacellar, maio 2010.

Credenciado pelos seis prêmios que arrematou no Festival de Paulínia 2009 − melhor roteiro (Paulo Halm e Melanie Dimantas), melhor atriz (Cristina Lago), melhor ator codjuvante (Irandhir Santos), melhor som (José Moreau Louzeiro) e melhor montagem (Pedro Bronz) −, a produção “Olhos azuis”, novo longa do diretor paraibano José Joffily, aquece os motores para sua estreia no circuito nacional, marcada para o próximo dia 28.

Ontem à noite, num esforço sob o binômio divulgação/medição da receptividade do público, foi realizada sessão exclusiva do filme para blogueiros, no Unibanco Arteplex. E o Doidos marcou presença.

“Olhos azuis” é um thriller que abarca elementos de suspense, drama e aventura policial. O elenco cosmopolita é formado por atores americanos, argentinos, hondurenhos e brasileiros.

O primoroso roteiro de Halm e Dimantas – que, infelizmente, ficou congelado durante nove anos, aguardando viabilidade – ganha movimento e colorido hipnóticos por meio das lentes de Joffily, e nos leva à reflexão.

Somos apresentados ao chefe da imigração do Aeroporto JFK (Nova Iorque), Marshall (David Rasche), que, em seu último dia de trabalho, resolve extrapolar sua autoridade e abusar de um grupo de latinos que deseja entrar nos EUA. Entre eles está Nonato (Irandhir Santos), um brasileiro radicado nos States que retorna ao país após visitar a filha no Brasil; Assumpta (Valeria Lorca) e Martin (Pablo Uranga), dois poetas argentinos que acreditam que seus versos terão melhor ressonância na terra do Tio Sam; Calypso (a encantadora Branca Messina), uma bailarina cubana; e um grupo de lutadores hondurenhos, liderados por Augustin (Hector Bordoni).
 
Ladeado por dois subordinados que almejam uma promoção que engordará seus salários − Sandra (Erica Grimpel) e Bob (Frank Grillo) −, Marshall leva os imigrantes ao limite, expondo-os a situações cada vez mais constrangedoras. Descontrolado pela bebida, que entorna como se fosse água, o chefe da imigração acaba jogando o livro de conduta profissional no lixo e humilha Nonato até o ponto em que a indignação atropela a paciência. Tal atrito gera um confronto de consequência trágicas.

O duelo entre os dois atores produz um dos mais belos momentos do cinema. A sinergia dramática lembra, não por acaso, o desempenho de Christopher Walken e Dennins Hopper em “Amor à queima-roupa”, de Tony Scott. Talvez a troca de diálogos mais antológica das últimas décadas. Nas duas situações, dois talentos entram em rota de colisão: um entorpecido pelas drogas (não preciso comentar sobre Hopper, não é verdade?), o outro acuado pela aflição fruto da humilhação degradante. O embate expõe a chaga da paranoia americana, que não parou de infeccionar após os atentados de 11 de setembro de 2001, em contraponto com o desespero de cidadãos latinos que só querem tocar suas vidas de forma digna.

Com o espírito empalado pela culpa, o americano parte numa jornada em busca da reparação – ele está além de qualquer redenção. Como um elemento extra de suspense, o ex-buldogue da alfândega americana está com os dias contados por causa de um câncer que o consome por dentro. Marshall, em seu calvário existencial e físico, abandona o Brasil dos cartões postais e atravessa o nosso Nordeste em busca da filha de Nonato, a quem deseja indenizar. Na companhia da prostituta Bia (Cristina Lago), que acaba se tornando sua fiel escudeira, ele cruza o sertão até encontrar a bela região do rio São Francisco, e o objetivo de sua jornada. Bia e Marshall possuem caminhos distintos que, em determinado momento, se cruzam por obra do acaso. Joffily fala que os dois personagens buscam suas origens, sejam elas geográficas ou humanas:

“A Bia não é apenas um personagem funcional na história. Ela vai sendo construída no sentido de entender o que leva uma pessoa a sair de sua casa, abandonar seu passado por um futuro incerto. Ela mesma sai do sertão para o Recife. E depois volta à sua raiz. O americano, faz o caminho inverso, ele sai do seu país para reencontrar sua natureza, o que ele perdeu em sua trajetória de embrutecimento.”

É interessante destacar a interpretação de Halm, que dá contornos distintos a cada dimensão espacial: “a migra é quase uma anti-sala do inferno, e a viagem pelo Nordeste, uma redescoberta que leva ao paraíso”.

Depois da desastrosa era Bush, é inevitável pensar em Marshall como uma metáfora imperialista. Mas, o diretor nunca imaginou o personagem dessa forma:

“Nunca tratei o Marshall (David Rasche) como uma personagem metáfora. A Sandra (Erica Gimpel) e ao Bob (Frank Grillo), que apesar de suas origens negra e latina, agem de forma preconceituosa, revelam que o preconceito não é só de fora para dentro. Ele também age nas entranhas do país.”

É cômodo também imaginar uma estrutura maniqueísta ditada pelo roteiro, mas Paulo Halm não iria subestimar a inteligência do público com didatismos anacrônicos. Joffily reforça esse pensamento:

“Não existem bons nem maus na história. Todos têm razão. O Marshall, alcoólatra e revoltado com a aposentadoria obrigatória, tem razão em muitas de suas falas. Ele está doidão, mas suas considerações estão presentes em corações e mentes americanas. Idem o Nonato (Irandhir Santos). Ele também interpela os oficiais de forma abusada, mas suas falas revelam um julgamento comum a boa parte dos latinos.”

A relativização da verdade também reforça as fronteiras ambíguas que separam direitos e deveres dos protagonistas. Na verdade, o antagonismo é determinado pela força da situação, como bem delineia Halm:

Não existe uma verdade única, todos têm razões diferentes, a verdade se torna um mosaico, vai mudando à medida que o ponto de vista é deslocado. Ela toma a forma tanto do americano quanto dos latinos. O Marshall com toda a sua arrogância quer transformar o último dia dele na imigração num espetáculo. Mas ele perde o controle e a situação acaba se voltando contra ele.”

Destaques do filme, montagem, fotografia – capturada pelas lentes de Nonato Estrela, que explorou com competência as belíssimas paisagens do nordeste brasileiro − e som maravilham os sentidos e criam as condições necessárias para que ocorra a simbiose perfeita entre interpretação e encenação. A edição é definida por Halm como um jogo de espelhos que brinca com a faceta cronológica:

Criamos uma duplicidade de leitura: a ideia de sair do inferno em busca do paraíso. A história é contada em tempos paralelos, criando um jogo dramático interessante. O tempo da migra, mais tenso e agressivo. E o tempo da viagem de Marshall (Recife a Petrolina), num ritmo de observação e percepção.”
A habilidade na utilização do som foi fundamental para definir os espaços e criar identidades para as ambientações, coroando tanto o trabalho de José Moreau Louzeiro como o de Jaques Morelenbaum (trilha sonora), como confirma Joffily:
Assim como no tratamento fotográfico, também no som, procuramos distinguir os dois mundos, reforçar as diferenças também na edição de som: o espaço da migra e o Nordeste. A migra não comportava música, ali, apenas os ruídos deveriam reinar. Caprichamos nesse tipo de sonoridade, dispensando a melodia. A fotografia, a edição de som, a direção de arte, tudo foi numa única direção. A música atonal do Jaques (Morelenbaum), contribuiu generosamente com a ruidagem do filme. De modo que, algumas vezes, fica difícil identificar o que é uma e outra.”

Não há como ficar impassível às violências do filme – a psicológica; a que é imposta pelas circunstâncias de pobreza e privações; e a de fato. E o mais perturbador é perceber que nem toda repressão do mundo é à prova de falhas. Paulo Halm ilustra o discurso vazio do poder:

Ironicamente os únicos que entram nos Estados Unidos estão com droga, os argentinos que são mulas, estão participando do logística do tráfico. Essa ironia torna o discurso do controle vazio e inócuo. Apesar de todo o aparato de controle da migra, o discurso não funciona. Da mesma forma que eles deixaram passar os caras que derrubaram as Torres Gêmeas.”

“Olhos azuis” tem um quê de militância. Muitos vão encará-lo como um libelo contra a intolerância. Nas palavras de Halm, o sinal amarelo está aceso:
“Qualquer pessoa que já viajou para fora do Brasil, passou, em algum grau, por constrangimento. Parece que o viajante cometeu algum crime. Em tese somos meliantes, contrabandistas. Seja na ida, seja na volta, devemos nos submeter a algum tipo de ritual de exceção, somos mal tratados fora e dentro do país. Inevitavelmente qualquer viajante vai passar por algum tipo de desconforto. Ocorre que as metrópoles estão recebendo hordas. Isso é uma bomba relógio.”

Na cena final, Marshall caminha em direção aos braços de Iemanjá e lava nossa alma com o que de melhor surgiu na filmografia nacional este ano. A água salgada deixa um gosto amargo em nossas gargantas, mas desidrata atitudes que escondem horrores, e abre o canal para o diálogo.

 

Carlos Eduardo Bacellar