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segunda-feira, 7 de junho de 2010

Blog "Outra Coisa" tambem publica crítica de Olhos Azuis

Do Blog "Outra Coisa", por Rangel Andrade



Acredito que esse texto se tornará mais político que crítico. Perdoem-me, mas há uma parte em mim que precisa descrever as sensações éticas que o excelente roteiro do filme Olhos Azuis me causou. Portando não me julguem ao terminar de ler, julguem os roteiristas Paulo Halm e Melanie Dimantas, a culpa é única e exclusiva deles. Salvo a crítica que é minha!

Uma boa parcela da população sabe que a situação do estrangeiro se tornou mais catastrófica após o 11 de setembro, e entrar na América depois dos atentados virou uma missão (quase) impossível (a intenção não era lembrar o famoso filme do nosso amigo Tom Cruise). A intolerância americana cresce cada dia mais e trata os imigrantes como se todos fossem terroristas prontos a destruir a supremacia americana (o que graças a Deus vem se tornado realidade, mas não por culpa dos “invasores”, mas sim de um país hipócrita e cheio de falsas morais).

O novo filme de José Joffily (que dessa vez acertou em tudo!), toca justamente nessa ferida. Em seu último dia de emprego como o Chefe Departamento de Imigração do aeroporto JFK, em Nova Iorque, Marshall (David Rasche, em uma atuação primorosa), resolve brincar com sua autoridade ao ter que “escolher” quem vai ter o direito que entrar na América. Enfrentando problemas com o alcoolismo, ou simplesmente se divertindo ao tomar um porre, ele começa a beber durante o expediente e passa a cometer uma série de arbitrariedades contra um grupo de latino-americanos, expondo-os a situações vexatórias para autorizar sua entrada nos Estados Unidos. Dentre os mais variados candidatos à admissão que vão de um casal de argentinos carregando cocaína a uma bela dançarina cubana, passando por um grupo guatemalteco de lutadores de tae kwon do, encontra-se o brasileiro Nonato (Irandhir Santos), que tenta retornar aos Estados Unidos após ter visitado a filha no Brasil.

Marshall utiliza de toda sua autoridade para tentar provar a culpa do brasileiro, vai de um interrogatório arrogante a uma ameaça com arma. É do duelo desses personagens que temos as bem elaboradas questões políticas lançadas no filme. Após ser questionado porque um estrangeiro sai de um país de terceiro mundo para infestar os EUA o brasileiro diz que ´só existem pobrezas no terceiro mundo porque potências, como os EUA, por muitos anos apoiaram ditaduras cruéis e abusivas em prol do seu crescimento´. Esse trecho dispensa comentários, a citação já diz por si só.

A narrativa do filme é não linear, de um lado temos o protagonista na Imigração americana, depois preso e por fim ele anos depois, no Nordeste do Brasil em busca de uma criança que, se encontrada, representará sua redenção. Nessa segunda situação, o protagonista desamparado, decadente e já aposentado encontra Bia (Cristina Lago, em uma atuação surpreendente), uma jovem aparentemente sem rumo que passa a ajudá-lo na procura pela garota.

Em sua caminhada acabamos adentrando um pouco mais na vida do nordeste brasileiro: entram os sons do forró, a seca, as mortes prematuras e a sofrida Bia, uma jovem que foge para Recife atrás de uma vida melhor e acaba se prostituindo. Bia é uma das grandes transformações durante a película, passa de uma menina ambiciosa a uma mulher destemida que ajuda a todo custo o americano a encontrar a pequena Luíza. Durante essa caminhada ela acaba se deparando com o avô, uma desavença do passado que vai mexer com seus sentimentos e mudar sua trajetória levando-a á um final mais humano e compassivo com os sentimentos do “gringo”.

Os opostos permeiam toda a trama: enquanto as cenas nos Estados Unidos são em cores escuras e frias e mostram um policial como o rei do pedaço (outro filme, meus Deus haja inspiração hoje!) as cenas no Brasil são feitas em cores quentes, com uma câmera trêmula e trilha sonora mais agitada. A busca de Marshall por um sucessor também trás esse duo: entre os dois assistentes temos Sandra (Erica Gimpel) uma policial abusiva, fria e quase tão arrogante quanto o chefe, enquanto Bob (Frank Grillo) é mais correto e menos racional, chegando a se condoer pelo caso da dançarina cubana Calipso (Branca Messina).

Joffily disse que queria em seu filme atores dos países de origens dos personagens. Como o protagonista é americano, David Rasche foi escolhido primeiro através de uma seleção feita por dvd´s, ele e mais nove atores passaram por testes com o diretor e para a sorte do público (e do próprio ator, que está em seu melhor papel) Rasche acabou ficando com o papel. E acaba por dar vida a dois Marshall durante o filme: um homem audaz e frio e outro sofrido e melancólico atrás de sua redenção. O segundo com certeza é a parte mais marcante do ator: denso e caótico ele se transforma e chega causar dor e tirar algumas lágrimas com um personagem perdido em uma terra distante.

Quanto à língua estrangeira o diretor afirma: “A Branca Messina (Calipso) morou muito tempo na Espanha, mas eu queria que ela tivesse um sotaque cubano. Coloquei um cubano ao lado dela, uns cinco meses, para fazer isso. O Irandhir pegou rápido. A Cristina Lago também não tinha muita desenvoltura no inglês. É difícil definir o quão bem um personagem deve falar inglês, como ele deveria piorar ou melhorar seu inglês. Ao mesmo tempo se entender com o elenco, no set de filmagens, e fazer improvisos. A gente fez esta opção, mas é difícil encontrar o tom”.

Olhos Azuis foi o grande vencedor no II Festival Paulínia de Cinema em 2009 arrebatando os prêmios de Melhor Filme ficção, Melhor Roteiro, Melhor Ator Coadjuvante (Irandhir Santos), Melhor Atriz (Cristina Lago), Melhor Som e Melhor Montagem.

É um bom filme. Uma boa história e um elenco afiadíssimo. Talvez o final desse texto seja menos político que o esperado, mas escrever tem dessas coisas: às vezes queremos desenvolver um assunto e acabamos nos desviando, mas o grande exemplo de civilidade e amor á pátria se deve sim aos diálogos marcantes e as ironias que permeiam todo o longa. É para pensar e questionar. Somos fruto de uma supremacia ideológica (e preconceituosa) americana que nos taxam como lixos e ainda assim queremos a todo custo Fazer a América!

Político ou não! Pensador ou não! É um filme corajoso e destemido. Merecedor de bons elogios e muitos espectadores, mas o que esperar de um país que lançou somente dezessete cópias (isso mesmo, 17) de uma história que nada mais é que uma declaração de amor aos valores dos brasileiros e de um Brasil tão esquecido.

Crítica do filme por Fred Burle

Reproduzimos abaixo crítica do filme originalmente postada no Blog Fred Burle no Cinema:

José Joffily já tinha feito um ótimo filme passado no Brasil e no exterior, Dois Perdidos Numa Noite Suja. Mas aquela era uma história mais simples, o orçamento era menor e a ambição também.

Com Olhos Azuis, o diretor nitidamente almeja mais, do público e da crítica e ainda ousa ao jogar lama no ventilador e fazer uma crítica ferrenha à hipocrisia e à xenofobia, que ficou ainda mais ressaltada nos EUA pós 11 de setembro.

Marshall é o chefe do departamento de imigração do aeroporto JFK e está no seu último dia de trabalho. Ele e sua equipe são responsáveis por entrevistar os imigrantes e liberar ou não suas entradas no país. Dentre os entrevistados daquele último dia de Marshall estão um brasileiro, uma cubana, um grupo de hondurenhos que se dizem lutadores de tae-kwon-do e um casal de poetas argentinos. Alguns deles falam a verdade e outros não.

Paralelamente às entrevistas, outra trama se desenrola: dois anos depois, Marshall viaja ao Brasil em busca de uma menina. Ele contará com a ajuda de Bia, uma pernambucana espevitada e inteligente, para procurar a menina pelo estado de Pernambuco.

Não é todo dia que se pode filmar um roteiro tão bom quanto este e Joffily fez um ótimo proveito do material que tinha em mãos. A história prende a atenção e deixa o público gradativamente tenso e curioso para saber como os acontecimentos serão ligados e em que dará aquilo tudo.

Mas isso só foi possível graças à direção precisa, à montagem difícil e bem realizada e ao elenco semidesconhecido, mas muito competente, especialmente David Rasche e a jovem Cristina Lago, excelente e encantadora no papel de Bia.

Num determinado momento, o chefe do departamento e o brasileiro discutirão e cada qual exporá seus pensamentos com relação ao assunto pautado, ambos com argumentos plausíveis e posturas diferentes. É ali o momento crucial para o filme ganhar o público ou perdê-lo. A mim, ele ganhou.

Se há algum pecado no filme, para mim, este reside na fotografia, estourada demais em determinados momentos, cujo branco chega a incomodar, aparentemente sem propósito.

Eu sempre reclamo quando um diretor nacional resolve fazer filme no estilo norteamericano, por que quase sempre fica-se somente na intenção. Com Olhos Azuis, José Joffily conseguiu extrair o que há de melhor no cinemão gringo e unir ao que há de melhor no cinema brasileiro.

Não deve em nada nem para os grandes filmes policiais hollywoodianos nem aos ótimos dramas brasileiros passados no nordeste. Infelizmente, pela “xenofobia cinéfila”, pelo protecionismo existente nos EUA e por tocar na ferida sem dó, dificilmente conseguirá exibição onde ele provavelmente seria melhor apreciado: lá, na casa do tio Sam.

 
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O blog também sugere o trailer.
OLHOS AZUIS EMCARTAZ NUM CINEMA MAIS OU MENOS PRÓXIMO DE VOCÊ. NÃO PERCA!

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Entrevista com o cineasta José Joffily no Almanaque Virtual

Do Almanaque Virtual, Por Leonardo Luiz Ferreira

Fotos de Álvaro Riveros


O interesse pelo cinema de gênero, a partir de um episódio trágico, se faz mais uma vez presente na obra do realizador José Joffily: Olhos Azuis (2009) é um thriller que aborda temas polêmicos em uma jornada redentora. Ao intercalar projetos de ficção com documentários, Joffily soube construir uma carreira de propósitos bem definidos, nos quais cada novo filme se relaciona de alguma forma com os anteriores. O interesse permanece por personagens à margem ou que não recebem a atenção da maioria das pessoas e que estão sempre em busca de mudança. Na entrevista exclusiva, realizada quase um ano depois da consagração do longa no Festival de Paulínia, o diretor reflete sobre o projeto e revela o que lhe impulsionou para ser cineasta.

Almanaque Virtual - O que lhe moveu primeiramente a realizar cinema?

José Joffily: Falando assim rapidamente e sem pensar muito, eu diria que foi a vontade de ficar em grupo. Quando trabalhava como fotógrafo era tudo muito solitário: cobria as pautas, voltava e editava o material e colocava as legendas. Era um processo chato. A minha vida mudou quando encontrei pessoas que estavam interessadas no mesmo assunto e que tinham prazer de trabalhar com cinema. Era sedutora a ideia de realizar um filme e isso compartilhava com todos eles. Em um determinado momento se formou um grupo de realizadores que resultou na produtora Corisco Filmes, entre eles estavam Jorge Durán, Sérgio Rezende, Murilo Salles, Emiliano Ribeiro e Mariza Leão. Essa multiplicação de encontros foi importante para a minha formação como cineasta.

 
AV - O roteiro de Olhos Azuis participou de uma oficina dos laboratórios do Instituto Sundance, em 1999. Por que levou tanto tempo para realizar o filme?

José Joffily: A ideia original surgiu em 1998. Os filmes se ajustam à época, ao talão de cheques e as circunstâncias. Alguns projetos vêm à tona e outros submergem com o passar do tempo. E no caso de "Olhos Azuis", sempre mantive a vontade de realizá-lo, pois gostava muito da história e dos personagens. Na versão original do roteiro, em um dos primeiros tratamentos, o filme se passava em diversos países: mostraria flashbacks de todos os latinos detidos na migra em seus países de origem. Mas isso tornou a produção muito cara. A história do boliviano, que o policial Marshall conta para a moça em um bar, seria encenada. Ela se transforma em relato, pois gostava de sua força, além de demarcar bem o que é estar distante de seu país. O tempo de maturação do projeto trouxe prós e contras. Lamento não ter feito externas em Havana, por exemplo. Mas mantive a ideia de que os atores são oriundos dos países dos personagens. Uma história curiosa sobre a produção de "Olhos Azuis" é a de que o personagem principal seria interpretado pelo ator Robert Foster, que renasceu devido ao sucesso de "Jackie Brown" (1998), de Quentin Tarantino. Ele estava animado com o filme e completamente inteirado com o projeto. De repente, eu recebi um e-mail dele em que dizia que não poderia filmar naquele momento, pois estava comprometido com uma filmagem em Cingapura. Foi a personificação do horror: perdi o protagonista do filme com todo o plano de filmagem já traçado. Decidi partir para Nova York e pessoalmente resolver esse problema. Foi aí então que surgiu o David Rasche, um ator mais ligado a seriados e comédias. Isso foi um fator importante para sua escolha em que interpretaria um papel bem diferente. Ele desenvolveu uma camaradagem com o núcleo de personagens da imigração e se integrou rapidamente.

 
AV - O filme se estrutura a partir de dois eixos narrativos que se diferenciam em termos de escolhas estéticas: a granulação e o tom cinza e frio da sala de imigração; e o solar e arejado de Recife durante o road movie. Fale sobre a direção de fotografia e as diferenças entre locações.

José Joffily: Eu já trabalho com o fotógrafo Nonato Estrela há muitos anos. Gosto muito de descobrir a fotografia e que direções devo seguir. Fizemos uma pesquisa de campo para saber como filmar interiores e exteriores: se deveríamos usar tal lente ou o tripé, e coisas do tipo. Optei por filmar com duas câmeras na migra para não banalizar e não perder a força das cenas. Tudo era uma questão de tempo. Disse para a produção que filmaria mais rápido a migra e assim consegui mais uma equipe de filmagem. A música durante as sequências da imigração não faria sentido. Portanto, trabalhei a edição de som para configurar e dar credibilidade. Já no Nordeste, a música tinha um papel importante, mas mesmo assim sacrificamos bastante a trilha sonora.

 
AV - Olhos Azuis depende diretamente do trabalho de montagem para funcionar na tela. A tensão vai se construindo de maneira crescente. Quais foram as diretrizes da edição e o trabalho com o montador Pedro Bronz?

José Joffily: Tive muita preocupação em como fechar cada cena e como ela iria abrir na seguinte. Retiramos alguns trechos de cortes que estavam previamente marcados. Também trocamos alguns de ordem. Era importante manter o interesse do espectador na história e a montagem devia dar essa fluência. "Olhos Azuis" é o primeiro filme de ficção que o Pedro monta. Ele fez uma modificação significativa ao defender que o longa terminaria na beira do rio, com o fracionamento de cenas da abertura. Visualmente era muito mais atraente terminar dessa forma, com o personagem indo de encontro ao mar.

 
AV - O discurso da obra aborda alguns temas polêmicos, como o preconceito racial e o xenofobismo. Os personagens assumem, de certa forma, estereótipos sociais, como a argentina malandra, os hondurenhos como frágeis e falsos esportistas e o brasileiro pobre que empreende seu "american dream", entre outros. Essa construção é deliberada?

José Joffily: Nunca tivemos essa ideia. A intenção também nunca foi de mostrar os argentinos como malandros; o filme é uma coprodução com a Argentina. Em Paulínia, levantaram a questão sobre a sensualidade da cubana, mas ela é comportada e a argentina é muito mais voluptuosa. O filme, sem dúvida, ganha asas e você perde o domínio de todas as possíveis leituras. Queria, sobretudo, que fosse um longa ecumênico e que representasse os países latinos. Tiramos um personagem chileno, que na época era construído sob o signo do neo-liberalismo. E também sacamos um militar argentino que foi condenado e se matava na migra - essa história era baseada em um personagem real. Talvez tenha algo nesse sentido de refletir um pouco cada país e características, mas não foi a intenção.

 
AV - De um lado se tem o policial americano durão, ex-militar, apegado a moral e aos bons costumes. Ele chega até mesmo a ser chamado de John Wayne por uma colega de trabalho, mas também é identificado com traços da persona de Clint Eastwood, como seu personagem Dirty Harry e no recente "Gran Torino" (2008). E de outro a temática política, a causa e o efeito, que remete ao roteirista e escritor Guillermo Arriaga e ao diretor Alejandro Iñarritú em "Babel" (2006). Quais foram as principais referências para o filme?

José Joffily: Marshall é sincero, sem disfarces. Ele representa o americano médio. Defende o seu país e é um retrato explícito do povo americano que não quer estrangeiros em seu território. Durante esse episódio sobre as sanções ao Irã e as reuniões com o Brasil ninguém da imprensa lembrou de um episódio que reflete a política exterior objetiva dos Estados Unidos: o embaixador Bustani foi defenestrado do cargo porque conseguiu reduzir em um terço as substâncias químicas empregadas como armas de guerra. Isso atrapalhava o ataque a Bagdá. E isso é aplicado por eles em uma série de países. Com relação as referências, nós temos todos uma formação de milhares de filmes americanos. É um inventário de filmes e séries que estão em nosso imaginário e, com certeza, passou pela nossa cabeça tanto o John Wayne quanto o Eastwood. Passamos meses discutindo o roteiro e nos utilizamos de um infinito número de referências.

sábado, 29 de maio de 2010

DIRETOR DE ”OLHOS AZUIS” CONVERSA COM O PLANETA TELA.

Planeta Tela conversa com José Joffily.


Estreia nesta sexta-feira (28) o filme “Olhos Azuis”, grande vencedor do Festival de Paulínia do ano passado. O site Planeta Tela conversou com seu diretor, produtor e corroteirista, José Joffily.

Planeta Tela - "Olhos Azuis" é um filme forte que fala de preconceito, intolerância, racismo e redenção. De quem partiu a ideia de realizá-lo? Como nasceu o projeto?

JOFFILY - Certa vez eu hospedei em casa um amigo que viveu uma situação bizarra. Depois de longas semanas de conversas, foi ele que me inspirou a escrever o argumento do filme junto com o Jorge Durán. A experiência vivida pelo meu hóspede foi bastante semelhante à do personagem Nonato. Apenas o desfecho foi diferente.

Esse meu amigo já morava há muitos anos nos EUA e veio para o Brasil visitar a filha. Como estava em andamento um processo para concessão de green card, e ele viajou com autorização legal, e considerou que estaria tudo bem na sua volta. Passou um tempo no Brasil visitando a filha e, retornando, no aeroporto, para sua surpresa, encarou um Marshall pela frente. Como só tinha casa montada nos EUA, ele foi deportado, sem ter onde ficar. Foi aí que eu entrei.

Os múltiplos relatos de outros constrangimentos passados na migra ajudaram a compor o painel dos personagens. Claro que os depoimentos não ficaram quimicamente puros, a imaginação do que poderia ter sido também contribuiu para o resultado final. “Olhos Azuis” é um projeto de mais de 10 anos atrás. Como você sabe, produzir para cinema é assim, é grande a distância que separa a idéia de sua execução.

Planeta Tela - Pelo fato de boa parte do filme ser falada em inglês, com atores americanos, foi tentada alguma co-produção internacional?

JOFFILY - Tentei um pouquinho, mas não tinha cabeça fria para tanto. Dirigindo e produzindo, o tempo era pouco. Além das naturais atribulações da produção, o processo de seleção de atores em Nova York e na Argentina consumia um bocado de tempo.

Planeta Tela - Pelo mesmo fato, ele terá alguma estratégia diferenciada de distribuição para o mercado internacional?

JOFFILY - Estou negociando a distribuição no exterior.

Planeta Tela - Nem Suspense, nem Policial, nem Suspense Policial são gêneros tradicionais no cinema brasileiro, embora você tivesse flertado com eles em “A Maldição de Sampaku”. Você acha que o público brasileiro se surpreenderá com o fato de "Olhos Azuis" incursionar de forma tão vigorosa por estes gêneros?

JOFFILY - O filme tem uma abordagem política muito marcada. Incursionar por estes gêneros tornaria o filme mais atraente. E eu também gosto imensamente de filmar o gênero. O prazer de descobrir a posição da câmera, as cores, o contraste e os sons que constroem a imagem e o andamento de um thriller não tem preço. É um dos sabores de fazer um filme.

Gostaria que vissem o filme com o mesmo gosto.
Planeta Tela - Curiosidade: as cenas da sala de imigração foram feitas no Brasil ou nos EUA? Em que circunstâncias? É tudo estúdio?

JOFFILY - Nosso orçamento cobria apenas seis semanas de filmagem. Para conseguirmos cumprir o apertado plano contribuiu muito a decisão de se filmar em estúdio. Enquanto estávamos no nordeste, a equipe de arte construía no Rio de Janeiro o cenário da migra.

Depois de três semanas na estrada entramos para o estúdio: foi uma mistura na medida. Um contraste muito bom, sair do caldeirão do verão no sertão para o ar-condicionado do estúdio. Em locações, a pressa e o deslocamento constante, no estúdio, a calma e o conforto de ir todos os dias para o mesmo lugar.

Adoro Cinema: entrevista com José Joffily, diretor de Olhos Azuis


José Joffily é um dos diretores mais atuantes do cinema nacional na última década. Agora ele retorna ao circuito com seu novo trabalho, o drama Olhos Azuis.

O editor do Adoro Cinema Francisco Russo encontrou o diretor e bateu um papo sobre o filme. Confira logo abaixo.

ADORO CINEMA: Este é seu segundo filme relacionado com os Estados Unidos, o anterior foi Dois Perdidos Numa Noite Suja. Como você vê a diferença do país como pano de fundo nestas duas histórias?

JOSÉ JOFFILY: As histórias são muito diferentes. Um dia fiquei pensando se o Tonho não seria uma espécie de Nonato, a biografia dos dois poderia ser parecida. Mas de fato é curioso. Eu tinha um outro projeto, que naufragou, "Meu Nome Não é Joe", que era o personagem do imigrante. Não sei porque esta fixação com o imigrante. Eu sou imigrante, sou paraibano, mas é imigrante classe média e interno. Fato é que trata-se de uma questão muito contemporânea, o desejo de se movimentar para viver melhor. Acho que este sonho é legítimo, forte, intenso. Paradoxalmente em um país onde se fala que tudo é planetário as fronteiras se fecham. Há uma contradição maluca. O planeta foi esquadrinhado, com pobres para cá, ricos para lá. Você vê, acho que boa parte dos europeus gostaria que a África afundasse, para não chatear mais. O Marshall tem um discurso muito franco em relação a isto. Os Estados Unidos têm muito esta característica, é um povo muito assertivo, ele fala de fato o que pensa. O Marshall, nesta sinceridade desconcertante que ele diz e movido pelas condições físicas, é assim.

A gente gravou uma versão que contava muito da biografia dele. A gente foi subtraindo estas informações, mas havia uma biografia. Ele era um homem sozinho, não tinha se casado, era meio que o protetor do Bob. Mas o personagem sempre teve esta característica, de representar o que é a classe média americana. A grande maioria silenciosa que deixou o Obama ser eleito e, na próxima eleição, estará maciçamente para impedir que o Obama se reeleja. O Marshall representa isso.


AC: O que me fez lembrar de Dois Perdidos Numa Noite Suja foi que ele tem uma cena em que aparecem as Torres Gêmeas. Inclusive o filme foi lançado pouco depois do atentado. Isto foi um divisor de águas na questão de como tratar o imigrante nos Estados Unidos.

José: Foi. A gente filmou primeiro no Brasil, os interiores. Depois montou o filme, mas deixamos pontas pretas com o que acontecia nos exteriores de Nova York. Lembro que fomos filmar o verão, em agosto, e quando saímos de lá, poucos dias depois, aconteceu a tragédia das torres gêmeas. Lembro que na hora em que vi aquela tragédia egoistamente pensei "como é que vamos ter continuidade para o filme?" Cabeça de cineasta é muito maluca. Mas na verdade não havia problema algum, porque com as torres era o passado do Tonho e quando as torres caem é o presente. Aí voltamos para filmar no inverno. O clima já não era o mesmo nos Estados Unidos, claro. Já tinham passado cinco meses, mas a cidade ainda tinha um climão provocado pela tragédia.

AC: A questão da imigração existia naquela época também, mas de lá para cá piorou muito e ficou muito mais rígido.

José: Ficou mais dura, você viajar hoje de avião virou um inferno. É preciso ter uma paciência monumental, viajar é muito complicado. E você se sente meio intruso, com aquela fila nos aeroportos. Eles reservam uma fila acelerada para os europeus e uns guichês para avaliação mais detalhada. Como o Marshall diz, os ingleses e franceses não querem entrar aqui no nosso país para conseguir empregos.


AC: Foi desta observação que nasceu a ideia de Olhos Azuis?

José: Não, a ideia do roteiro nasceu de um amigo que ficou lá em casa. Em 1998 ele foi deportado. Morava nos Estados Unidos, estava com o green card dele vigente e encontrou um Marshall pela frente. Aí foi deportado, veio para cá e não tinha para onde ir. Ele ficou hospedado na minha casa por três meses. Uma situação bizarra, porque ele tinha casa mas não podia ir para lá, pois era em Nova York. Neste período ele planejava o retorno e me contava os episódios de imigração, de como tinha acontecido. A origem do argumento foi esta.

AC: Como foi a seleção do elenco estrangeiro?

José: Tínhamos um coprodutor argentino, que fez a seleção do elenco por lá. Enviou uns DVDs para a gente, avaliamos aqui. Nos Estados Unidos contratei um agente para fazer a seleção e nos enviar DVDs com sugestões para o Bob, a Sandra e o Marshall. Depois fui lá para conversar com uns 10 atores. O gerenciamento desta questão é meio complicado, de trazer o ator. Tudo é uma demanda especial. Dá um pouco de trabalho, mas eu e a Heloísa Rezende tínhamos a certeza de que ter um elenco pertencente aos países dos personagens conferiria ao filme um sabor especial. Valeu a pena o esforço. Não foi tão complicado, mas foi demorado. Tinha que ser um bom ator para ser o protagonista. Uma estrelona não tínhamos condições de contratar, então tinha que passar por um processo de seleção objetivando encontrar um bom ator. O Bob e a Sandra eram importantes, claro, mas não tinham a importância de um protagonista. Então dedicamos mais atenção a ele.


AC: O Irandhir Santos comentou que teve dificuldade com a língua, que você deu a ele um tempo para que aprendesse o inglês de rua. Teve mais algum caso deste tipo no elenco?

José: A Branca Messina morou muito tempo na Espanha, mas eu queria que ela tivesse um sotaque cubano. Coloquei um cubano ao lado dela, uns cinco meses, para fazer isso. O Irandhir pegou rápido. A Cristina Lago também não tinha muita desenvoltura no inglês. É difícil definir o quão bem um personagem deve falar inglês, como ele deveria piorar ou melhorar seu inglês. Ao mesmo tempo se entender com o elenco, no set de filmagens, e fazer improvisos. A gente fez esta opção, mas é difícil encontrar o tom.


AC: O filme será lançado com 17 cópias. Qual é a sua expectativa em relação a público?


José: Minha expectativa é zero. É um mercado muito afunilado e muito concentrado. Não me atreveria a dizer um número de espectadores que assistirão ao filme, teria que ter um conhecimento enorme do mercado. Mas certamente não há milagre. Para fazer um milhão de espectadores você tem que gastar um milhão de reais, ou seja, para cada espectador você gasta um real. Com sorte. Você pode não fazer e gastar um milhão, mas para fazer precisa gastar um milhão. Nâo existe algo que contrarie este pensamento.


AC: Você tem vários filmes que foram premiados, exibidos em festivais, mas não teve um grande sucesso. Como é para você, como cineasta, esta questão?


José: Lido bem, porque quero fazer os filmes que me interessam. Farei filmes melhores se eles forem com os temas que me interessam e piores se não me interessam. Eventualmente poderia até fazer, tenho artesania suficiente para fazer. Mas não me interessa. Então tenho também que considerar que já que resolvi fazer estes filmes o resultado deles certamente será diferente de uma comédia, que tenha uma aproximação maior com o público. Se bem que tenho pensado muito em fazer um outro tipo de filme. Às vezes acho que os filmes que faço são meio duros. O primeiro filme de ficção que fiz foi um curtametragem, uma comédia chamada Alô Teteia. Tinha 10 minutos, de 1978. Comédia rasgada, com a Louise Cardoso, o Hugo Carvana, Paulão e Anselmo Vasconcelos.

AC: Seu próximo projeto então deve ser uma comédia mesmo ou tem algo mais em vista?

José: Não, será uma comédia rasgada. Gostaria de fazer.
 
 
LEIA O POST ORIGINAL AQUI.

Retrato da realidade

Portal UAI, por Marcello Castilho Avellar, 28 de maio de 2010.


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sexta-feira, 28 de maio de 2010

Portal PLUS TV, maio 2010.

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quinta-feira, 27 de maio de 2010

América de veias abertas


"Olhos azuis" é um desses filmes que surpreende justamente por não esconder o final. Da mesma forma que todos sabem como termina a história de Jesus e, no entanto, qualquer nova versão rende bilheteria, aqui também a graça está no passar dos minutos.

O filme nos confronta com verdades e mentiras dolorosas sobre a América que não descobrimos. Nossa ferida de subdesenvolvimento se abre quando ouvimos o inglês com mel dos nordestinos Nonato e Beatriz. Nos enchemos de orgulho por el corazon latinoamericano , mas nos envergonhamos da nossa ausência de nós mesmos.

Somos um continente partido. Não queremos ser culpados, odiamos quem nos rouba tudo o que o nosso suor construiu. Sonhamos com praias tropicais e neve de verdade. Sofremos com enchentes aqui e lá. Não falamos a mesma língua, mas compartilhamos o arroz e feijão de cada dia. O Mc Donald's de cada dia. Democratizamos a solidão e temos o corpo cheio de estrelas. Nessa terra olhos azuis não movem moinhos.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Maio é também o mês do Irandhir Santos

Irandhir Santos deve estar feliz da vida com este mês se iniciando. Maio é um grande mês para o ator que vai para a telona em dois grandes filmes do cinema nacional....

Sobre o trabalho em Olhos Azuis o ator confessa: "maior desafio desse papel foi sem dúvida interpretar em inglês. Inglês sempre foi um problema, desde o tempo da escola. Porque não tinha motivação para estudar como deveria. Mas o engraçado é que eu sempre soube que um dia precisaria do inglês. Até que um dia liga a Helô (produtora do filme) e me convidada para interpretar o papel. Nesse momento ela diz: tem uma questão, você tem que interpretar em inglês. Então eu tive que voltar para a escola. Ela disse: você tem 3 meses para se preparar."

Agora respira e sorri aliviado, Irandhir! Seu premiado trabalho em maio invade os cinemas! Um presente para o público, o resultado do esforço e dedicação do ator pernambucano que no filme de José Joffily interpreta Nonato, um corajoso brasileiro que dentro do tenso território da migra americana encara Marshall (David Rasche), o bulldog de plantão nos portões da "América", pronto e disposto a fazer de tudo para impedir que os cucarachas latinos entrem em seu país.


- Postado originalmente em Sônia Lopes Comunicação e Marketing, maio 2010.

Maio será sem dúvida um mês inesquecível para ator pernambucano Irandhir Santos. Ele estará nas salas dos cinemas com três longas metragens. Quincas Berro D’água que fez sua pré-estréia na mostra no Cine PE Festival do Audiovisual 2010, sábado (1º), no Centro de Convenções. No dia 7 entra no circuito nacional com “Viajo porque preciso, volto porque te amo” de Marcelo Gomes (Cinema, aspirina e urubus) e Karim Aïnouz ( Madame Satã). E no dia 28, Olhos azuis chega às telas dos cinemas, filme de José Joffily que lhe rendeu o prêmio de melhor ator coadjuvante no festival de Paulínia \SP.
Quincas Berro D’água - O filme é baseado na obra de Jorge Amado, conta a história de do ex-funcionário público Quincas Berro d’Água, considerado o rei dos botecos, bordéis e gafieiras da Bahia. Ele é encontrado morto em sua cama. Inconformados com sua morte, seus melhores amigos “roubam” o corpo e o levam para uma última noite regada a festa e muita bebida. Em meio a mil confusões, Quincas “vive” a sua segunda e definitiva morte, desta vez como sempre sonhou. O filme tem direção de Sérgio Machado, pro dução Video Filmes, Globo Filmes, Miravista e elenco formado por Paulo José( Quincas) Marieta Severo ( Manuela), Mariana Ximenes ( Vanda), Irandhir Santos (cabo Martins) Flávio Bauraqui (Pastinha), Luis Miranda( Pé de Vento) e Frank Menezes (Curió).
Viajo porque preciso, volto porque te amo - É uma narrativa ficcional, experimental. É uma observação poética sobre o Sertão a partir de uma pessoa que está viajando e vive uma desilusão amorosa. Irandhir é Zé Renato, geógrafo que viaja a trabalho lidando com o fora que levou no amor e narra a história a partir da viagem pelo Sertão. A direção de Marcelo Gomes e Karim Ainouz.
Olhos azuis - Olhos Azuis, um filme de José Joffily: Marshall (David Rasche) é o chefe do Departamento de Imigração do aeroporto JFK, em Nova York. Comemorando seu último dia de trabalho, Marshall resolve se divertir complicando a entrada no país de vários latino-americanos. Entre eles está Nonato (Irandhir Santos), um brasileiro radicado nos EUA, dois poetas argentinos, uma bailarina cubana e um grupo de lutadores hondurenhos. Dois anos depois, Marshall vem ao Brasil procurar uma menina de nome Luiza. Quando ele conhece Bia (Cristina Lago), uma jornada em busca de redenção se inicia. Olhos Azuis foi o grande vencedor do II Festival Paulínia de Cinema com seis prêmios, incluindo o de Melhor Filme.
Fonte: Comunica Produções. Imagem: Irandhir (D) com o também ator pernambucano Flávio Rocha (E) durante evento no Recife.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Chicago, aí vamos nós!




Já está rolando nos Estados Unidos a 26ª edição do Festival de Cinema de Chicago, o evento começou dia 16 e se estenderá até o dia 29 de abril. Ao todo serão apresentados 120 filmes produzidos na América Latina, Espanha, Portugal e também Estados Unidos. Este ano as homenagens foram dedicadas às cineastas latinas, como Tatiana Gaviola (Chile), Teresa Constantini (Argentina), Mariana Chenillo e Gemma Cubero (México). O diretor do evento, Pepe Vargas, quer valorizar o trabalho das mulheres que trabalham atrás das câmeras.

Além das cineastas, também ganharam destaques os filmes americanos com foco na realidade latina "Made in USA". A vigésima sexta edição deste evento, celebra ainda as contribuições artísticas dos filmes latinos que tratam da temática LGBT (Lésbica/Gay/Bissexual/Transexual). 

E na Brazilian Night do próximo dia 28 a grande atração é "Olhos Azuis", de José Joffily.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

DES YEUX BLEUS dans le Festival du Cinéma Brésilien de Paris

Nas primeiras semanas de maio o cinema brasileiro invade o charmoso cinema parisiense Nouveau Latina na décima segunda edição do Festival de cinema brasileiro de Paris. O evento terá duas semanas de duração, na primeira serão exibidos lonas de ficção e na seguinte é a vez dos documentários.

O homenageado do festival este ano será o artista brasileiro Chico Buarque. Chico ficou muito conhecido na França após a propaganda da música Essa moça tá diferente. "O Festival traz então mais uma faceta da cultura brasileira: vai exibir cerca de 5 filmes que de alguma forma (adaptação, trilha sonora etc) foi inspirado por esse artista boêmio, apaixonado por tantas mulheres, engajado, de letras provocantes tantas vezes censuradas." (org. do Festival)

Quem quiser conferir mais da mostra sobre Chico, clique aqui.

E na semana dos longas de ficção, é a vez também do nosso "Olhos Azuis" marcar sua presença neste notável evento, em que a sétima arte brasileira pode brilhar lá fora. O diretor José Joffily levará ao público francês a história de Marshall (David Rasche), o homem-de-guarda dos portões de entrada americanos, oficial do Departamento de Imigração dos Estados Unidos, que como se pode conferir na sinopse abaixo, não será nada gentil com os latino-americanos que tentam entrar em seu país. 


OLHOS AZUIS (DES YEUX BLEUS)



José Joffily – 2010 – 105 min – Ficção – Cores – VOSTF
6a feira – 7 de maio: 21h30
Domingo – 9 de maio: 14h
Roteiro: Paulo Halm, Melanie Dimantas, Jose Joffily, Jorge Duran
Edição: Pedro Bronz
Diretor de Fotografia: Nonato Estrela
Som: François Wolf
Produção executiva: José Joffily e Heloísa Rezende
Produção: Coevos Filmes e REC / AMERICINE
Elenco: David Rasche , Cristina Lago , Irandhir Santos , Erica Gimpel , Frank Grillo
Com a presença do diretor José Joffily
OLHOS AZUIS 2Sinopse:Marshall foi chefe do Departamento de Imigração do aeroporto JFK. Cego pelo seu próprio preconceito e arrogância, abusou de sua posição ao deter um grupo de latino-americanos expondo-os a uma série de situações humilhantes que terminou em tragédia. Debilitado por uma grave doença, Marshall viaja ao Brasil em busca de redenção.
Festivais:
- Festival de Paulínia, prêmios: Melhor som, melhor atriz, melhor ator coadjuvante, melhor montagem, melhor filme, melhor roteiro
Biografia do diretor:
José Joffily nasceu em 1945 em Paraíba, Brasil. Formado em comunicação, hoje trabalha simultaneamente como produtor, roteirista e diretor. Além disso, foi professor durante 3 anos do departamento de cinema da Universidade Federal Fluminense e Presidente da Associação de Diretores brasileiros (ABRACI).
Vendas Internacionais:
Coevos Filmes
contato@coevos.com.br




OLHOS AZUIS 3OLHOS AZUIS 4

terça-feira, 13 de abril de 2010

Minha Cabeça é Vermelha, Azul e Branca, Meu Coração Verde e Amarelo

O site Brasileiros nos Estados Unidos traz uma série de informações utéis a brasileiros que desejam viajar, estudar ou viver nos Estados Unidos. Além de oferecer gratuitamente um "Guia para novos imigrantes brasileiros nos Estados Unidos" (em português), que pode ser muito valioso para quem acabou de chegar lá, o portal possui uma série de artigos de opinião bem interessante. A leitura dos artigos, bem como dos comentários feitos pelos leitores, revela um pouco do que há no imiginário dos brasileiros que, como Nonato (Irandhir Santos), o brasileiro do filme Olhos Azuis, decidiram tentar a vida lá.

Uma característica bem marcante no perfil dos brasileiros que vão para os EUA, segundo alguns artigos deste site, é que muitos já viajam para o novo país com a idéia de voltar para o Brasil após um período relativamente curto. Acontece que com o passar do tempo, a medida em que vão se adaptando, estes brasileiros vão cada vez mais abandonando a idéia do retorno rápido à terra natal, em troca de um pouco mais de tempo para trabalhar e juntar dinheiro nos Estados Unidos. A grande maioria é formada por aqueles obstinados em ganhar dinheiro ali para depois realizar os seus sonhos no Brasil,mas apesar disso há quem acabe mudando de idéia.

Um artigo curioso, que talvez pudesse ter sido escrito pelo próprio Nonato em um de seus momentos de nostalgia da sua vida no Brasil, principalmente de sua filha Luisa, é homônimo a este post e retrata bem a saudade angustiante que apesar dos fascínios da fabulosa América, faz o coração permanecer verde e amarelo.


Do site "Brasileiros nos Estados Unidos ponto com"


Os Estados Unidos é o país das oportunidades. É onde muitos de nós viemos buscar os nossos sonhos de viver uma vida melhor, com segurança, justiça, liberdade, e principalmente com uma melhor condição financeira. Para muitos imigrantes Brasileiros nos Estado Unidos, aqui é a nossa nova casa, temporária ou permanente.


Muitos Brasileiros vieram com planos de passar pouco tempo para juntar um bom dinheiro e logo voltar. Mas a realidade muitas vezes nos leva a ficar mais tempo do que originalmente programado. Outros já vieram com a intenção de ficar por aqui por um tempo indefinido. Quem sabe talvez voltar para a aposentadoria. Seja lá qual tenha sido o seu plano, o tempo vai passando, e logo você começa a se adaptar. Em pouco tempo você encontra um lugar para ficar, faz novos amigos, arruma um emprego, começa a falar bem o Inglês, e de repente você já está até participando das comemorações dos feriados de 4 de Julho e do Thanksgiving.


Sem você perceber, a sua cabeça começa a mudar. Você não é mais a mesma pessoa que chegou e a sua maneira de pensar já não bate com aquelas idéias que você trouxe do Brasil. É quando você encontra com outro Brasileiro recém chegado que você nota a diferença. É muito fácil entrar na rotina e adotar os hábitos dos Americanos: de trabalhar exaustivamente; de não aparecer na casa do outros sem avisar; ou até mesmo algo tão simples como não atravessar a rua até que o semáfaro para pedestres lhe diga que é seguro.


Confesse, se você está nos Estados Unidos a algum tempo, a sua cabeça mudou e trocou de cor. Agora é vermelha, azul e branca. Isso é quase inevitável.


Mas e o coração? Esse é bem mais teimoso. O nosso amor pelas coisas da nossa terra natal jamais nos deixa. Seja o sabor especial do nosso café, a beleza de nossa música, a ginga do nosso futebol, isso tudo faz parte do que somos e fica conosco para sempre. Por mais que você tente, as coisas aqui não têm o mesmo gostinho. Ir a praia nos Estados Unidos não se compara com ir a praia no Brasil. E quem já tentou entrar na onda da grande final do futebol americano, o Super Bowl, sabe bem que apesar de toda a badalação, a emoção jamais se compara com o sentimento que temos ao ver o nosso time jogar o verdadeiro futebol.


O poema “A Canção do Exílio” é um retrato pefeito do sentimento de muitos imigrantes Brasileiros nos Estados Unidos, ou em qualquer outro país:


Canção do Exílio


“Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.”


Gonçalves Dias


Por mais que a gente se adapte ao país adotado, e que a nossa maneira de pensar mude, os nosso sentimentos continuam os mesmos. O amor pelo Brasil e as coisas da gente ficam conosco para sempre. E quando a saudade baixa, não é fácil.


A minha cabeça pode ter se tornada vermelha, azul e branca, mais o meu coração sempre seré verde e amarelo.
O autor do texto, como se vê, é mais um dos amantes do futebol, imaginemos em ano de Copa do Mundo, como o é 2010, como fica esse coração!
Apesar de cientificamente as "essências" brasileiras embutidas no texto acima não serem exatamente comprovadas, percebemos que o que falta ao brasileiro o escreve é este algo descrito como "gostinho" das "coisas da gente". Enfim, é um texto que fala de saudade, palavra que aliás, não é traduzida no inglês.

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A história do brasileiro interpretado pelo ator Irandhir Santos e outros latino-americanos barrados no baile pelo Sr. Marshall (David Rasche), chefe do Departamento de Imigração americana no filme de José Joffily, entra no cirtuito de cinemas brasileiros no final do mês de maio. Acompanhe o Twitter do filme @olhosazuisfilm 

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Quando o sonho vira pesadelo

Em Olhos Azuis, José Joffily reconstrói uma parte - talvez a mais esperada - da viagem daqueles que sonham em viajar nos Estados Unidos: a entrada no país.

Nos minutos que precedem o primeiro passo em solo americano fora do aeroporto o coração está acelerado, as emoções a flor da pele. Afinal, estas pessoas se dedicaram muito tempo para conseguir pagar o bilhete aéreo e conseguir reunir todos os outros documentos necessários para conseguir a permissão de entrar no país. Porém, nem sempre ter os documentos "OK" é garantia de que vá correr tudo bem.

Existem diversos fóruns de discussão e mesmo de ajuda para aqueles que querem fazer esta viagem. No site de relacionamentos mais acessado do Brasil, o Orkut, há comunidades em que as pessoas trocam todo o tipo de informações, desde o que se pode levar nas malas, o que não se deve levar, onde e como preparar o visto, custos, prazo, melhores cidades para se viver lá... Tudo! Há realmente um grupo de interessados organizados em "fazer acontencer" este sonho. Interessante também é perceber que após cruzar esta fronteira, muitas pessoas voltam a comentar nestas comunidades, trazendo depoimentos sobre a felicidade de estar lá e, certamente, excitando ainda mais a imaginação daqueles que ainda estão tentando conseguir visto.

Há quem queira ir para lá estudar, há quem queira ir para trabalhar e há aqueles que, independente do que vão fazer lá, almejam viver nos Estados Unidos da América. 

Esta vontade tão urgente de tentar a vida lá, muitas das vezes, levou pessoas a tentarem a travessia ilegal pelo México. Em 2005, a Rede Globo produziu e exibiu a telenovela "América", escrita por Glória Perez, que mostrou um pouco deste ideal quase "fanático", de pessoas que a qualquer preço querem ir viver nos Estados Unidos para tentar lá uma vida melhor.

A novela causou polêmica entre brasileiros que já viviam nos Estados Unidos, como se pode ler nesta matéria da BBC Brasil, dividindo a opinião: alguns se identificavam com o drama vivido pela personagem Sol (Débora Secco) e outros criticavam o que consideravam exagerado nas dificuldades que a personagem enfrentou.

Histórias reais, parecidas com as de Sol e dos latino-americanos do filme de Joffily é que não faltam. O filme Olhos Azuis, que vai para as telonas em 28 de maio, mostra toda a tensão já dentro do departamento de imigração americano, a barreira enfrentada por quem tenta fazer a entrada pela porta da frente, mas há também muitos relatos e notícias de pessoas que passaram por situações quase inacreditáveis ao tentar fazer a travessia ilegal, via México, como a jovem brasileira da notícia abaixo:

BBC Brasil:
Paulista teve que nadar e correr por duas noites

Quando pegou o vôo de São Paulo para o México, no dia 9 de maio, a paulista Daniela, 21 anos, nem imaginava como seriam seus próximos dias. Ela queria morar nos Estados Unidos e, depois de ter o visto americano recusado pelo consulado, achou que tinha um bom plano para entrar no país.

Daniela estudava inglês na cidade onde mora, no interior do Estado, e achava que nunca seria fluente no idioma se não passasse uma temporada nos Estados Unidos.

Estimulada por amigos que já viviam no Texas, ela decidiu arriscar a travessia ilegal via México, a exemplo do que fez uma amiga, alguns anos atrás. Daniela pagou um agenciador – um "coyote", como eles são conhecidos aqui nesta região da fronteira – para organizar a travessia de carro por uma das pontes que cortam o Rio Grande, na divisa do México com o Estado do Texas.

Mas a travessia fácil que ela tinha planejado – e pela qual combinou que pagaria US$ 2,7 mil – não aconteceu. Ela teve que atravessar o rio a nado.

"Quando me contaram que teria que nadar, pensei que fosse um córrego, com água até a cintura", contou Daniela. Bem diferente disto, o Rio Grande é estreito, mas é fundo, rápido, com uma correnteza perigosa, que às vezes não é vista da superfície.
Pacote turístico
A viagem começou com um pacote turístico para Cancún, com conexão na Cidade do México. Fazendo a rota de milhares de brasileiros todos os anos, ela não despertou desconfiança dos oficiais de Imigração que carimbaram seu passaporte na capital mexicana.
Mas Daniela não pegou o avião para Cancún. Ela passou o dia no aeroporto e no fim da tarde tomou um outro, para Reynosa, na margem mexicana do Rio Grande, divisa com os Estados Unidos.
 Eu não escolhi passar por isso. Pensei que fosse passar de carro, e no caminho tudo foi mudando.
Daniela
Foi aí que começaram as dificuldades. Única não mexicana do vôo, Daniela foi colocada numa sala e questionada durante várias horas por funcionários da Imigração de Reynosa, que só a liberaram quando o aeroporto estava para fechar, depois de pedir US$ 300. O tempo todo ela disse que estava na cidade para visitar amigos.
O pagamento de propinas a oficiais de Imigração mexicanos foi relatado ao cônsul brasileiro em Houston, Milton Torres da Silva, por vários brasileiros presos nos centros de detenção aguardando deportação para o Brasil.
"Eles me contaram que foram subornados por pessoas de farda, alguns já no aeroporto da Cidade do México", disse o cônsul.
Do aeroporto, Daniela foi levada ao Hotel Conchita, por um taxista arranjado pelo funcionário de Imigração, que não cobrou a corrida e fez questão de levá-la até a porta do quarto.
Ela recebeu telefonemas de um outro agenciador, oferecendo-se para levá-la até os Estados Unidos, mas a aventura começou mesmo quando ela foi contactada pelo coyote com quem tinha combinado a viagem, ainda no Brasil.
Só aí ela ficou sabendo que não atravessaria a ponte de carro, como tinha sido combinado, mas a nado. "Minha mãe queria que eu voltasse, mas eu resolvi seguir assim mesmo, porque não me dei conta do perigo e das dificuldades", contou.
Pneu de caminhão
Ela atravessou o rio, com a ajuda de uma câmara de pneu de caminhão. Eram duas mulheres, quatro homens e dois coyotes. "Atravessamos o rio e depois corremos, corremos até que não aguentei mais", contou.
Rio em Reynosa, fronteira México-Estados Unidos
Imigrantes combinam travessia de carro mas precisam cruzar fronteira a nado
Depois de andar e correr a noite inteira, foram recolhidos por uma pessoa de carro, que os levou até um hotel, onde passaram o dia sem poder sair do quarto.
Na noite seguinte, andaram de carro por uma hora e passaram outra noite andando e correndo por uma trilha no mato, na beira da estrada.
"De manhã chegamos a uma parada de caminhão, onde descansamos um pouco, veio um carro que nos levou até outro hotel. Depois veio uma perua que nos levou até Houston", contou Daniela.
"No total a viagem durou dois dias e duas noites. Dois dias escondida no hotel e duas noites andando."
Quando finalmente chegou a um local que considerou seguro, Daniela ficou uma semana de cama, delirando à noite, pensando nos perigos pelos quais passou. "É muito perigoso. Eu tive sorte, mas não aconselho ninguém a passar por isso", diz ela. (...) continua aqui
Esta notícia, como o depoimento de Jairo Macedo Sierra sobre a experiência de sua amiga com a imigração inglesa que reproduzímos aqui neste blog é outra história que parece filme. Quase inacreditável, não? 






Não perca de vista: Olhos Azuis - 28 de maio, nos cinemas.


Confira o trailer.