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terça-feira, 13 de julho de 2010

Perfil: Cristina Lago

Revista "O Globo", de 11 de julho de 2010.

Perfil: Cristina Lago
Por Marcella Sobral
Fotos: Gustavo Pellizzon

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sexta-feira, 18 de junho de 2010

A tensão racial de Joffily

No Zero Hora, em 18 de junho de 2010, por Roger Lerina.

ESTREIAS


Vencedor de cinco prêmios no Festival de Paulínia do ano passado, inclusive de melhor filme, Olhos Azuis (2009) mostra o preconceito racial e cultural dos americanos em uma trama que mistura drama e suspense policial. No novo filme do diretor José Joffily, o setor de imigração do aeroporto JFK, em Nova York, é o palco do embate entre um policial americano e um brasileiro residente nos Estados Unidos.

Em Olhos Azuis, o excelente Irandhir Santos – ator de filmes como Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo e Quincas Berro d’Água – encarna um professor universitário que está voltando aos Estados Unidos depois de visitar a filha em Pernambuco. O destino do brasileiro Nonato, porém, muda drasticamente ao ser chamado para dar explicações ao oficial de imigração vivido pelo ator David Rasche (de Queime Depois de Ler), um preconceituoso policial com problemas de bebida que está à beira de surtar em seu último dia de trabalho. Apesar dos protestos dos subalternos interpretados pelos bons atores Frank Grillo e Erica Gimpel, o modo como o oficial Marshall trata os estrangeiros considerados suspeitos conduz os acontecimentos rumo a uma tragédia.

A história de Olhos Azuis se passa em dois tempos: as cenas no aeroporto – que renderam a Irandhir o prêmio de ator coadjuvante em Paulínia – alternam-se com sequências no Nordeste, anos depois do episódio, quando o americano tenta entrar em contato com a família de Nonato. Joffily – que adaptou a trama da peça Dois Perdidos numa Noite Suja para o mundo dos imigrantes brasileiros em Nova York em sua versão para o cinema de 2002 – denuncia a intolerância aos estrangeiros que recrudesceu nos Estados Unidos após o 11 de Setembro. No entanto, a tensão e a dramaticidade de Olhos Azuis ficam comprometidas diante do roteiro implausível e recheado de diálogos didáticos e pouco inspirados, que comprometem o resultado final do filme.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Filme brasileiro retrata trabalho de agente de imigração em aeroporto JFK

Do portal Comunidade News


“Olhos Azuis”, de José Joffily, mostra imigrantes barrados no Aeroporto JFK.


Muitos imigrantes devem se identificar com o enredo do filme “Olhos Azuis”, do cineasta brasileiro José Joffily, 64. A história, que tem atores brasileiros e estrangeiros no elenco, mostra imigrantes num aeroporto serem impedidos de entrar nos Estados Unidos. 


O enredo mostra o último dia de trabalho de Marshall (David Rasche), chefe da imigração do Aeroporto JFK de Nova Iorque. Na esperança de deixar uma lição para os subordinados, detém arbitrariamente um grupo de latinos que sonhava entrar nos Estados Unidos. A partir daí, cria-se um verdadeiro duelo entre “olhos azuis” e “olhos negros”. 


A inspiração de Joffily nasceu num documentário, onde a pedagoga americana Jane Elliot propõe aos americanos (olhos azuis) conhecerem na prática as dores de pertencerem a uma minoria (olhos negros). Depois disso, Joffily hospedou em sua casa um amigo que foi interrogado num aeroporto de Nova Iorque e deportado. 


Por telefone do Rio de Janeiro, José Joffily disse que as histórias contadas pelo amigo também o inspiraram. Na opinião dele, o sul-americano que viaja para o primeiro mundo passa muitas vezes por constrangimentos. “De maior ou menor gravidade, nos serviços de imigração”, disse ele. Segundo Joffily, o filme passeia por esta questão. “Você viajar e ser detido no aeroporto para averiguações”. 


Joffily acredita que Marshall represente o pensamento do americano médio, aquele que vive no interior dos Estados Unidos . “Entra muito a imaginação da gente com relação à história”. Segundo o cineasta, o agente de imigração é absolutamente sincero com o que ele pensa. “A democracia americana tem isso de espetacular, eles exercem o pensamento de direita ou de esquerda”. 


As manifestações vistas por Joffily, quando morou em Nova Iorque na década de 60, foram um verdadeiro encantamento para ele. Relatos de amigos e conhecidos de Joffily ajudaram a compor a história.


Depois de um desfecho trágico no aeroporto JFK, Marshall vai para o Brasil. Em busca de perdão atravessa o nordeste, guiado por Bia (Cristina Lago), uma bela garota que transforma a vida do americano. A atuação rendeu à brasileira o prêmio de Melhor Atriz no Festival Paulínia 2009, onde Irandhir Santos também foi premiado como Melhor Ator Coadjuvante.


Paraibano de João Pessoa, José Joffily é diretor, roteirista, produtor e eventualmente ator. Atuou em “Bete Balanço” e na novela “Kananga do Japão”, e ganhou o Kikito de Ouro no Festival de Gramado em 1996 por “Quem Matou Pixote?”, categorias Melhor Filme, Argumento/Roteiro. Por “Olhos Azuis”, foi premiado com A Menina de Ouro no Festival de Paulínia 2009.


A força imigrante


Sobre os Estados Unidos, disse que o país é formado por imigrantes, assim como o Brasil. “Os imigrantes é que são a força econômica do país. A força dos Estados Unidos é a imigração”. 


O time de atores de “Olhos Azuis”, composto também por cubanos, argentinos,  hondurenhos, contribuiu muito para a qualidade do filme, segundo Joffily. A questão da imigração, de acordo com o cineasta, é muito evidente. “Ninguém em sã consciência, ninguém sinceramente poderá dizer que não há uma reação dos Estados Unidos contra o imigrante”. Para ele não há o mocinho e o bandido. “Todos são mocinhos e todos são bandidos”. 


Em um filme produzido por um americano, Joffily viu guatemaltecos cruzando a fronteira mexicana. “É um filme muito violento”. 


De acordo com Joffily, os atores americanos – David Rasche, Erica Gimpel e Frank Grillo - tiveram grande contribuição na construção dos personagens de “Olhos Azuis”. “Criticavam muito o texto”. Isto deu bastante veracidade às situações do filme. Durante as filmagens, o diretor fazia uma mesa redonda com todos os atores. O filme foi todo feito no Brasil, com uma reprodução o mais fiel possível da sala do aeroporto JFK, onde os imigrantes são interrogados. 


Sobre o imigrante brasileiro nos Estados Unidos, Joffily disse que existem tanto pressões quanto condições favoráveis para a permanência dele no país. “Ele sabe que anda na rua muitas vezes, em algumas cidades, e é identificado como o antagonista, como alguém não desejável. Por outro lado tenho certeza que o imigrante aí convive com a experiênca muito boa de levar uma vida normal, no país que escolheu para viver. Certamente não é só sofrimento, só chateação, preconceito”. 


O cineasta tem curiosidade de saber a reação das pessoas, ao ver o filme. No Festival Brasileiro de Cinema de Paris, David Rasche e Irandhir Santos dividiram o prêmio de Melhor Atuação Masculina. Nos Estados Unidos, “Olhos Azuis” foi exibido no festival de Berkshire (NY) e no Cine Fest Petrobras Brasil-NY. O filme percorre ainda Miami, Vancouver e Toronto (Canadá), Israel e Londres. A crítica e o público brasileiros aplaudiram o filme. 


Atualmente Joffily está adaptando a peça “Mão na Luva”, de Oduvaldo Vianna Filho. A direção é em conjunto com Roberto Bontempo e as filmagens serão em Belo Horizonte (MG). 

Pernambucano em todas no cinema

O Dia - Rio de Janeiro /RJ - 15/6/2010 - Pág. 04 

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segunda-feira, 31 de maio de 2010

Entrevista com o cineasta José Joffily no Almanaque Virtual

Do Almanaque Virtual, Por Leonardo Luiz Ferreira

Fotos de Álvaro Riveros


O interesse pelo cinema de gênero, a partir de um episódio trágico, se faz mais uma vez presente na obra do realizador José Joffily: Olhos Azuis (2009) é um thriller que aborda temas polêmicos em uma jornada redentora. Ao intercalar projetos de ficção com documentários, Joffily soube construir uma carreira de propósitos bem definidos, nos quais cada novo filme se relaciona de alguma forma com os anteriores. O interesse permanece por personagens à margem ou que não recebem a atenção da maioria das pessoas e que estão sempre em busca de mudança. Na entrevista exclusiva, realizada quase um ano depois da consagração do longa no Festival de Paulínia, o diretor reflete sobre o projeto e revela o que lhe impulsionou para ser cineasta.

Almanaque Virtual - O que lhe moveu primeiramente a realizar cinema?

José Joffily: Falando assim rapidamente e sem pensar muito, eu diria que foi a vontade de ficar em grupo. Quando trabalhava como fotógrafo era tudo muito solitário: cobria as pautas, voltava e editava o material e colocava as legendas. Era um processo chato. A minha vida mudou quando encontrei pessoas que estavam interessadas no mesmo assunto e que tinham prazer de trabalhar com cinema. Era sedutora a ideia de realizar um filme e isso compartilhava com todos eles. Em um determinado momento se formou um grupo de realizadores que resultou na produtora Corisco Filmes, entre eles estavam Jorge Durán, Sérgio Rezende, Murilo Salles, Emiliano Ribeiro e Mariza Leão. Essa multiplicação de encontros foi importante para a minha formação como cineasta.

 
AV - O roteiro de Olhos Azuis participou de uma oficina dos laboratórios do Instituto Sundance, em 1999. Por que levou tanto tempo para realizar o filme?

José Joffily: A ideia original surgiu em 1998. Os filmes se ajustam à época, ao talão de cheques e as circunstâncias. Alguns projetos vêm à tona e outros submergem com o passar do tempo. E no caso de "Olhos Azuis", sempre mantive a vontade de realizá-lo, pois gostava muito da história e dos personagens. Na versão original do roteiro, em um dos primeiros tratamentos, o filme se passava em diversos países: mostraria flashbacks de todos os latinos detidos na migra em seus países de origem. Mas isso tornou a produção muito cara. A história do boliviano, que o policial Marshall conta para a moça em um bar, seria encenada. Ela se transforma em relato, pois gostava de sua força, além de demarcar bem o que é estar distante de seu país. O tempo de maturação do projeto trouxe prós e contras. Lamento não ter feito externas em Havana, por exemplo. Mas mantive a ideia de que os atores são oriundos dos países dos personagens. Uma história curiosa sobre a produção de "Olhos Azuis" é a de que o personagem principal seria interpretado pelo ator Robert Foster, que renasceu devido ao sucesso de "Jackie Brown" (1998), de Quentin Tarantino. Ele estava animado com o filme e completamente inteirado com o projeto. De repente, eu recebi um e-mail dele em que dizia que não poderia filmar naquele momento, pois estava comprometido com uma filmagem em Cingapura. Foi a personificação do horror: perdi o protagonista do filme com todo o plano de filmagem já traçado. Decidi partir para Nova York e pessoalmente resolver esse problema. Foi aí então que surgiu o David Rasche, um ator mais ligado a seriados e comédias. Isso foi um fator importante para sua escolha em que interpretaria um papel bem diferente. Ele desenvolveu uma camaradagem com o núcleo de personagens da imigração e se integrou rapidamente.

 
AV - O filme se estrutura a partir de dois eixos narrativos que se diferenciam em termos de escolhas estéticas: a granulação e o tom cinza e frio da sala de imigração; e o solar e arejado de Recife durante o road movie. Fale sobre a direção de fotografia e as diferenças entre locações.

José Joffily: Eu já trabalho com o fotógrafo Nonato Estrela há muitos anos. Gosto muito de descobrir a fotografia e que direções devo seguir. Fizemos uma pesquisa de campo para saber como filmar interiores e exteriores: se deveríamos usar tal lente ou o tripé, e coisas do tipo. Optei por filmar com duas câmeras na migra para não banalizar e não perder a força das cenas. Tudo era uma questão de tempo. Disse para a produção que filmaria mais rápido a migra e assim consegui mais uma equipe de filmagem. A música durante as sequências da imigração não faria sentido. Portanto, trabalhei a edição de som para configurar e dar credibilidade. Já no Nordeste, a música tinha um papel importante, mas mesmo assim sacrificamos bastante a trilha sonora.

 
AV - Olhos Azuis depende diretamente do trabalho de montagem para funcionar na tela. A tensão vai se construindo de maneira crescente. Quais foram as diretrizes da edição e o trabalho com o montador Pedro Bronz?

José Joffily: Tive muita preocupação em como fechar cada cena e como ela iria abrir na seguinte. Retiramos alguns trechos de cortes que estavam previamente marcados. Também trocamos alguns de ordem. Era importante manter o interesse do espectador na história e a montagem devia dar essa fluência. "Olhos Azuis" é o primeiro filme de ficção que o Pedro monta. Ele fez uma modificação significativa ao defender que o longa terminaria na beira do rio, com o fracionamento de cenas da abertura. Visualmente era muito mais atraente terminar dessa forma, com o personagem indo de encontro ao mar.

 
AV - O discurso da obra aborda alguns temas polêmicos, como o preconceito racial e o xenofobismo. Os personagens assumem, de certa forma, estereótipos sociais, como a argentina malandra, os hondurenhos como frágeis e falsos esportistas e o brasileiro pobre que empreende seu "american dream", entre outros. Essa construção é deliberada?

José Joffily: Nunca tivemos essa ideia. A intenção também nunca foi de mostrar os argentinos como malandros; o filme é uma coprodução com a Argentina. Em Paulínia, levantaram a questão sobre a sensualidade da cubana, mas ela é comportada e a argentina é muito mais voluptuosa. O filme, sem dúvida, ganha asas e você perde o domínio de todas as possíveis leituras. Queria, sobretudo, que fosse um longa ecumênico e que representasse os países latinos. Tiramos um personagem chileno, que na época era construído sob o signo do neo-liberalismo. E também sacamos um militar argentino que foi condenado e se matava na migra - essa história era baseada em um personagem real. Talvez tenha algo nesse sentido de refletir um pouco cada país e características, mas não foi a intenção.

 
AV - De um lado se tem o policial americano durão, ex-militar, apegado a moral e aos bons costumes. Ele chega até mesmo a ser chamado de John Wayne por uma colega de trabalho, mas também é identificado com traços da persona de Clint Eastwood, como seu personagem Dirty Harry e no recente "Gran Torino" (2008). E de outro a temática política, a causa e o efeito, que remete ao roteirista e escritor Guillermo Arriaga e ao diretor Alejandro Iñarritú em "Babel" (2006). Quais foram as principais referências para o filme?

José Joffily: Marshall é sincero, sem disfarces. Ele representa o americano médio. Defende o seu país e é um retrato explícito do povo americano que não quer estrangeiros em seu território. Durante esse episódio sobre as sanções ao Irã e as reuniões com o Brasil ninguém da imprensa lembrou de um episódio que reflete a política exterior objetiva dos Estados Unidos: o embaixador Bustani foi defenestrado do cargo porque conseguiu reduzir em um terço as substâncias químicas empregadas como armas de guerra. Isso atrapalhava o ataque a Bagdá. E isso é aplicado por eles em uma série de países. Com relação as referências, nós temos todos uma formação de milhares de filmes americanos. É um inventário de filmes e séries que estão em nosso imaginário e, com certeza, passou pela nossa cabeça tanto o John Wayne quanto o Eastwood. Passamos meses discutindo o roteiro e nos utilizamos de um infinito número de referências.

sábado, 29 de maio de 2010

DIRETOR DE ”OLHOS AZUIS” CONVERSA COM O PLANETA TELA.

Planeta Tela conversa com José Joffily.


Estreia nesta sexta-feira (28) o filme “Olhos Azuis”, grande vencedor do Festival de Paulínia do ano passado. O site Planeta Tela conversou com seu diretor, produtor e corroteirista, José Joffily.

Planeta Tela - "Olhos Azuis" é um filme forte que fala de preconceito, intolerância, racismo e redenção. De quem partiu a ideia de realizá-lo? Como nasceu o projeto?

JOFFILY - Certa vez eu hospedei em casa um amigo que viveu uma situação bizarra. Depois de longas semanas de conversas, foi ele que me inspirou a escrever o argumento do filme junto com o Jorge Durán. A experiência vivida pelo meu hóspede foi bastante semelhante à do personagem Nonato. Apenas o desfecho foi diferente.

Esse meu amigo já morava há muitos anos nos EUA e veio para o Brasil visitar a filha. Como estava em andamento um processo para concessão de green card, e ele viajou com autorização legal, e considerou que estaria tudo bem na sua volta. Passou um tempo no Brasil visitando a filha e, retornando, no aeroporto, para sua surpresa, encarou um Marshall pela frente. Como só tinha casa montada nos EUA, ele foi deportado, sem ter onde ficar. Foi aí que eu entrei.

Os múltiplos relatos de outros constrangimentos passados na migra ajudaram a compor o painel dos personagens. Claro que os depoimentos não ficaram quimicamente puros, a imaginação do que poderia ter sido também contribuiu para o resultado final. “Olhos Azuis” é um projeto de mais de 10 anos atrás. Como você sabe, produzir para cinema é assim, é grande a distância que separa a idéia de sua execução.

Planeta Tela - Pelo fato de boa parte do filme ser falada em inglês, com atores americanos, foi tentada alguma co-produção internacional?

JOFFILY - Tentei um pouquinho, mas não tinha cabeça fria para tanto. Dirigindo e produzindo, o tempo era pouco. Além das naturais atribulações da produção, o processo de seleção de atores em Nova York e na Argentina consumia um bocado de tempo.

Planeta Tela - Pelo mesmo fato, ele terá alguma estratégia diferenciada de distribuição para o mercado internacional?

JOFFILY - Estou negociando a distribuição no exterior.

Planeta Tela - Nem Suspense, nem Policial, nem Suspense Policial são gêneros tradicionais no cinema brasileiro, embora você tivesse flertado com eles em “A Maldição de Sampaku”. Você acha que o público brasileiro se surpreenderá com o fato de "Olhos Azuis" incursionar de forma tão vigorosa por estes gêneros?

JOFFILY - O filme tem uma abordagem política muito marcada. Incursionar por estes gêneros tornaria o filme mais atraente. E eu também gosto imensamente de filmar o gênero. O prazer de descobrir a posição da câmera, as cores, o contraste e os sons que constroem a imagem e o andamento de um thriller não tem preço. É um dos sabores de fazer um filme.

Gostaria que vissem o filme com o mesmo gosto.
Planeta Tela - Curiosidade: as cenas da sala de imigração foram feitas no Brasil ou nos EUA? Em que circunstâncias? É tudo estúdio?

JOFFILY - Nosso orçamento cobria apenas seis semanas de filmagem. Para conseguirmos cumprir o apertado plano contribuiu muito a decisão de se filmar em estúdio. Enquanto estávamos no nordeste, a equipe de arte construía no Rio de Janeiro o cenário da migra.

Depois de três semanas na estrada entramos para o estúdio: foi uma mistura na medida. Um contraste muito bom, sair do caldeirão do verão no sertão para o ar-condicionado do estúdio. Em locações, a pressa e o deslocamento constante, no estúdio, a calma e o conforto de ir todos os dias para o mesmo lugar.

Adoro Cinema: entrevista com José Joffily, diretor de Olhos Azuis


José Joffily é um dos diretores mais atuantes do cinema nacional na última década. Agora ele retorna ao circuito com seu novo trabalho, o drama Olhos Azuis.

O editor do Adoro Cinema Francisco Russo encontrou o diretor e bateu um papo sobre o filme. Confira logo abaixo.

ADORO CINEMA: Este é seu segundo filme relacionado com os Estados Unidos, o anterior foi Dois Perdidos Numa Noite Suja. Como você vê a diferença do país como pano de fundo nestas duas histórias?

JOSÉ JOFFILY: As histórias são muito diferentes. Um dia fiquei pensando se o Tonho não seria uma espécie de Nonato, a biografia dos dois poderia ser parecida. Mas de fato é curioso. Eu tinha um outro projeto, que naufragou, "Meu Nome Não é Joe", que era o personagem do imigrante. Não sei porque esta fixação com o imigrante. Eu sou imigrante, sou paraibano, mas é imigrante classe média e interno. Fato é que trata-se de uma questão muito contemporânea, o desejo de se movimentar para viver melhor. Acho que este sonho é legítimo, forte, intenso. Paradoxalmente em um país onde se fala que tudo é planetário as fronteiras se fecham. Há uma contradição maluca. O planeta foi esquadrinhado, com pobres para cá, ricos para lá. Você vê, acho que boa parte dos europeus gostaria que a África afundasse, para não chatear mais. O Marshall tem um discurso muito franco em relação a isto. Os Estados Unidos têm muito esta característica, é um povo muito assertivo, ele fala de fato o que pensa. O Marshall, nesta sinceridade desconcertante que ele diz e movido pelas condições físicas, é assim.

A gente gravou uma versão que contava muito da biografia dele. A gente foi subtraindo estas informações, mas havia uma biografia. Ele era um homem sozinho, não tinha se casado, era meio que o protetor do Bob. Mas o personagem sempre teve esta característica, de representar o que é a classe média americana. A grande maioria silenciosa que deixou o Obama ser eleito e, na próxima eleição, estará maciçamente para impedir que o Obama se reeleja. O Marshall representa isso.


AC: O que me fez lembrar de Dois Perdidos Numa Noite Suja foi que ele tem uma cena em que aparecem as Torres Gêmeas. Inclusive o filme foi lançado pouco depois do atentado. Isto foi um divisor de águas na questão de como tratar o imigrante nos Estados Unidos.

José: Foi. A gente filmou primeiro no Brasil, os interiores. Depois montou o filme, mas deixamos pontas pretas com o que acontecia nos exteriores de Nova York. Lembro que fomos filmar o verão, em agosto, e quando saímos de lá, poucos dias depois, aconteceu a tragédia das torres gêmeas. Lembro que na hora em que vi aquela tragédia egoistamente pensei "como é que vamos ter continuidade para o filme?" Cabeça de cineasta é muito maluca. Mas na verdade não havia problema algum, porque com as torres era o passado do Tonho e quando as torres caem é o presente. Aí voltamos para filmar no inverno. O clima já não era o mesmo nos Estados Unidos, claro. Já tinham passado cinco meses, mas a cidade ainda tinha um climão provocado pela tragédia.

AC: A questão da imigração existia naquela época também, mas de lá para cá piorou muito e ficou muito mais rígido.

José: Ficou mais dura, você viajar hoje de avião virou um inferno. É preciso ter uma paciência monumental, viajar é muito complicado. E você se sente meio intruso, com aquela fila nos aeroportos. Eles reservam uma fila acelerada para os europeus e uns guichês para avaliação mais detalhada. Como o Marshall diz, os ingleses e franceses não querem entrar aqui no nosso país para conseguir empregos.


AC: Foi desta observação que nasceu a ideia de Olhos Azuis?

José: Não, a ideia do roteiro nasceu de um amigo que ficou lá em casa. Em 1998 ele foi deportado. Morava nos Estados Unidos, estava com o green card dele vigente e encontrou um Marshall pela frente. Aí foi deportado, veio para cá e não tinha para onde ir. Ele ficou hospedado na minha casa por três meses. Uma situação bizarra, porque ele tinha casa mas não podia ir para lá, pois era em Nova York. Neste período ele planejava o retorno e me contava os episódios de imigração, de como tinha acontecido. A origem do argumento foi esta.

AC: Como foi a seleção do elenco estrangeiro?

José: Tínhamos um coprodutor argentino, que fez a seleção do elenco por lá. Enviou uns DVDs para a gente, avaliamos aqui. Nos Estados Unidos contratei um agente para fazer a seleção e nos enviar DVDs com sugestões para o Bob, a Sandra e o Marshall. Depois fui lá para conversar com uns 10 atores. O gerenciamento desta questão é meio complicado, de trazer o ator. Tudo é uma demanda especial. Dá um pouco de trabalho, mas eu e a Heloísa Rezende tínhamos a certeza de que ter um elenco pertencente aos países dos personagens conferiria ao filme um sabor especial. Valeu a pena o esforço. Não foi tão complicado, mas foi demorado. Tinha que ser um bom ator para ser o protagonista. Uma estrelona não tínhamos condições de contratar, então tinha que passar por um processo de seleção objetivando encontrar um bom ator. O Bob e a Sandra eram importantes, claro, mas não tinham a importância de um protagonista. Então dedicamos mais atenção a ele.


AC: O Irandhir Santos comentou que teve dificuldade com a língua, que você deu a ele um tempo para que aprendesse o inglês de rua. Teve mais algum caso deste tipo no elenco?

José: A Branca Messina morou muito tempo na Espanha, mas eu queria que ela tivesse um sotaque cubano. Coloquei um cubano ao lado dela, uns cinco meses, para fazer isso. O Irandhir pegou rápido. A Cristina Lago também não tinha muita desenvoltura no inglês. É difícil definir o quão bem um personagem deve falar inglês, como ele deveria piorar ou melhorar seu inglês. Ao mesmo tempo se entender com o elenco, no set de filmagens, e fazer improvisos. A gente fez esta opção, mas é difícil encontrar o tom.


AC: O filme será lançado com 17 cópias. Qual é a sua expectativa em relação a público?


José: Minha expectativa é zero. É um mercado muito afunilado e muito concentrado. Não me atreveria a dizer um número de espectadores que assistirão ao filme, teria que ter um conhecimento enorme do mercado. Mas certamente não há milagre. Para fazer um milhão de espectadores você tem que gastar um milhão de reais, ou seja, para cada espectador você gasta um real. Com sorte. Você pode não fazer e gastar um milhão, mas para fazer precisa gastar um milhão. Nâo existe algo que contrarie este pensamento.


AC: Você tem vários filmes que foram premiados, exibidos em festivais, mas não teve um grande sucesso. Como é para você, como cineasta, esta questão?


José: Lido bem, porque quero fazer os filmes que me interessam. Farei filmes melhores se eles forem com os temas que me interessam e piores se não me interessam. Eventualmente poderia até fazer, tenho artesania suficiente para fazer. Mas não me interessa. Então tenho também que considerar que já que resolvi fazer estes filmes o resultado deles certamente será diferente de uma comédia, que tenha uma aproximação maior com o público. Se bem que tenho pensado muito em fazer um outro tipo de filme. Às vezes acho que os filmes que faço são meio duros. O primeiro filme de ficção que fiz foi um curtametragem, uma comédia chamada Alô Teteia. Tinha 10 minutos, de 1978. Comédia rasgada, com a Louise Cardoso, o Hugo Carvana, Paulão e Anselmo Vasconcelos.

AC: Seu próximo projeto então deve ser uma comédia mesmo ou tem algo mais em vista?

José: Não, será uma comédia rasgada. Gostaria de fazer.
 
 
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Retrato da realidade

Portal UAI, por Marcello Castilho Avellar, 28 de maio de 2010.


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quinta-feira, 27 de maio de 2010

"Olhos Azuis" aborda drama de um brasileiro nos EUA

No UOL Cinema - Últimas Notícias: Reuters, por Alysson Oliveira do CineWeb, 27 de maio de 2010.


Bia (Cristina Lago) vai ao encontro de Marshall (David Rasche) nas ruas de Pernambuco, em cena de "Olhos Azuis"

SÃO PAULO - Vencedor do principal prêmio do Festival de Paulínia do ano passado, "Olhos Azuis", dirigido por José Joffily, traz Irandhir Santos ("Quincas Berro D'Água") no papel de Nonato, um brasileiro que construiu sua vida nos Estados Unidos e é impedido de entrar novamente no país depois de passar férias em sua terra natal. O filme, roteirizado por Paulo Halm e Melanie Dimantas, estreia em circuito nacional.

Há duas linhas narrativas em "Olhos Azuis". A primeira é um embate entre Nonato e um oficial da imigração norte-americana, Marshall (David Rasche, de "Queime depois de ler"), numa pequena sala num aeroporto. O brasileiro acaba de chegar de viagem e é barrado - num processo aleatório, no qual um grupo de americanos escolhe meia dúzia de passaportes e resolve questionar essas pessoas que tentam entrar no país.

Marshall trabalha com dois colegas, Sandra (Erica Gimpel) e Bob (Frank Grillo), e está em seu último dia de atividade. Ele foi forçado a se aposentar e deverá passar o cargo. Ele não está em seu estado normal, bebeu demais e está disposto a comprar briga com qualquer pessoa.

Na outra linha, o mesmo Marshall já não é mais o mesmo sujeito bem arrumado e barbeado que barrava as pessoas que queriam entrar nos EUA. Mais velho e desleixado com a aparência, ele está no Brasil, em busca de uma garotinha cuja imagem ele vê numa câmera.

Aos poucos, a história de "Olhos Azuis" se abre e descobrimos que o americano está no país em busca da filha de Nonato e crê ter uma dívida com ela. Não é difícil de imaginar, em poucos minutos de filme, que o conflito entre Nonato e Marshall não acabou bem. No entanto, as duas tramas vão se entrecortando ao longo de quase duas horas de filme.


Joffily é um diretor com experiência em ficção ("Dois Perdidos numa noite suja", "Achados e Perdidos") e documentários ("Vocação do Poder"). Neste novo filme, imprime tensão nas duas narrativas, construídas em cima da dúvida de como os personagens chegaram no ponto em que estão.
Tecnicamente, o filme também deixa bem clara cada história, com fotografia diferente para cada uma. Nos Estados Unidos, todas as cenas são na sala do aeroporto, com planos mais fechados e iluminação artificial. No nordeste do Brasil, as cenas são bem iluminadas, quase sempre com luz natural, e os planos valorizam a paisagem local.

Apesar de sua boa intenção, em alguns momentos, "Olhos Azuis" esbarra em inconsistências. No Brasil, Marshall recebe ajuda de uma garota de programa (Cristina Lago, de "Maré - Nossa história de amor"). Ela é mais um catalisador na narrativa do que um personagem. Com domínio bastante bom do inglês, ela serve de ponte para o americano em sua investigação. No entanto, ela nunca questiona ou estranha essa busca. O mesmo acontece com as pessoas que cruzam os caminhos da dupla, que sempre fornecem informações sem a menor cautela.

Em meio a essas fragilidades, ganha força então o trabalho do ator pernambucano Irandhir Santos - em seu terceiro filme a chegar às telas no mês de maio. Além de "Olhos Azuis" e "Quincas Berro D'Água", ele é o narrador de "Viajo porque preciso, volto porque te amo". Aqui, ele é a alma desesperada do filme, um personagem preso no limbo de um aeroporto, sem pertencer nem ao Brasil nem aos Estados Unidos. A imagem de desespero de Nonato é o que fica gravado do filme.

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

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